Governo adota cautela sobre fala de ACM

Diante da gravidade da crise política criada pelas declarações do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) no encontro com os procuradores, publicadas hoje pela revista IstoÉ, o governo optou pela cautela de aguardar uma manifestação pública de ACM sobre a veracidade das conversas. No final da tarde, a decisão do presidente Fernando Henrique Cardoso foi a de dar a última chance para o senador se retratar, e assim contornar temporariamente a situação.Mas até o início da noite, fontes do Palácio do Planalto não descartavam uma reação imediata do presidente, com rompimento e demissão dos ministros e outros titulares de cargos indicados por ACM. A primeira vítima já estava definida: o ministro das Minas e Energia, Rodolfo Tourinho.Por volta das 18h, o líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF), recebeu um telefonema do presidente, que o incumbiu dar falar à imprensa em nome do governo. Em entrevista coletiva, Arruda disse que o governo aguardava uma manifestação do senador Antonio Carlos sobre a veracidade das conversas publicadas pela revista. ?Num fato dessa gravidade, a primeira coisa que se tem que saber é se o teor do diálogo é verdadeiro?, afirmou Arruda. ?Não dá para passar o carro na frente dos bois?.Antonio Carlos Magalhães, que está na Flórida em viagem de descanso, foi informado sobre a reportagem da IstoÉ por volta das 14h. Às 19h, seu gabinete no Senado divulgou nota, negando as declarações publicadas. ?Não se tratou de nenhum fato específico em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso, e sim sobre a medida provisória que tirava o prestígio dos procuradores e também sobre a Lei da Mordaça.ACM afirmou na nota que foi convidado pelo procurador Guilherme Schelb para uma conversa sobre a medida provisória de fatos decorrentes do trabalho dos procuradores em apurações de atos ilícitos. Disse ainda que, ao final da conversa com os procuradores Schelb, Eliana Peres Torelly e Luiz Francisco de Souza, eles citaram meios para o senador conseguir provas sobre as denúncias contra o senador Jader Barbalho.As sugestões foram dadas, segundo ACM, principalmente por Luiz Francisco. ?O mais, são explorações próprias de quem tem medo de investigações, como o senador Jader Barbalho?, acrescenta ACM. Antonio Carlos afirma que o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, já pode quebrar os sigilos bancário e fiscal dele próprio e de Jader para provar ?quem é o desonesto?. E encerra dizendo que, sobre todos os fatos, o senador Antonio Carlos tem o testemunho dos procuradores Schelb e Eliana Torelly. Já informado na véspera que a revista IstoÉ traria trechos da conversa entre ACM e os procuradores, Fernando Henrique, apesar de enfurecido com a história, manteve suspense durante todo o dia sobre sua posição com relação a ACM. ?Se ACM foi mesmo aos procuradores oferecer dados sobre Eduardo Jorge, é prova de uma traição explícita, é inaceitável?, observou um interlocutor de Fernando Henrique.Mas prevaleceu até o início da noite a ponderação de que o governo não poderia tomar atitude antes de ter uma manifestação de Antonio Carlos Magalhães. ?O presidente tem que se preocupar com a governabilidade e sabe que, para governar, precisa de todos os partidos, e não pode perder o lado do partido que ainda quer ficar com ele?, explicou um assessor de Fernando Henrique. Ele acrescentou que, se o presidente entrasse no episódio, respondendo a ACM, valorizaria o debate. Durante toda a tarde, Fernando Henrique avaliou a situação com poucos assessores, no Palácio do Planalto. Seus principais articuladores políticos no Congresso estavam fora de Brasília.

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