Governo dá verba para desmate, diz Greenpeace

BNDES ofereceu R$ 2,65 bi a frigoríficos entre 2007 e 2009

Cristina Amorim, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2009 | 00h00

A ONG Greenpeace acusou ontem o governo brasileiro de financiar e lucrar com o desmatamento da Amazônia. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é sócio de empresas frigoríficas que, segundo a organização, têm como fornecedores fazendas que derrubaram floresta recentemente.Entre 2007 e 2009, as cinco maiores empresas do setor, responsáveis por mais da metade das exportações brasileiras de carne, receberam US$ 2,6 bilhões do BNDES em troca de ações, aponta o grupo em relatório divulgado ontem, no qual investiga a cadeia de custódia da carne amazônica.O banco, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, tem 27% de participação na Bertin; 14% na Marfrig e 14% da JBS-Friboi, os três maiores frigoríficos, afirma o coordenador do trabalho, André Muggiati. "O governo está lucrando com o desmatamento da Amazônia."Em nota, a Bertin afirma que "todos os seus fornecedores são legais e não constam nem da lista suja - do Ministério do Trabalho e Emprego que condena práticas semelhantes à escravidão - nem de lista embargada publicada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis)". A Marfrig e a JBS-Friboi foram procuradas pela reportagem, mas não responderam.Segundo Muggiati, "o sistema é culpado por vários motivos", entre eles a falta de fiscalização, aplicação e cobrança de multas.REDE DE PRODUTOSOs produtos bovinos da Amazônia vão para indústrias da China, Estados Unidos, Itália e Reino Unido, além de brasileiras, onde são usados na produção de comidas congeladas e refrigeradas, calçados, bolsas, cosméticos, estofamento para veículos e móveis. Os consumidores não têm acesso a essa informação. "Eu não tenho como pegar um tênis e falar que ele foi feito com couro que vem de desmatamento ilegal. Mas também não tenho como dizer que não tem", explica Muggiati.O Carrefour, citado na investigação, afirma que "os produtos que comercializa são provenientes de contratos que seguem rigidamente as formalidades legais exigidas pelas entidades reguladoras". O Grupo Pão de Açúcar "convocou seus fornecedores para esclarecimentos a respeito das alegações e irá tomar as medidas cabíveis para que se faça cumprir o compromisso firmado em contrato com seus fornecedores". O Wal-Mart "considera muito graves as acusações e vai cobrar imediatamente esclarecimentos das redes de frigoríficos".O Greenpeace comparou o desenho das fazendas com dados de satélite de desmatamento recente. Mais de cem foram multados desde 2006. A ONG não diferenciou o corte permitido por lei (até 20% da propriedade na Amazônia) do ilegal. "Para nós, um desmatamento de mil hectares é um escândalo, seja ele legal ou ilegal", diz Muggiati. Um hectare equivale a um campo de futebol, aproximadamente.Segundo o Greenpeace, pelo menos uma fazenda que forneceu carne a frigoríficos está instalada ilegalmente na terra indígena Apyterewa, no Pará, onde moram cerca de 500 índios parakanã. Há cerca de 1.250 fazendas dentro da reserva, com 30 a 2.500 hectares.

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