Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Governistas dizem que entrevista de Cunha é fruto de 'mágoa' e não atinge o governo

Ao Estadão, deputado cassado disse que o secretário Moreira Franco está envolvido em irregularidade no Porto Maravilha

Daiene Cardoso e Vera Rosa, Brasília

18 de setembro de 2016 | 18h41

As declarações do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sobre o governo Michel Temer e seu homem forte, o secretário de Programa de Parcerias de Investimentos, Moreira Franco, foram interpretadas por parlamentares governistas como fruto da mágoa de quem acaba de ser cassado. Para os aliados do Palácio do Planalto, os comentários de Cunha não causam preocupação imediata ao governo, mas servem como recado.

"Acho que ele está um tanto magoado, isso é natural. Eduardo Cunha é um homem ressentido, que está fora do processo político", afirmou o líder do DEM na Câmara, Pauderney Avelino (AM). Em entrevista ao Estado, o peemedebista fez críticas ao governo Temer e acusou Moreira de estar por trás de irregularidades na operação para financiar obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. "Na hora em que as investigações avançarem, vai ficar muito difícil a permanência do Moreira no governo", disse Cunha.

Pauderney acredita que as declarações de Cunha não devem ter maior repercussão para o governo e saiu em defesa da eleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara. Na entrevista, Cunha voltou a dizer que Moreira agiu nos bastidores para eleger Maia, que é seu genro, "atropelando a base aliada". "Isso não é verdade, o Rodrigo se viabilizou por ele", respondeu o líder do DEM. Maia foi procurado para se pronunciar, mas não comentou o conteúdo da entrevista.

A leitura que aliados do governo fizeram é que, ao eleger Moreira Franco como alvo, Cunha mostra que tem "bala para atirar", mas é preciso saber se ele tem provas a apresentar. "Ele mata dois coelhos (Maia e Moreira) com uma paulada só", disse um governista. O ex-deputado acusa Maia de ter articulado com o PT e o governo sua cassação. "Esse sentimento dele agora é de raiva", destacou um líder da base aliada.

Para o vice-líder da bancada do PT, Paulo Pimenta (RS), Cunha sinaliza que não está ressentido apenas com os "traidores" e seus desafetos, mas que tem muito a dizer sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o que pode comprometer Temer. Na avaliação do petista, Cunha poderá dizer mais, dependendo dos desdobramentos da Operação Lava Jato. "Foi um sinal para o Moreira Franco e o governo Temer que ele (Cunha) não está morto".

Traidores. Ao Estado, o deputado cassado não escondeu sua mágoa com o processo que culminou com a perda de seu mandato por um placar de 457 votos a 10. Cunha chamou de "hipócritas" parlamentares que estiveram ao seu lado até a véspera da votação da cassação.

"Criou-se clima para votação naquela semana decidir, no meio do processo eleitoral e com a pressão de opinião publicada e televisada em cima dos parlamentares. Houve ali hipócritas. Rogério Rosso (candidato derrotado do Centrão à presidência da Câmara), Aguinaldo Ribeiro (líder PP), que passou a madrugada antes da votação me ajudando, e Manoel Junior (PMDB-PB), responsável por grande parte da minha defesa no Conselho, jamais poderiam ter votado contra mim. Mas o tempo os espera. A política detesta traidor", afirmou o peemedebista.

Rosso e Ribeiro não quiseram se manifestar sobre as declarações de Cunha. Já Manoel Júnior, que é candidato a vice-prefeito de João Pessoa, respondeu que suas defesas foram à Constituição e ao regimento interno da Câmara, não necessariamente ao colega de bancada. "Não fiz defesa de Eduardo Cunha. Defendi a Constituição e regimento. Se isso beneficiou Cunha, é porque ele estava respaldado nesses critérios: Constituição e regimento. Não houve da minha parte nenhum tipo de traição, tinha de votar com a minha consciência. Mas isso é coisa do passado", rebateu.

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