Governo indeniza índios que atuaram no Araguaia

Comissão da Anistia pede desculpas e concede reparação financeira a grupo da etnia aikewara, que relatou violência do Exército no sul do Pará

VALMAR HUPSEL FILHO, ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h02

Em uma decisão inédita, a Comissão da Anistia pediu desculpas formais, em nome do Estado brasileiro, a um grupo de 13 índios da etnia aikewara, conhecidos como suruís, que teriam sofrido violências cometidas pelo Exército durante as operações de combate à Guerrilha do Araguaia. Cada um deles também receberá uma indenização financeira, no valor de 120 salários mínimos. É a primeira decisão em que se admite oficialmente que os índios também foram vítimas naquele episódio.

Até recentemente os suruís carregavam o estigma de colaboracionistas do Exército. Teriam servido espontaneamente como guias dos militares na caça aos guerrilheiros instalados nas matas às margens do Rio Araguaia, no sul do Pará - região onde o PC do B tentou montar um movimento de resistência armada à ditadura militar, na primeira metade da década de 1970.

Diante da Comissão da Anistia, os índios contaram que foram forçados a trabalhar durante dois anos como guias e submetidos a maus tratos, humilhações e privações. Afirmaram ainda que foram obrigados a carregar cadáveres e a segurar corpos de guerrilheiros enquanto eles eram decapitados por soldados ou moradores locais.

'Estado de sítio'. Para o presidente da comissão, Paulo Abrão, a decisão abre uma nova página sobre a história da ditadura e a guerrilha. "Com o pedido formal de desculpas do Estado brasileiro aos índios pelos sofrimentos que enfrentaram, a história da ditadura no Brasil ganha um novo complemento", disse ele ao Estado.

"O Exército implantou uma situação de estado de sítio na região, no qual os direitos dos cidadãos que viviam ali foram violados. Nós já havíamos tratado do caso dos camponeses que sofreram com os atos de exceção. Faltava reconhecer que os índios também foram vítimas", concluiu Abrão.

No caso dos camponeses, o que os familiares dos guerrilheiros desaparecidos e organizações de direitos humanos já observaram é que uma parte deles colaborou espontaneamente com os militares. Outros foram forçados.

A Comissão da Anistia foi instalada no governo Fernando Henrique Cardoso e é vinculada ao Ministério da Justiça. Em relação aos indígenas, analisou ao todo 15 processos e 13 foram deferidos.

Segundo os relatos apresentados durante a sessão de julgamento, os suruís, foram tratados como prisioneiros de guerra, em situação análoga à escravidão. A coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Sonia Bone Guajajara, classificou a decisão como histórica.

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