Werther Santana / Estadão
Werther Santana / Estadão

Governo conclui etapa de despoluição do Rio Pinheiros

Até agora, 120 mil imóveis tiveram ligação de esgoto regularizada; objetivo é chegar a 533 mil localidades até 2022

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2021 | 05h00

As obras para a despoluição do Rio Pinheiros, promessa do governo João Doria (PSDB), terminaram 2020 atingindo a marca de terem feito ligações de esgoto em 120 mil imóveis na cidade de São Paulo. Embora a meta seja coletar os dejetos de 533 mil localidades, técnicos do governo acreditam que, até o fim de 2022, o governador possa anunciar o cumprimento da proposta. 

Com o rio sem cheiro nem água turva, o governo planeja reocupar suas margens, trazendo a população para perto do Pinheiros. O Estado já assinou concessões para renovar a ciclovia existente ali e para a construção, na área da antiga Usina de Traição (rebatizada Usina São Paulo), próximo à Ponte Estaiada, de um centro de convenções e gastronomia. Na semana que vem, deve anunciar o resultado de outra licitação, um chamamento público ocorrido na última terça-feira, para a criação de um parque linear.

Transformar as margens do rio Pinheiros em ponto de encontro e área de lazer é uma das apostas de Doria para se redimir com os moradores da capital paulista – onde sua taxa de rejeição chegou a 51%, na última pesquisa Ibope, em novembro. Na nova Usina São Paulo, concedida por R$ 280 milhões a um consórcio privado, o governador espera que seja criado o que ele chama de “Puerto Madero” brasileiro, em referência à área revitalizada de Buenos Aires, na Argentina

Obras

As obras de ligações de esgoto estão sendo feitas em bairros distantes até 10 quilômetros do rio, em geral em favelas com casas construídas irregularmente, que lançam o esgoto diretamente em 16 córregos que deságuam no Pinheiros. Nesses locais, a Sabesp está construindo dutos de coleta dos dejetos bem ao lado dos córregos, e levando até esse duto os canos dos imóveis que, antes, iam para o rio. Os serviços são complementados pela retirada de sujeira no próprio rio.

Parte do otimismo dos técnicos está no fato de que as empreiteiras contratadas para o serviço são remuneradas não mediante a conclusão de novas ligações, mas sim por resultado (quanto esgoto deixa de ser lançado). Quanto antes o córrego fica limpo, antes elas recebem. “Elas têm um estímulo extra para concluir o serviço”, diz o secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido. O rio estará “despoluído”, segundo as metas, quando a Demanda Biológica de Oxigênio (DBO) for de 30 mg/l. Hoje, é de 75. Quando menor o DBO, mais oxigenada está a água, o que permite a vida.

As metas do governo são tidas como “exequíveis” pela gerente da Causa Água Limpa da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro. Para ela, o projeto pode de fato retirar o odor do rio. “A forma de fazer, ter uma rede coletora ao lado do rio e essa rede receber os dejetos, tendo em vista que a ocupação das casas é irregular, é adequada. Finalmente temos uma solução para essas pessoas que eram invisíveis.”

Porém, segundo Malu, com esse índice DBO, o Pinheiros só servirá para navegação ou para a diluição de esgoto. Ela defende que haja um projeto de longo prazo para que a despoluição seja maior, o que permitiria outros usos. “O máximo (DBO) que o rio deveria ter, segundo a legislação, é 10”, afirma. “A gente venceria esse desafio promovendo uma reurbanização: retirando essas pessoas de áreas irregulares.”

Ao visitar as obras, observa-se que as ligações são feitas de canos de plástico ligadas aos dutos, seguradas em estruturas de cimento cru que se assemelham à estética precária comum das favelas. Porém, quem recebeu o serviço em seu lar o aprova. “Em casa não tinha muito cheiro de esgoto, era mais para o fim da rua. Mas eles vieram aqui, quebraram o piso e fizeram uma tubulação para a minha casa e para as duas casas de trás”, disse a pensionista Edilene Conceição Dias, de 51 anos, cuja casa foi alvo das obras em julho.

Limpeza dos rios é bandeira do ‘Estadão’

A despoluição dos rios – em especial a do Tietê – é uma bandeira do Grupo Estado. Reportagem do Estadão de 17 de outubro de 1898 já abordava o problema – uma pesquisa realizada pelo Instituto Bacteriológico apontava que amostras indicavam um rio “sujeito à contaminação de toda a espécie: recebe aguas servidas, dejecções de homens e animaes, nas margens encontram-se lavadeiras e tudo isso colloca a agua deste rio em condições perigosas”.

Até hoje, a questão é tema de editoriais e reportagens.

No início dos anos 1990, a Rádio Eldorado encabeçou uma campanha pela limpeza do rio. Um abaixo-assinado reuniu 1,2 milhão de assinaturas. A movimentação mobilizou o governo a lançar, em 1992, o Projeto Tietê para a despoluição do rio.

“Se as águas servem a todos – e estão mortas para todos –, todos devem assumir a sua cota de responsabilidade na sua ressurreição”, afirmou o Estadão no editorial A agonia do Tietê, de 8 de outubro de 2019, sobre um pacote de medidas anunciado pelo governo de São Paulo para limpar o Rio Pinheiros até 2022, assim como promover a despoluição do Rio Tietê até 2027.

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