Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Google volta a questionar proposta de entidades sobre remuneração por conteúdo jornalístico

Em agosto, entidades de comunicação protocolaram na Câmara uma carta pedindo apoio a aspectos do PL das Fake News e em defesa do jornalismo profissional; a coalizão é formada por 27 associações, incluindo ANJ, Abracom e Abert

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2020 | 15h58

O Google publicou nesta quinta-feira, 17, um um novo questionamento ao documento que uma coalizão de 27 entidades de comunicação protocolaram na Câmara, em agosto. Nele, as entidades pedem a inclusão dos serviços de busca no PL das Fake News e defendem a remuneração de conteúdos jornalísticos pelas plataformas, junto com maior transparência no financiamento de publicidade na internet. 

As entidades afirmam que “a remuneração dos conteúdos jornalísticos se justifica não apenas pelo uso e monetização dos conteúdos sem a devida contrapartida, mas pela relevância desta atividade para o combate à desinformação e para a democracia”.

O Google questionou as proposições e, ainda em agosto, enviou ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), uma carta criticando a inclusão das ferramentas de busca no projeto de lei das Fake News e rebatendo  alegações de que seus serviços tenham prejudicado o trabalho das redações de jornalismo profissional. A organização afirmou, entre outros, que seu serviço de busca ajudava a trazer audiência para os veículos, e que isso poderia ser monetizado por eles.

Agora, o Google busca trazer dados para a discussão. "A pesquisa do Google direciona cerca de 24 bilhões de cliques por mês para sites de notícia em todo o mundo”, diz texto publicado nesta quinta pela organização. Apesar disso, segundo o documento, o valor gerado com a publicidade que é exibida acima dos resultados de notícias na ferramenta de busca é pequeno em relação ao total, uma vez que a maior parte da receita de anúncios na busca viria das pesquisas com intenção de compra, e não das pesquisas por notícia. 

A empresa diz ainda que, por meio de suas plataformas de propaganda - como o AdSense -, o Google distribui publicidade que é exibida nos próprios sites de notícia, que, segundo o comunicado, ficam com a maior parte das receitas geradas por esses anúncios. "Em 2019, os veículos de mídia ficaram, em média, com 69% da receita gerada pela publicidade adquirida por anunciantes usando as nossas plataformas, como Google Ads e Display & Video 360", diz o texto.

O sistema do buscador, diz a nota, elenca os resultados de acordo com a relevância das páginas, e não por “parcerias comerciais”. Os anúncios vendidos, por exemplo, são devidamente identificados e ligados apenas ao termo pesquisado, além de não garantirem melhores posições nas buscas orgânicas. Este é, segundo a empresa, um dos motivos pelos quais não pagam pelos cliques em links: “Operar de qualquer outra forma promoveria um tratamento desigual, incompatível com a natureza da Busca, e reduziria o poder de escolha e a relevância para nossos usuários."

Presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech questiona este argumento. Segundo ele, os mecanismos pelos quais se daria a remuneração do conteúdo jornalístico ainda não estão definidos, mas eles não devem seguir o critério de audiência. “Não se trata só de uma questão de direitos de autor nem de uso de link pelas plataformas, é muito mais do que isso”, diz ele. 

Rech cita como exemplo positivo o caso da República Checa, onde, segundo ele, “não é a (remuneração sobre a) audiência dos veículos de comunicação que está em discussão, é uma porcentagem do faturamento das plataformas”. 

“Os veículos devem ser remunerados por relevância social, e não por audiência”, defende Rech, que destaca o papel do jornalismo profissional na democracia. “Quando as plataformas levam seus produtos para o mercado, um efeito colateral é a difusão da desinformação e a ampliação de discursos de ódio. Quem tem a técnica para fazer o saneamento dessa poluição social é o jornalismo profissional.”

Investimento

O Google diz ainda que está “investindo milhões de reais para apoiar o jornalismo e os veículos brasileiros”, citando a cifra de R$ 17 milhões destinados a um fundo emergencial para manter mais de 400 veículos brasileiros afetados pela pandemia. Outro ponto levantado pela empresa diz respeito ao novo programa de licenciamento que pagará por conteúdo jornalístico de diversos veículos no Brasil - entre eles, o Estadão - e resultará em uma “nova experiência de notícias”. 

Para Marcelo Rech, as iniciativas como esta são bem-vindas, mas ainda “limitadas”. "O Google tem feito uma série de iniciativas em favor do jornalismo, que são meritórias e bem-vindas, mas são uma gota no oceano do efeito colateral produzido pelas plataformas.”

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