Governo admite que maquiou números da reforma agrária

O presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Sebastião Azevedo, admitiu hoje que o balanço do governo federal sobre a reforma agrária em 2001 considerou como assentadas famílias que ainda não receberam terras. Segundo ele, esse procedimento foi adotado também em anos anteriores, de modo que o número de sem-terra atendidos durante o governo Fernando Henrique Cardoso, desde 1995, é inferior ao divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.Em fevereiro, o ministério anunciou que 102.449 famílias tinham sido beneficiadas no ano passado. Ao todo, nos sete anos da era FHC, 584 mil famílias teriam sido atendidas. Esses números, no entanto, incluem futuros assentados que apenas foram selecionados para ocupar áreas disponíveis para a reforma agrária. Azevedo não soube dizer quantas famílias nessa situação ajudaram a aumentar as estatísticas, mas prometeu divulgar o dado até junho.?Pode haver diferença entre o número de famílias assentadas e instaladas?, disse o presidente do Incra, esclarecendo a diferença semântica entre os dois termos no vocabulário do governo. Segundo ele, um sem-terra passa a ser considerado ?assentado? tão logo seja selecionado para ocupar área cuja destinação, para fins de reforma agrária, esteja publicada no Diário Oficial. A ?instalação? ocorre quando ele efetivamente ocupa a área. A publicidade do governo, porém, ignora essa distinção.Desse modo, o balanço de 2001 incluiu como assentadas as 280 famílias previstas para ocupar o Projeto Agrotecnológico do Distrito Federal - área de 2.142 hectares na cidade-satélite de Planaltina, a cerca de 50 quilômetros de Brasília. No local, só há pasto e campo vazio.?Se isso acontece aqui, a poucos quilômetros do Congresso, imagina o que é a reforma agrária no interior do Maranhão?, criticou o líder do PT na Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (SP). Ele e outros dez deputados petistas levaram a imprensa para conhecer o Projeto Agrotecnológico, que só existe no papel.O PT entrou com representação no Ministério Público Federal contra o governo e o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário Raul Jungmann, que deixou o cargo em abril para concorrer a deputado federal por Pernambuco, nas eleições de outubro. O partido quer o ressarcimento das despesas com publicidade sobre reforma agrária. ?Jungmann fez propaganda enganosa no Brasil e no exterior?, disse Cunha.O presidente do Incra atribuiu a demora no assentamento das 280 famílias à realização de estudo de impacto ambiental exigido pelo governo do DF, que é parceiro do governo federal no empreendimento. Segundo Azevedo, os sem-terra deverão ocupar o local em até três meses.

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