DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Gestão de Ernesto Araújo foi marcada por polêmicas; entenda

Ex-chanceler do governo Jair Bolsonaro mudou rumos da diplomacia brasileira e foi alvo de uma série de críticas

Bruno Ribeiro e Cássia Miranda, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2021 | 17h41

Nos cerca de 800 dias em que esteve à frente do Itamaraty, Ernesto Araújo usou o cargo para combater o que chama de “globalismo”, fez críticas à Organização Mundial de Saúde (OMS) e atacou a representação diplomática no Brasil da China, principal parceiro comercial do País. Essa postura, alvo de uma série de críticas de empresários e políticos, foi crucial no atraso brasileiro para fechar acordos comerciais e acelerar a compra de vacinas contra a covid-19.

Funcionário de carreira do Ministério das Relações Exteriores, Araújo foi indicado para o posto de chanceler, no fim de 2018, após uma série de publicações, feitas em blog pessoal, em defesa das teses de Olavo de Carvalho, uma das referências ideológicas do governo Bolsonaro. Araújo era defensor das políticas do então presidente norte-americano, Donald Trump, também aliado da família do presidente.

Sob os ideais olavistas, a condução da diplomacia brasileira por Araújo determinou uma mudança de rumos na política externa nacional, na visão de especialistas ouvidos pelo Estadão. O País trocou a posição de nação de uma potência emergente, líder da América do Sul – posição esta adotada ao menos desde o governo Fernando Henrique Cardoso e intensificada com Luiz Inácio Lula da Silva – para se colocar como um país cristão, em que a defesa de determinados valores morais teve mais peso do que escolhas comerciais e pragmáticas. “O País recuou da ideia de potência”, afirma o professor de Relações Internacionais da USP Feliciano de Sá Guimarães. “Nesse sentido, um dos inimigos era o Partido Comunista Chinês.”

Para o professor, que participa de uma pesquisa que analisa cerca de 4.500 discursos sobre relações internacionais feitos por autoridades brasileiras a partir de 2018 (e as reações nas redes sociais), esses posicionamentos tinham forte apelo dentro dos grupos de apoiadores de Bolsonaro. Por isso, para Guimarães, a troca de Araújo por um chanceler mais pragmático poderia gerar insatisfação entre integrantes dessa base.

“Além disso, uma pessoa indicada pelos militares ou pelo centrão, que buscasse uma relação melhor com a China, poderia ter problemas com os Estados Unidos”, ressaltou Guimarães, lembrando que já há previsão de certa pressão vinda dos países do hemisfério norte acerca das questões climáticas, o que poderia colocar em situação complicada outro ministro querido do eleitorado bolsonarista: Ricardo Salles, do Meio Ambiente.

O cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV-EAESP, destaca que a saída de Araújo indica “mais uma mudança de forma do que de conteúdo”: “Uma das grandes características do Ernesto Araújo era justamente a maneira como ele construía a sua narrativa de política externa, não só uma adesão à parte mais fundamentalista do bolsonarismo, mas também de uma maneira muito própria de referências eruditas, uma coisa meio anódina, sem exatamente um projeto de ação.”

Agora, “alguma normalização é de se esperar com o novo chanceler, quem quer que seja, mas a gente não pode esquecer que uma política externa feita pelo governo Bolsonaro não vai fugir da essência do que representa o bolsonarismo em termos ideológicos, em termos de visão de mundo e mesmo sobre estratégias internacionais.”

Casarões também cita Salles para falar da imagem do País lá fora. “A comunidade internacional tende a respirar aliviada na medida em que o Ernesto era visto, junto com o Ricardo Salles, como dois importantes entraves para a inserção do Brasil internacionalmente”, afirmou. “Pode representar uma espécie de alívio para os interlocutores internacionais mais próximos."

Casarões avalia que a gestão do ministro foi danosa para o Brasil. “O Ernesto foi o pior chanceler da história, de longe. Não só ele foi incapaz de colocar em pé uma estratégia coerente de política externa como ele desmontou dois ativos históricos importantíssimos do Brasil, o primeiro, que é a qualidade dos diplomatas de carreira. Ele deixa como legado um Itamaraty desmoralizado. O outro elemento importante é o desmonte da articulação internacional brasileira, um dos princípios que regem a política externa do Brasil", disse Casarões. "E, por fim, o multilateralismo, a ideia de que o Brasil se beneficia atuando internacionalmente no plano multilateral, na ONU, trazendo os grandes temas de interesse global para pensar questões mais amplas para o mundo.”

