Governo Lula manipulou dados, diz ex-ministro da Educação

O ex-ministro da educação do governo Fernando Henrique Cardoso, Paulo Renato Souza, acusou o Governo Federal de manipular os dados da educação para "esconder os avanços sociais registrados durante o governo passado". O Ministério da Educação não quis comentar as acusações e disse que espera a divulgação oficial dos resultados para se manifestar. A confusão no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) deste ano ? que se refere ao ano de 2002, o último do governo Fernando Henrique Cardoso ? se concentrou em um dos dois dados que formam o índice de educação. Nos números referentes a 2001 que apontam a taxa de alfabetização de adultos, divulgado no RDH de 2003, segundo o ex-ministro, foram usados os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2001. O dado que deveria ter sido enviado para a elaboração do relatório deste ano, raciocina Souza, seria a Pnad de 2002 ou uma estimativa que desse seqüência ao levantamento anterior. O dado de analfabetismo enviado pelo governo, contudo, foi tirado do Censo do ano 2000. "Houve manipulação, desonestidade intelectual e estelionato a respeito do desempenho do governo anterior", acusa Souza. "No ano que vem, o Brasil volta a subir no ranking e o governo federal vai dizer que são deles os méritos". Segundo José Carlos Libânio, representante do Pnud no Brasil, no ano passado foi enviado ao governo brasileiro e a governos de diversos países ao redor do mundo a seguinte pergunta: "quantos brasileiros com 15 anos ou mais são alfabetizados?". A escolha entre qual a fonte a ser usada ficava a critério de cada país. Libânio explica que os dados do Censo têm a vantagem de cobrir de maneira mais ampla as diversas regiões brasileiras. O levantamento da Pnad, segundo afirma ele, não abrange os habitantes de áreas rurais da região Norte do País, por exemplo, o que poderia prejudicar a qualidade dos números. A solicitação para que fossem enviados novos dados sobre analfabetismo foi feita para todos os países e territórios, mas apenas 40 mandaram. Para os 133 restantes, foram usados dados a partir de estimativas feitas pela Unesco. O Brasil foi uma das nações que mandou números novos, o que causou a confusão. ImperfeiçãoO IDH é um índice que passou a ser usado pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir dos anos 90, mas é considerado limitado pelos próprios técnicos do Pnud. Ele é usado como alternativa aos antigos índices que serviam para a comparação de países, como o PIB per capta, que acabava registrando apenas aspectos ligados à renda da população. Mesmo passando a levar em conta os dados sociais, ligados às áreas de educação e saúde, os limites do IDH permaneceriam relevantes. "Pensar em um país a partir da média acaba mais escondendo do que esclarecendo a realidade", pondera Libânio. Ele ressalta que, apesar do Brasil ter registrado importantes avanços sociais, caso se isolem os dados conforme a região, é possível detectar que no Nordeste houve retrocessos importantes. Retrocessos seriam ainda maiores em lugares localizados no interior da região. Esse nível de detalhamento, segundo Libânio, será alcançado em uma pesquisa a ser divulgada pelo Pnud ainda este ano. "Além disso, dados cruciais para medir o desenvolvimento de um país, como nível de emprego e liberdade política, não foram considerados".

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