Governo desencadeia operação "segura Meirelles"

O governo desencadeou nesta terça uma operação "segura Meirelles", depois que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, manifestou descontentamento com declarações do novo ministro da Fazenda, Guido Mantega. O ministro disse que a permanência de Meirelles no governo era uma decisão a ser tomada pelo presidente Lula. Ele reafirmou também a análise de que o BC "errou a mão" nos juros em 2005 e de que o Brasil precisa de "juros civilizados".Uma fonte governamental confirmou que "realmente houve um estresse". Depois que os "bombeiros" entraram em ação para debelar o princípio de crise, ficou acertado que, daqui para a frente, Meirelles se reportará diretamente ao presidente Lula, da mesma forma que os ministros de Estado.O presidente do Banco Central tinha uma ligação direta com o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Era com ele que tratava os assuntos da área econômica e da política monetária. Pode-se dizer que, pela primeira vez, a medida provisória que deu status de ministro ao presidente do Banco Central está sendo utilizada não para proteger seu dirigente de problemas judiciais, mas para fixar a linha divisória na atuação do BC e do Ministério da Fazenda.Nesta terça, depois de ter conversado com o presidente Lula, Meirelles disse que não se coloca a questão sobre se ele ficará ou não na presidência do BC. "Essa questão não se coloca", repetiu várias vezes. "Estive com o presidente da República que reafirmou mais uma vez a autonomia do Banco Central", contou. O importante - disse - é que a inflação convirja para a meta, de acordo com as determinações do Conselho Monetário.Meirelles relatou que parabenizou o novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e manifestou a satisfação de ter a oportunidade de voltarem a ser colegas e trabalharem juntos. "A experiência que tivemos foi produtiva", disse, referindo-se ao período em que Mantega foi ministro do Planejamento do atual governo.Um dos principais "bombeiros" foi o líder do governo no Senado, Aluizio Mercadante (PT-SP). A ação de Mercadante foi ajudada pelo fato de ter sido ele quem convidou pessoalmente Meirelles, ainda em dezembro de 2002, para fazer parte do governo Lula . "A chance de Meirelles sair do governo é zero", garantiu Mercadante ao Estado. "Tem gente mal informada e mal intencionada que está divulgando versões fantasiosas para especular no mercado", acrescentou. "O presidente garantiu que Meirelles fica no governo".O retorno de Mantega ao primeiro escalão, no entanto, pode acirrar as zonas de atrito que existem entre a diretoria do Banco Central e a Secretaria de Tesouro, apesar do pedido de demissão de Joaquim Levy. As divergências são consideradas "parte do processo", como as que existem entre o Ministério da Fazenda e os ministros que querem aumentar os gastos. "O frisson entre Tesouro e BC e outros ministérios será o mesmo. Faz parte", admitiu uma fonte.Essas divergências vão ser monitoradas, se acontecerem. Meirelles somente nesta terça conversou com a diretoria do BC sobre as modificações na equipe do Ministério da Fazenda. A possibilidade de modificações na diretoria do BC não é confirmada nem desmentida. É fato que alguns diretores se sentem cansados e pouco à vontade para enfrentar novos movimentos de pressão por uma queda na taxa de juros em uma velocidade maior do que a desejada pelo colegiado para garantir a taxa de inflação na meta de 4,5% definida para este ano. "Aí, será a vontade de cada um. Mas, por enquanto, está tudo tranqüilo", contou um assessor.O encontro de Meirelles com o presidente Lula, ontem, está sendo utilizado por fontes do BC para exemplificar a mudança no relacionamento. A partir de agora, Mantega e Meirelles passam a ser "colegas do Conselho Monetário Nacional (CMN)". Um relacionamento bem diferente do que mantinha com o ex-ministro Antonio Palocci. Na gestão Palocci, até pelo passado de vinculação do BC ao Ministério da Fazenda, Meirelles, apesar do status de ministro, convivia com a subordinação secular. Agora, não. Com Mantega, não se trata de desfrutar de status de ministro. Meirelles é ministro."O presidente Lula não precisa reafirmar que a ministra Dilma (Rousseff, da Casa Civil), o ministro Furlan (Luiz Furlan, do Desenvolvimento e Comércio Exterior) ou o ministro Rodrigues (Roberto Rodrigues da Agricultura) continuam ministros. Isso é fato", exemplificou uma fonte. Com Palocci, não houve qualquer necessidade de explicitar que a MP tornou Meirelles um ministro do governo, até porque o mercado já estava acostumado ao fato de Palocci se colocar como responsável pelo BC. "Mas agora essa situação não se justifica. A vinculação é com o presidente da República", comenta uma fonte.No BC, as declarações de Mantega foram relativizadas no final do dia e atribuídas a uma necessidade de o novo ministro não se contradizer. O novo ministro estaria, apenas, iniciando o processo de transição de deixar a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e assumir o Ministério da Fazenda.(Colaborou Leonencio Nossa)

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