Governo do Rio volta a usar estudantes em manifestação

Uma semana depois de ser acusado de obrigar a presença de alunos do programa Vida Nova, da Secretaria de Ação Social do Estado, na inauguração de uma delegacia, o governo do Rio voltou a adotar o uso político de estudantes numa manifestação pró-governador Anthony Garotinho (PSB). O ato reuniu cerca de mil pessoas na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), que rejeitou hoje 4 dos 11 pedidos de comissão parlamentar de inquérito (CPI) contra o governo estadual.Com camisetas do programa, alunos que recebem 100 reais por mês do governo deixaram de ir à aula para gritar palavras de ordem contra o PT e o PDT, autores da maioria dos pedidos de investigação contra Garotinho. O coordenador do Vida Nova em São José Operário, na zona oeste, José Maceio Nunes, confirma que levou os alunos à manifestação para "defender o governador"."Não sou puxa-saco de político, mas os jovens precisam desse dinheiro e estão aqui para garantir isso." No fim da tarde, a secretaria anunciou que demitirá todos os coordenadores que orientaram a participação de jovens no ato.Durante a votação dos pedidos de CPI, o ex-coordenador do Vida Nova no Morro dos Cabritos, na zona sul, Danilo Ferreira de Souza, demitido esta semana, afirmou que foi afastado do programa onde trabalhava havia dois anos por ter reagido ao "uso político de jovens carentes". "Esse projeto está sendo usado de forma demagógica. Todos os coordenadores são obrigados a comparecer a atos do governo, e eu fui demitido porque não faço isso." Um aluno de 18 anos levado para a manifestação não sabia o que estava fazendo lá: "Vim para a palestra do Garotinho", disse.A coordenadora-executiva do Vida Nova, Ellen Peres, explicou que a participação dos alunos se tratava de uma "atividade extra-classe". "Faz parte do processo de participação cidadã e político", argumentou. Segundo ela, Souza foi demitido porque "não vestiu a camisa do projeto". O Vida Nova reúne 1.800 jovens de 16 a 22 anos de 50 favelas do município. Eles assistem a aulas pela manhã e, à tarde, fazem trabalhos comunitários nas áreas de saúde, meio ambiente, esporte e educação.A estudante C.G.D. de 19 anos, contou que foi para a escola e, ao chegar, todos foram orientados a entrar no ônibus que os levaria para a manifestação. "Eu vim porque preciso desse dinheiro", disse ela, que teme descontos na verba, caso não siga as orientações do coordenador. O vereador Mário Del Rei (PSB), um dos organizadores do ato, diz que pagou o transporte e o lanche - sanduíche de mortadela e refrigerante - distribuído para os jovens."Essa manifestação suspeita em que alunos são induzidos a fazer campanha política é, na verdade, um ato de manipulação que fere o Estatuto da Criança e a Constituição", disse o deputado Chico Alencar (PT). "Isso é claque", reagiu o deputado Carlos Minc (PT) às palavras de ordem da multidão pró-Garotinho. O PT pode entrar com uma representação contra o governo no Ministério Público (MP) por causa do "constrangimento" sofrido pelos alunos do Vida Nova. No fim da tarde, o subsecretário de Ação Social, Ricardo Bittar, disse que os nomes de coordenadores que obrigaram crianças a participar de atos políticos serão apurados e que todos os identificados serão demitidos. "Os jovens não são estimulados nem obrigados. Quem fez isso será demitido." Garotinho não comentou o uso político de jovens, mas disse que pedido de CPI é "politicagem de adversários"."Sentindo que iam perder no voto, estão manobrando para não ser votado hoje", disse. De fato, a oposição conseguiu adiar a votação de sete pedidos de CPI, apesar da intenção do governo de derrubar todas hoje. "Eles ficam tentando protelar para manter o assunto, mas não têm o que falar do governo. Na verdade, eles querem CPI do ´Show do Garotinho´ (que deverá ser votada apenas no dia 9)... Não é CPI do ´Show do Garotinho´; o governo do Garotinho é que é um show."

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