Governo aciona ´tropa de elite´ para evitar CPI do Apagão

No desespero de tentar barrar a instalação da CPI do Apagão em meio à crise entre o Palácio do Planalto e a Aeronáutica, os governistas investiram sobre a oposição nos últimos dias e abriram diálogo com lideranças do PSDB e PFL. A ofensiva, que mirou especialmente os tucanos, pôs em campo uma "tropa de elite", formada por petistas e líderes aliados, com a missão de convencer a oposição dos "perigos" da CPI, que pode desencadear outra crise militar. Quem ficou à frente do grupo foi o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), mas contou com aliados de outros partidos, como os líderes do governo, deputado José Múcio Monteiro (PTB-PE), e do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), além do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Mas até o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), participou do esforço do governo. Além das conversas no gabinete de trabalho, Chinaglia recebeu adversários do Planalto, como o líder tucano Antônio Carlos Pannunzio (SP), para jantar na residência oficial da Câmara. Em todos os contatos, os governistas procuraram mostrar que a CPI do Apagão não preocupa por se propor a investigar casos de corrupção na Infraero. O tom das conversas foi o mesmo: o temor do governo é de que a CPI abra uma crise militar a partir da convocação dos sargentos controladores que poderiam implicar o alto escalão da FAB (Força Aérea Brasileira) em eventuais denúncias de mordomia e corrupção, a título de vingança contra os oficiais que os ameaçam com um inquérito militar e punições. Base em maioriaCaso a CPI seja instalada, hipótese que vem se tornando mais provável, a base governista quer se preparar para tirar vantagem do fato de que terá 15 das 23 vagas na comissão que pretende investigar a crise no setor aéreo e começa a escolher os deputados encarregados de evitar desgaste para o governo.Nesta estratégia, é figura central Vaccarezza, um dos principais aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na atual legislatura. O deputado nega, mas tem sido cotado para ser o relator da CPI. A instalação depende de uma decisão do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). O PMDB, maior bancada da Câmara, vai reivindicar a presidência da CPI. Com isso, os dois cargos mais importantes estariam nas mãos dos governistas. Com o controle da CPI, os governistas podem evitar convocações de autoridades, barrar requerimentos de investigação e de quebras de sigilo e, ao final, aprovar um relatório mais superficial. ´Não cutucar a onça´Miro Teixeira repetiu a vários interlocutores da oposição que "o melhor é não cutucar a onça com vara curta". "A verdade é que todos os segmentos do governo ficaram muito assustados com a crise que sucedeu o motim dos controladores e não sabiam como lidar com esta questão", completa o líder da minoria na Câmara, Júlio Redecker (PSDB-RS). Além de ter sido abordado pela tropa governista, ele participou de um almoço com o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, ao lado de Chinaglia na última segunda-feira. "Ficaram todos apavorados quando souberam que eu estava lá (no almoço)", relatou depois a amigos.A ofensiva governista deu pouco resultado. "Não é linha de ação nossa estimular o confronto entre controladores e oficiais ou procurar corruptos na Aeronáutica", diz o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), ao avisar que a CPI do Apagão não vai começar quebrando sigilos bancários, telefônicos ou fiscais. "Não sou nenhum inconseqüente para chamar um controlador e um brigadeiro a uma comissão e fomentar o confronto", afirma o líder Pannunzio, inconformado com a ofensiva dos governistas para transformar a CPI em crise institucional. "Se existe algum risco, de fato, que nos procurem para uma conversa mais franca e mais clara", desafia o tucano. "Por enquanto, nenhum argumento sensibilizou a oposição. Ao contrário, o que nos sensibiliza é o sofrimento do usuário dos transportes aéreos", argumenta, ao destacar que, com ou sem motim de controlador, só o prejuízo ao turismo nacional já é motivo suficiente para se criar uma CPI.

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