Goldman: 'Tem espaço para mexer mais'

Vice-presidente nacional do PSDB e ex-governador de São Paulo, Alberto Goldman sugere mais cortes na máquina estadual para compensar o recuo do aumento das tarifas de transporte público

Pedro Venceslau e Ricardo Chapola, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2013 | 23h57

O vice-presidente nacional do PSDB e ex-governador de São Paulo, Alberto Goldman, disse ao Estado que sugeriu ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) realizar mais cortes na máquina estadual como forma de compensar o recuo do aumento das tarifas de transporte público e também estancar a sangria da perda de popularidade detectada após a onda de protestos. A última pesquisa Datafolha, divulgada na semana passada, revelou que tucano perdeu 10 pontos porcentuais nas intenções de voto. "No caso de São Paulo, você tem que mexer (para conter a queda nas pesquisas). Já mexeu em alguma coisa na administração pública. Acho que ele pode mexer mais. Ele tem espaço para mexer mais, é possível fazer isso. Eu mesmo já sugeri a ele que dá para restringir o número de secretarias", afirmou Goldman. 

Leia a íntegra da entrevista:  

O PT tem uma ofensiva. O governo tem outra para tentar reverter esse cenário de queda para evitar que Dilma continue caindo. Não há o mesmo movimento organizado por parte do PSDB aqui em SP, nenhuma reação. Existe um movimento de reação do governo? No caso do PSDB, qual deve ser a postura do partido para evitar que Alckmin continue caindo?

Nós não temos uma postura do partido e uma postura do governo. A gente procura ter uma postura comum. Nós inclusive tivemos uma conversa no sábado sobre o quadro nacional todo. Tínhamos absoluta certeza que se teria um efeito, era inevitável que se tivesse um efeito de desgaste no sentido de que o conceito de ótimo  e bom teriam uma queda. Mas sabíamos que a queda seria menos forte do que seria no plano nacional, como era menos forte do que se deu no plano municipal. Pela simples razão o que está movendo essas placas tectônicas são razões de ordem basicamente nacional: inflação, custo de vida, essa questão de emprego que deixou de crescer, não tem sido criado empregos, ao contrário. Isso daqui a gente sentia que num certo momento iria provocar essa erupção. O fato é que percebeu que as razões básicas estão na questão nacional. Repito: a percepção minha é de que esse problema já existia, ele vinha sendo acumulado, até que certo momento ele explodiu. 

O sr atribui parcela de responsabilidade ao governo estadual?

Não, até porque você vê isso em todos os estados.

Nem com relação à truculência da polícia militar? 

Você tem algumas especificidades. Um dos dias de ação você tem dois lados deste desgaste: um onde você tem um momento em que a polícia foi além incompetente de separar o joio do trigo. Acabou batendo em quem não batia bater, e não bateu em quem deveria bater. Sendo uma parcela das pessoas que veem um lado, e não veem o outro. Os caras que fizeram saques deveriam ter apanhado mais cedo. Nós tivemos aí problemas operacionais em relação à PM, não foi um problema política. A PM cometeu erros operacionais. Esse foi o desgaste, não passou disso. 

O sr atribui a queda do governador à truculência da PM?

Em parte sim. Uma parte é isso, mas a outra parte é o clima generalizado contra governos partidos, políticos. Contra as instituições. As pessoas ficam insatisfeitas com o somatório dos fatores. Ela vai desde um processo de corrupção de governo que começou visivelmente no governo Lula - episódio Valdomiro Diniz - que está aí solto, belo e faceiro, que estava recebendo propina do Carlinhos Cachoeira. De lá para cá, nós só vimos isso: é mensalão, ministros que são acusados, ministros que são demitidos. E depois voltam. Esse quadro todo, junto com a impunidade, tudo se acontece sem que ninguém vá para a cadeia. Pegaram um fora da curva - o Donadon - que é nível pequeno, segundo time, que fez uma coisa na Assembleia lá em Rondônia. É uma coisa que a pessoa não expressa no momento, mas vai acumulando. É que nem gente que fica bebendo água com mercúrio: pode tomar anos isso só vai aparecer o problema só vai aparecer lá adiante. Nesse período mais recente, começa haver as perspectivas das pessoas de dar continuidade a um processo que já existia - consumo, emprego... - todo um período que aparentemente era um período de alegria, no geral, começa então a aparecer problemas. Esse somatório de fatores faz com que exista um sentimento contrário a todos os governos, todos os partidos. Por isso que os efeitos tão são sobre os governos estaduais, mesmo que o governo estadual tendo menor participação nesse processo todos. 

