Eduardo Rodrigues|Estadão
Eduardo Rodrigues|Estadão

Governador aliado de Bolsonaro permite que manifestantes bloqueiem Esplanada há 2 dias

Manifestantes chegaram a formar barreiras em uma das pistas; ‘muitos querem continuar se manifestando’, diz Ibaneis Rocha

Julia Affonso e Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 17h50

BRASÍLIA – Pelo segundo dia seguido, a Polícia Militar do Distrito Federal permite que apoiadores do presidente Jair Bolsonaro acampem na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e mantenham as vias que dão acesso às sedes dos Poderes bloqueadas com caminhões e ônibus. O governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado de Bolsonaro e chefe da PM, disse ao Estadão que a previsão é de que a circulação de veículos só seja liberada nesta sexta-feira, 10. “Muitos querem continuar manifestando”, disse ele.

O grupo que se concentra ao longo da Esplanada está no local desde a noite de segunda-feira, 6, véspera dos atos de 7 de Setembro. A manifestação inclui pautas antidemocráticas, como a destituição dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e dos parlamentares do Congresso. Há solicitações ainda para que Bolsonaro escreva uma nova Constituição "anticomunista".

Segundo Ibaneis, a Secretaria de Segurança Pública do DF continua negociando a desobstrução das vias com os apoiadores do presidente. Na madrugada desta quinta-feira, após mais de três horas de negociação, policiais militares e agentes do Detran, da secretaria e de fiscalização do DF Legal não conseguiram um acordo para que os manifestantes deixassem o local. Assim que o comboio da PM se aproximou, os apoiadores de Bolsonaro se sentaram enfileirados na pista e impediram a passagem. Eles não saíram mais do local, e também não foram retirados.

“Temos que restabelecer a Esplanada”, disse o coronel da PM-DF Jorge Eduardo Naime, responsável pela operação e negociações na madrugada.

O fechamento das vias faz com que servidores dos ministérios que dependem de transporte público precisem caminhar por cerca de 20 minutos até a rodoviária. A opção é tentar pegar o transporte em uma via atrás da Esplanada, opção classificada por um funcionário como “tumulto”.

Na manhã desta quinta, dois grupos de apoiadores formaram barreiras na pista que vai em direção ao Congresso. Uma em frente ao Ministério da Cidadania e outra junto à Economia.

Cerca de 25 apoiadores, enrolados em bandeiras do Brasil, se sentaram em cadeiras de praia, toalhas e em um colchão em frente à Cidadania. “Democracy is always right”, dizia um dos cartazes.

A primeira barreira fez com que um carro e um ônibus da Polícia Militar que chegaram à área precisassem dar a volta no grupo e subir o canteiro central da Esplanada para seguir adiante sem incomodar os manifestantes.

Perto dali, dezenas de apoiadores se enfileiravam em frente à tenda que funciona como cozinha do acampamento. No almoço de hoje, arroz, carne, batata cozida e vinagrete. As refeições são servidas em pratos e talheres descartáveis. Manifestantes se dividem nas funções do preparo dos alimentos (cortando batatas e carnes), outros cozinhando e mais um grupo servindo.

A cozinha se tornou uma preocupação para os apoiadores. “Querem derrubar a nossa cozinha, mas não vão conseguir”, dizia uma mulher a um grupo de homens sentados.

Horas depois, um homem com uma caixa de som pedia que os apoiadores se mantivessem perto da cozinha para não permitir seu desmonte.

O clima seco, com sol forte e a temperatura de 31ªC levaram muitos manifestantes a procurarem um lugar à sombra e a permanecerem próximos a suas barracas.

Assuntos políticos são a pauta majoritária nas rodas. Eles reclamam de uma suposta falta de liberdade de expressão, assistem a vídeos do caminhoneiro Zé Trovão, foragido da Justiça, e reclamam de decisões do Supremo.

“Você viu que o (ministro) Alexandre de Moraes colocou o decreto das armas em pauta? Isso aqui vai virar uma bagunça”, disse uma apoiadora. 

O bloqueio de caminhoneiros em estradas do País também foi pauta dos apoiadores. A teoria é de que o presidente Bolsonaro não pode dizer que apoia as obstruções, por isso divulgou um áudio no qual pede o desbloqueio. Isso, no entanto, não seria a opinião verdadeira do presidente, que apoiaria as obstruções.

Fechamento

O trânsito na Esplanada está fechado desde segunda-feira, 6. Caminhões e ônibus que furaram o bloqueio feito pela Polícia Militar na véspera dos atos permaneciam ocupando as faixas e o canteiro central.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal informou que as forças de segurança iniciaram ontem as negociações para retirada dos veículos e das estruturas instaladas na Esplanada dos Ministérios.

“O gabinete de gestão de crises da Segurança Pública, que integra representantes da SSP/DF e forças de segurança, foi instalado no Centro Integrado de Operações de Brasília (Ciob), com o objetivo de coordenar as ações”, diz a nota enviada pela pasta.

Segundo a secretaria, nesta madrugada, caminhões que estavam estacionados na Esplanada começaram a deixar o local, e parte das estruturas começou a ser desmontada. 

“A operação segue em andamento. Vias N1 e S1 seguem interditadas. A liberação depende de avaliação das autoridade de trânsito”, informou. “O policiamento na Esplanada está reforçado desde o último domingo, 5, quando as vias N1 e S1 foram interditadas devido ao grande fluxo de pessoas que chegavam à região. O acesso à Praça dos três poderes segue restrito.”

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