Abaixo, algumas das polêmicas que envolveram a gestão de Ernesto Araújo enquanto liderou o Itamaraty. Confira:

China

Em abril de 2020, um mês após a OMS decretar emergência internacional por causa da pandemia do coronavírus, Araújo publicou um texto dizendo que a covid-19 era parte de um projeto “globalista” em andamento, que já vinha se materializando “por meio do climatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo ou reorganização da sociedade pelo princípio da raça, do antinacionalismo, do cientificismo” e que o “comunavírus” era mais perigoso do que o coronavírus.

O embate direto com a China havia ocorrido um mês antes, após o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho mais novo do presidente que, na época, presidia a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, dizer que a China deveria ser responsabilizada por espalhar o coronavírus. O embaixador no Brasil, Yang Wanming, respondeu dizendo que o deputado poderia estar com algum “vírus mental”.

Em novembro, Eduardo fez novo ataque, relacionando a tecnologia de comunicação 5G a atos de espionagem. Wanming manifestou “veemente repúdio” à fala e, desta vez, o chanceler Araújo interveio a favor do deputado, para dizer que a reação chinesa era “desrespeitosa”. A partir de janeiro de 2021, o embaixador chinês passou a demonstrar alinhamento com João Doria (PSDB), governador paulista adversário de Bolsonaro que conseguiu importar componentes para a produção de vacinas contra o vírus.

Isolamento

As dificuldades para a importação de insumos da China para a produção de vacinas foi associada a atitudes que minaram a participação brasileira em consórcios multilaterais para a obtenção de imunizantes. Em abril de 2020, o Brasil se posicionou contra um acordo de cooperação da ONU para garantir o acesso global ao produtos. Araújo teria se posicionado ainda contra a entrada do Brasil no Covax Facility, iniciativa da OMS para o fornecimento de vacinas para o mundo, que resultou na aquisição de 2,9 milhões de doses para os brasileiros.

EUA

Araújo conduziu uma política de alinhamento total com os Estados Unidos durante a gestão de Donald Trump. Nesse sentido, ele acompanhou uma visita a Roraima do secretário de Estado norte-americado, Mike Pompeo, ocorrida 46 dias antes da data das eleições nos EUA. O encontro, no qual Pompeo conheceu instalações que abrigam imigrantes venezuelanos, foi criticado pelo então presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), por “afrontar as tradições de autonomia e altivez de nossas políticas externa e de defesa".

Após as eleições, quando apoiadores de Trump insatisfeitos com o resultado do pleito invadiram o Capitólio, Araújo afirmou que o ato (que terminou com cinco mortes) foi feito por “cidadãos de bem”, que tinham direito de questionar o desfecho das eleições.

 

“Há que parar de chamar 'fascistas' a cidadãos de bem quando se manifestam contra elementos do sistema político ou integrantes das instituições. Deslegitimar o povo na rua e nas redes só serve para manter estruturas de poder não democráticas e seus circuitos de interesse”, disse o chanceler, após lamentar a invasão.

Senado

Na semana passada, durante audiência no Senado convocada para que Araújo falasse sobre os esforços da diplomacia brasileira para conseguir vacina contra o coronavírus, ele foi alvo de uma série de pedidos diretos para que deixasse o cargo, feito tido como inédito por uma série de analistas. O coro cobrando seu afastamento incluiu os senadores Mara Gabrilli (PSDB-SP), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Jorge Kajuru (Cidadania-GO) e Simone Tebet (MDB-MS). No domingo, 28, a publicação de Araújo no twitter relatando uma conversa com a senadora Katia Abreu (Progresistas-TO), presidente da comissão de relações exteriores do Senado teve enorme repercussão e acabou sendo "a gota d'água": “Ministro, se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será o rei do Senado”, teria dito Kátia Abreu, de acordo com o ministro. Na prática, ele insinuou que a deputada estaria fazendo lobby em defesa dos interesses da China. E completou sua publicação ressaltando que não fez "gesto algum".

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