Como o sr acha que o governador Geraldo Alckmin vai fazer para estancar a sangria, embora ela seja menores proporções que a do governo federal?

No caso de SP, você tem que mexer. Já mexeu, em alguma coisa na administração pública. Acho que ele pode mexer mais. Ele tem espaço para mexer mais, é possível fazer isso. Eu mesmo já sugeri a ele que dá para restringir o número de secretarias. 

Restringir para quantas?

Eu fui o secretario da administração do governo Quércia. E fui encarregado de fazer a reforma administrativa. Eu contei esse episódio para o governador. E quando comecei a fazer o estudo da reforma, nós restringimos o número de secretarias de 28 para 19. Matamos 9 secretarias - eram empresas, autarquias. Portanto, você tem espaço para isso. E acho que ele pode continuar fazendo. O de resto é só dar continuidade aos investimentos que já estavam sendo feitos, não tinha nenhuma mágica. 

Não seria interessante o governo concentrar agendas positivas para dar uma resposta à sociedade? Ou ficaria muito artificial?

Eu acho que esse governo não tem feito outra coisa a não ser ter agendas positivas desde o primeiro dia. Em tese, qualquer governos têm feito isso. O que tem acontecido no governo federal é que todas as agendas positivas deles não se concretizaram, desde o governo Lula. As rodoviárias não se avançaram praticamente nada; as ferrovias, nada. Os aeroportos quase nada. Eles não conseguiram implantar nada daquilo que era a perspectiva que eles tinham. Aonde é que tem alguma coisa do governo federal que se pode chamar de ação expressiva? Programa de distribuição de renda que, na realidade, do ponto de vista de atuação administrativa é a coisa mais simples que tem. É um cartão para a pessoa ir buscar dinheiro. É um cartão, não é um programa, não é uma ação administrativa de governo. É uma decisão política. 

O que o PSDB tem que fazer em SP para se organizar melhor diante desse cenário novo para não perder filiados e tentar garantir a reeleição do governador? O PSDB não estava numa zona de conforto?

Todos achavam que estavam numa zona de conforto, não era só a gente. O governo federal também achou que estava. O que eu acho é que o partido tem que ter uma estrutura onde as pessoas sejam chamadas para participar, para opinar, para terem voz ativa. Isso os partidos não têm. Uma militância de fato. É um desafio permanente. Em certo aspecto é o que devia fazer antes. 

Existe espaço para o PSDB ser mais ativo nesses processos de manifestação? 

O partido não pode viver de um momento. O partido tem que ter uma vida permanente. Seria uma bobagem imaginar que aparece um episódio desses e o partido vai se aproveitar desse episódio. Isso não, isso não pode ser assim. Nós temos deficiência do ponto de vista da vida partidária. Aliás, não é um problema só nosso. Vem da própria origem do PSDB. O PSDB se formou como um agrupamento da elite política e foi formado um partido que não tinha base. Começou com uma cabeça e não tinha corpo. E foi bem porque tinha figuras importantes, foi bem do ponto de vista eleitoral. Mas não foi bem do ponto de vista partidário. Tanto é que nós temos uma bancada na Câmara de 50 deputados, numa Câmara de 513. Não chega nem a 10%. Não faz sentido: um partido que já chegou à Presidência da República e tem os governadores dos dois maiores Estados do País tem uma bancada política de 10%. É ridículo, né? Quando PSDB se desmembrou do PMDB, levou a cabeça, mas deixou o corpo. Aí o PMDB ficou com o corpo, sem a cabeça, né? Hoje o PMDB tem uma bancada maior. Porque tem corpo, espalhado, são pedaços do corpo dele espalhados pelo Brasil. Mas não tem cabeça. Eles tentam se coordenar através do poder de governo. Estando no governo, isso sempre tem um elemento de manutenção. E nós não conseguimos fazer esse corpo até agora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.