UESLEI MARCELINO/ REUTERS E DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
UESLEI MARCELINO/ REUTERS E DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Gilmar e Benjamin, um duelo no tribunal

Conhecido pela verve afiada, presidente do TSE encontra em relator um esgrimista à altura

Beatriz Bulla, Breno Pires, Isadora Peron e Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 03h00

BRASÍLIA - O segundo dia de julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) escancarou um duelo entre o presidente da corte, Gilmar Mendes, e o ministro Herman Benjamin, relator da ação que pede a cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer. Em uma vaidosa batalha, com muita “modéstia às favas”, discussões sobre “fama” e “glamour” intensificaram os ataques entre os magistrados.

Dono de uma verve tão famosa quanto afiada, Gilmar até agora encontrou em Benjamin um esgrimista à altura, porém de estilo diferente. Enquanto o primeiro abusa da contundência, o relator adota um estilo mais moderado, mas com uma retórica repleta de fina ironia e alguns apelos à emoção dos colegas.

O primeiro embate se deu quando Gilmar chamou de “falacioso” o argumento de Benjamin de propor a inclusão na ação de delações da Odebrecht na Lava Jato. Na reação, o relator recorreu às contradições de seu oponente e lembrou de um voto de Gilmar de 2015, quando Dilma ainda era presidente, no qual ele defendeu a observância sobre os fatos revelados pela força-tarefa.

Gilmar então interrompeu Benjamin enquanto ele explicava seu posicionamento sobre vazamento de delações – para o relator, as provas são lícitas. O presidente, apesar de “encantado” com a fala do colega, pediu para que ele fosse mais sucinto. Benjamin demonstrou irritação. “Vossa Excelência pode estar encantado, mas eu não estou. Quem está falando sou eu. Com o desgaste de minha saúde, não posso falar muito”, afirmou. O relator está resfriado. Julgamento que segue.

Já no fim da sessão, Gilmar voltou à provocação e disse que o processo não foi engavetado em razão de seu esforço. “Eu digo sempre: essa ação só existe graças ao meu empenho, modéstia às favas”, afirmou. Por não ter sido a ação engavetada, então, deveria Benjamin agradecê-lo pela fama, uma vez que ele “só estava brilhando em todo o Brasil, na televisão” por ser o relator.

Benjamin, conhecido por ser vaidoso, disse preferir o “anonimato”: “Não escolhi ser relator. Preferia não ter sido. Mas tentei cumprir aquilo que foi deliberação do tribunal”. E completou: “É bom um esclarecimento aqui, presidente: processo em que se discute condenação, em qualquer natureza, não tem e não deve ter nenhum glamour pessoal.”

Gracejo. Apesar das divergências, eles se engraçaram. Benjamin provocou risos do plenário e deixou colegas surpresos ao usar a expressão “inferninhos” para se referir a casas noturnas citadas em denúncias de lavagem de dinheiro na campanha de 2014.

Gilmar entrou na brincadeira. “Vossa Excelência não teve de fazer investigações (nestes locais)?” Benjamin respondeu que, nesse caso, não usou os “poderes de provas”. “Não expandiu, então?”, continuou Gilmar. A resposta então do relator foi ainda mais desconcertante: “Não, mas se Vossa Excelência quiser propor...” Diante do silêncio, disse: “Imagino que não.”

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