Governo e base aliada na CPI mista agem para reduzir danos da delação premiada

Líderes governistas tentaram dissuadir Vital do Rêgo de solicitar ao Supremo cópia das declarações de Paulo Roberto Costa

Andreza Matais e Erich Decat, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2014 | 03h00

Brasília - A amplitude e ramificações políticas contidas nos depoimentos do ex-diretor Paulo Roberto Costa no âmbito da delação premiada desencadearam no governo e entre integrantes da CPI mista da Petrobrás uma operação de “contenção de danos”. Parte da base aliada ao governo tentou dissuadir ontem o presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), de pedir ao Supremo Tribunal Federal cópia das declarações de Costa - que cumpre prisão preventiva no Paraná - no acordo firmado com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal em troca de uma eventual redução de pena ou até mesmo do perdão judicial.

Nos depoimentos que já prestou, Costa citou três dezenas de parlamentares - entre deputados e senadores -, além de governadores, ex-governadores e um ministro como beneficiários de um suposto esquema de propinas em contratos da Petrobrás. Os detalhes das oitivas, porém, ainda não são conhecidos.

Em reunião da comissão a portas fechadas, o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), argumentou que a lei do crime organizado impede a divulgação dos depoimentos de delação. O líder do PMDB, deputado Eduardo Cunha (RJ), também reforçou essa posição contrária, segundo relatos de presentes, acompanhado do relator da CPI, Marco Maia (PT-RS).

Esse grupo também tentou adiar o novo depoimento do ex-diretor, que foi agendado ontem para a próxima quarta-feira. O argumento é que Costa poderia se recusar a responder às perguntas por causa da delação premiada. A oposição não aceitou acordo e o senador Vital do Rêgo manteve o depoimento marcado e seu pedido ao Supremo. Sem o apoio do PT para sua campanha ao governo da Paraíba, Vital tem sido um braço da oposição quando o assunto é incômodo ao Planalto.

Na reunião, fechada à imprensa, o senador Gim Argello (PTB-DF) teria afirmado que o ex-diretor delatou aos policiais corrupção em contratos da Petrobrás na África. O senador, contudo, não deu mais detalhes. No seu mandato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou a empresa a investir em países africanos.

Lula tinha canal direto com Costa quando era presidente. Ele se referia ao executivo como “Paulinho” e, segundo ex-dirigentes da Petrobrás, tratava diretamente com o ex-diretor sobre investimentos da estatal.

Segundo fontes, na Costa Global, empresa do ex-diretor, há um macacão emoldurado na parede com uma dedicatória de Lula no lado esquerdo do uniforme dos funcionários da empresa. Conforme a revista Veja, na delação premiada, Costa citou o ex-presidente Lula, mas não se sabe em que contexto.

Foram citados, segundo a revista, também o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão; o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN); o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e a atual governadora do Maranhão, Roseana Sarney; o ex-governador de Pernambuco e ex-candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo no dia 13 de agosto; o ex-ministro da Cidades Mário Negromonte (PP-BA) e o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, além de outros parlamentares do PT e aliados. O portal estadao.com.br já havia revelado na sexta-feira passada que o ex-diretor fez referência ainda ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Na reunião reservada, o presidente da CPI afirmou que será necessário “refundar a República” ao se referir à delação de Costa.

Humberto Costa, em seguida, sugeriu o clima de apreensão entre empresas citadas por envolvimento com o esquema ao dizer que vários diretores estariam a caminho do aeroporto. O petista confirmou ao Estado que fez o comentário. Sobre sua posição em relação ao novo depoimento do ex-diretor, disse: “Eu não fui contra. Só ponderei que acho que não vai acontecer é nada”.

Acesso. Na linha de frente do governo, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que pediria pessoalmente ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, acesso à delação premiada feita por Costa.

Cardozo disse que ainda não sabe quando poderá ter acesso às informações prestadas pelo ex-diretor da Petrobrás. “Não posso pressionar o procurador da República. Ele tem todo o tempo que achar necessário, mas ele disse que responderá de forma célere”, ressaltou, ao deixar a posse de Ricardo Lewandowski como presidente do Supremo.

Segundo ele, os documentos poderão possibilitar que sejam tomadas “medidas corretivas” pelo Executivo. “É tudo muito novo. É a primeira vez que nós temos uma delação premiada nessas características de foro privilegiado, que sai para vir para o Supremo”, afirmou. / COLABORARAM BEATRIZ BULLA e MARIÂNGELA GALLUCCI

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