Gloria Trevi e ex-produtora passam a noite em claro em convento

A saudade e a alegria impediram a cantora mexicana Gloria Trevi e sua ex-produtora Maria Raquenel, a Mary Boquitas, de dormirem esta madrugada, durante a primeira noite que passaram longe das celas. Amigas e ex-parceiras, elas foram transferidas respectivamente de uma delegacia e de um presídio para um convento de Brasília por ordem do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello. Devem permanecer em prisão domiciliar no local até que o STF decida seus destinos. De acordo com os advogados das mexicanas e com a mãe de Mary Boquitas, Maria Raquenel Jimenez, elas preferiram matar as saudades a dormir. "Minha filha não conhecia o Angel Gabriel", afirmou Maria Raquenel, referindo-se ao filho de Gloria Trevi, que tem cinco meses de idade e foi concebido na época em que ela estava presa na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Em seu primeiro dia longe das grades, Angel Gabriel, Gloria e Maria passearam hoje pelos jardins do convento, que fica ao lado de uma escola particular mantida pelas irmãs scalabrianas. Receberam visitas de advogados, amigos e da mãe de Mary Boquitas, que está morando no Brasil há quatro meses. Maria Raquenel Jimenez levou encomendas feitas pela filha, como frango, carne, refrigerante light, queijos, sorvetes e frios e cremes para a pele. "Na cadeia, ela só comia arroz e feijão, não tinha carne", explicou.Enquanto as mexicanas e Angel Gabriel exploravam o novo lar, ministros do STF comentavam que possivelmente o tribunal terá de declarar extinto o processo de extradição dos estrangeiros que eram acusados de corrupção de menores e rapto no México. Isso porque recentemente a Justiça mexicana considerou inconstitucional o mandado de prisão decretado contra Gloria e Mary Boquitas. Conforme um dos integrantes do STF, a existência de um mandado de prisão é condição essencial para que ocorra a extradição. "Se realmente ficar provado pelas vias diplomáticas que não há mais esse mandado, teremos um desfecho inesperado até há pouco tempo: elas serão soltas", comentou reservadamente um ministro.No entanto, o caminho das mexicanas no STF pode não ser tão suave. Elas poderiam voltar à cadeia se o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, recorresse contra a decisão de Marco Aurélio que garantiu a prisão domiciliar. Existe um precedente semelhante e recente que indicaria uma derrota das estrangeiras. Preso em um quartel a pedido do governo do Paraguai, o general Lino Oviedo conseguiu ser transferido para a casa de um primo por determinação de Marco Aurélio. Dias depois, ele teve de voltar para o quartel, por decisão do plenário do STF. O tribunal tem por regra conceder a prisão domiciliar apenas em casos excepcionais, quando, por exemplo, o preso é idoso ou sofre de doença grave. Posteriormente, Oviedo foi solto porque o STF negou a extradição do militar pedida pelo governo paraguaio. Os ministros concluíram que o general era um perseguido político.Na noite de ontem, enquanto aguardavam a chegada de policiais federais para transferirem a cantora, agentes da delegacia onde Gloria ficou com o filho por dois meses comentavam que ela não causou transtornos na rotina do local. Segundo um dos agentes, o cotidiano da artista se resumia a limpar a cela, lavar as roupas dela e da criança e alimentar o bebê. "Ela só chorou no início", contou um agente. "Mas, para dormir, precisava tomar um calmante leve", acrescentou.Apesar de Marco Aurélio ter determinado a transferência das mexicanas às 17h30 de quinta-feira, elas chegaram ao convento apenas depois da meia-noite. O trajeto entre a delegacia onde estava Gloria e a casa das irmãs foi feito em altíssima velocidade. Após entregarem as mexicanas e o bebê às irmãs, os policiais federais continuaram no local para vigiá-las. Esse monitoramento deverá ser feito 24 horas por dia. Elas somente poderão se ausentar do convento após autorização do STF e sob escolta da Polícia Federal.

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