Jerôme/ Mathilde Garro Lapouge
Jerôme/ Mathilde Garro Lapouge

Gilles Lapouge, o escritor do Brasil

Correspondente do 'Estadão', que morreu aos 96 anos, escreveu cinco livros sobre sua experiência no País

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 12h13

O jornalista francês Gilles Lapouge, correspondente do Estadão em Paris que morreu aos 96 anos, viveu por muitos anos no Brasil e a experiência e a saudade do País resultaram em pelo menos cinco dos cerca de 25 livros que escreveu ao longo de sua trajetória.

O mais recente a ser publicado, durante a pandemia, foi Noites Tranquilas em Belém. O romance de 2015 foi lançado agora pela Pontes Editores que tem, ainda, em catálogo, Equinociais: Viagens Pelo Brasil dos Confins, publicado originalmente em 1977 e, no Brasil, em 1990.

Noites Tranquilas em Belém é um livro multifacetado em que as culturas brasileira e francesa se mesclam num jogo de complementaridade. A vida do narrador se transforma do dia para a noite e um quebra-cabeça começa a ser montado com as peças que lhe são fornecidas pouco a pouco. Trata-se da busca da própria identidade e tudo o que se constrói a partir dela: amores, memórias e projetos. E, nessa busca, longe da França, pelas ruas, mercados e favelas de Belém, ele é guiado pelas mãos de uma criança.

Em Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil, lançado em 2014 pela Amarylis e em 2011 na França, Lapouge faz sua crônica do País a partir de palavras e nomes como acolhida, favela, escravos, Palmares, literatura e antropofagia, Rio Amazonas e Jorge Amado.   

A Missão das Fronteiras, de 2002 e que saiu pela Globo em 2005, parte da aventura rocambolesca de uma tropa de soldados brancos e mamelucos encarregada de levar um marco de três toneladas para a fronteira mais ocidental da América portuguesa, nos confins da Amazônia, no século 18. 

Em 2000, o Estadão publicou a versão digital, a única disponível e com acesso gratuito, de Au revoir l’Amazonie, com tradução de Lauro Machado Coelho.

Os interesses de Gilles Lapouge iam além do Brasil, seus personagens e suas contradições, e sua obra, de ficção e não ficção, foi traduzida para diversos idiomas. 

Ele estreou na literatura no final dos anos 1960 com Os Piratas: Piratas, Flibusteiros, Bucaneiros e outros Párias do Mar (Antígona, 1998), em que trata da pirataria como a revolta mais extrema e longeva que a humanidade conheceu. Em 1987, saiu na França e no Brasil (aqui pela Nova Fronteira) A Batalha De Wagram, sobre o confronto do exército de Napoleão Bonaparte com o austríaco em 1809. Mais recentemente, publicou, em seu país, Contribution à une Théorie des Climats e Atlas des Paradis Perdus.

"Na literatura francesa, Gilles foi um dos melhores do século passado, particularmente como ensaísta, mas também como romancista", afirma Michel Goujon, editor do clube de livros France Loisirs, que trabalhou com Gilles por muitos anos. "Ele tinha memórias muito fortes do Brasil. Amava o Nordeste, o sertão. Ele sempre contava dos anos no Brasil, das leituras de Jorge Amado. Ele gostava muito do gênero literário do Jorge Amado e as histórias dessa região." Sobre a escrita, afirmou que Gilles era um "purista". "Escrevia e corrigia 100 vezes. Muitas vezes, seus textos se assemelham a poemas, eles têm um musicalidade". 

Ao destacar a morte de Lapouge, a imprensa francesa mencionou a relação do escritor com o Brasil como uma de suas características marcantes. / COLABOROU PAULO BERALDO

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