Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Golpe se torna mais sujo ao levar pessoa suspeita à Presidência, diz ex-ministro do governo Dilma

Para Gilberto Carvalho, que também trabalhou como chefe de gabinete nos dois mandatos de Lula, o processo de impeachment da presidente afastada não pode ser julgado antes de se investigar as acusações do empresário Marcelo Odebrecht contra o presidente em exercício Michel Temer

Ricardo Brito, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2016 | 15h54

BRASÍLIA - Ministro da Secretaria-Geral da Presidência no governo Dilma Rousseff e chefe de gabinete nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho defendeu, em entrevista exclusiva ao Broadcast Político, que o processo de impeachment da petista não seja julgado antes de se investigar as acusações feitas pelo empresário Marcelo Odebrecht segundo as quais ele deu R$ 10 milhões em dinheiro vivo ao PMDB, a pedido do presidente em exercício, Michel Temer.

Para Carvalho, se isso não ocorrer, o País vai dar uma imunidade a um presidente eleito indiretamente sobre quem paira uma "pesadíssima denúncia". O petista cobrou agilidade do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para apurar a acusação e disse que vai lutar até o "último dia" para impedir que se tire Dilma, uma pessoa contra quem, segundo ele, não há nenhum crime comprovado.

"O golpe - e eu discordo do Fernando Haddad (prefeito de São Paulo), tem que chamar de golpe mesmo, esse é o substantivo e adjetivo adequado ao caso - vai se tornar ainda mais sujo, mais suspeito, se ele for por essa linha que vai se colocar na Presidência uma pessoa absolutamente suspeita", defendeu ele.

O petista disse que, apesar da ampliação dos votos em favor de Temer na sessão de pronúncia, a batalha do impeachment não está perdida. Mas alertou para o fato de que, se a carta que Dilma vai divulgar com seus compromissos em caso de volta não for publicada "imediatamente", a manifestação perderá muito da sua eficácia.

Veja a íntegra da entrevista:

O resultado da sentença de pronúncia ampliou o número de votos a favor do governo Temer em relação ao afastamento. O jogo já está perdido para Dilma? 

Não, absolutamente. Nós não esperávamos que houvesse um acréscimo no número dos nossos apoiadores, porque nós tínhamos inclusive combinado que eles não se exporiam. O rolo compressor está tão pesado, tão indecente que seria bobagem expor uma pessoa antes da hora (da votação final). Então, para nós não é surpresa. O único fato que temos de reconhecer foi a perda de um voto, o senador João Alberto (PMDB-MA). Isso de fato não estava no nosso cálculo. Mas nós temos uma lista boa de pessoas com quem estamos conversando muito reservadamente, o que nos dá a convicção que o jogo não está jogado. Vamos lutar até o último dia.

O que os senhores pretendem fazer? 

Nossa principal preocupação é, se o impeachment passar, como vamos eleger um presidente indiretamente, uma pessoa que está sob uma pesadíssima denúncia, o Michel Temer. O mínimo que se esperaria é que, antes de que ele seja imunizado através da Presidência em relação ao crime anterior, ele seja investigado. A nação brasileira exige isso, não é possível que você legitime e dê imunidade a uma pessoa que tem uma delação fortíssima contra ele.

Os senhores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Humberto Costa (PT-PE) bateram muito nessa tecla desde segunda-feira de que, uma vez Temer efetivo, não poderá ser mais investigado. 

Esse é o problema. O golpe - e eu discordo do Fernando Haddad, tem que chamar de golpe mesmo, esse é o substantivo e adjetivo adequado ao caso - vai se tornar ainda mais sujo, mais suspeito se ele for por essa linha que vai se colocar na Presidência uma pessoa absolutamente suspeita e, dando-se naturalmente o direito de defesa, uma diligência que o Supremo teria que ter muito mais agilidade (para fazer). Nós esperamos que o procurador-geral tenha a mesma agilidade que tem em certos casos, porque a Justiça também se faz quando se faz a tempo certo, tempestivamente, não fora do tempo. Não se pode tirar uma pessoa que não tem na verdade nenhum crime comprovado contra ela e colocar uma pessoa que, ao contrário, suspeita de um crime tão grave quanto esse. A gente luta e vamos até o final nessa batalha.

Na batalha para permanecer no cargo, a presidente Dilma Rousseff tem demorado muito para divulgar a carta em que acena com as novas eleições? 

Eu acho que se a carta não for divulgada imediatamente, ela perde muito da sua eficácia. A expectativa que eu tenho é que ela, de fato, faça essa carta o quanto antes e que dê base para as pessoas saberem porque ela vai voltar, como ela vai voltar e que o tipo de governo ela vai fazer em seguida. Essa é a expectativa nossa.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse hoje mais cedo que o governo Temer conseguirá ampliar a vantagem no julgamento de Dilma, podendo fazer 62 votos. Qual sua avaliação? 

É, com os métodos imorais deles, acho que eles têm direito de pensar assim, porque eles são os representantes da velha e trágica política do toma lá, da cá, da corrupção, então o Padilha é um representante legítimo dessa corrente e ele pode pensar assim, dou a ele o direito. Espero que o Senado Federal não confirme a previsão de uma pessoa tão corrompida e não se submeta a esses métodos de toma lá, dá cá que façam com que as pessoas se curvem através de cargos. Prefiro confiar que os senadores têm sensibilidade social, de consciência para não serem usados para legitimar esse golpe. O nome deles vai ser julgado pela história, eles têm agora a chance de serem julgados como foram os golpistas de 64 ou como foram aqueles que, mesmo contra a corrente da pressão do capital, têm a coragem cívica de reconhecer o que é crime e o que não é crime e restaurar a democracia no Brasil.

A presidente Dilma e o PT deveriam fazer uma autocrítica de todo esse processo? 

A grande autocrítica que o PT tem que fazer e tem feito, mas tem que fazer cada vez mais e publicamente, foi ter incorrido no erro de se tornar semelhante a tudo que está aí, a todos os outros partidos que praticaram à exaustão e com muito mais intensidade algumas coisas que o PT acabou fazendo. Então, não tenho medo nenhum de fazer autocrítica, mas é uma autocrítica que tem que ser pontuado por ser exatamente igual aos outros. O julgamento que se faz ao PT, tem que se fazer a todos os outros. Assim como o PT tem que mudar a sua trajetória, todos os partidos da política brasileira tem que mudar a sua trajetória e isso se faz com uma reforma política que mude as regras do jogo e que mude a representação democrática do voto com o fim do financiamento empresarial de campanhas, com o prestígio dos partidos, fidelidade partidária e assim por diante.

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