Gerente da BR acusa cúpula de favorecer a UTC

Funcionário diz que direção aprovou contratos irregulares de R$ 650 mi com empresa investigada na Operação Lava Jato

Entrevista com

Marcos Aurélio Frontin, gerente adjunto da BR Distribuidora

Andreza Matais, O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2015 | 05h00

BRASÍLIA - Após ser apontado em auditoria interna da BR Distribuidora como único responsável por ilegalidades em contratos com a UTC no valor de R$ 650 milhões, o gerente adjunto de Instalações da subsidiária da Petrobrás, Marcos Aurélio Frontin, acusa o atual presidente da BR, José Lima de Andrade Neto, e a antiga diretoria de terem determinado contratação irregular com a empresa do empreiteiro Ricardo Pessoa, um dos réus delatores da Operação Lava Jato.

Funcionário de carreira da subsidiária da Petrobrás, Frontin disse ser um “bode expiatório”. Para ele, sem Andrade Neto, os contratos não teriam sido feitos. O executivo, ligado ao senador Fernando Collor (PTB-AL), é o único a ter se mantido no cargo após os desdobramentos da Lava Jato. Em depoimento de delação premiada, Pessoa afirmou que repassou R$ 20 milhões a aliados do senador por esses contratos com a BR.

Estado - O senhor foi apontado pela auditoria como único responsável pelos contratos irregulares da UTC que somam R$ 650 milhões.

Você acha que eu, um gerente de terceiro escalão, tinha competência para isso? Eu estou de bode expiatório nessa história. Foram contratações do nível de responsabilidade que transcende a minha competência. Minha competência era de R$ 300 mil. Essas contratações eram acima de R$ 100 milhões. É como querer tapar o sol com a formiga.

Quem determinou essas contratações?

Esse nicho de competência é da diretoria. Toda diretoria, presidente, todo mundo. A escolha da empresa não fui eu que fiz, já veio pronta. Quem fazia sempre era minha gerência e esse, especificamente, não foi feito assim. Foi feito lá pelo gerente executivo, de logística, de engenharia, não sei mais quem foi na época.

Estado - Como assim veio pronta?

É uma licitação por meio da internet. Acho que somente dez empresas foram avisadas (de dezenas de um cadastro da BR). Foi um contrato um atrás do outro (todos com a UTC), não fui eu que aprovei, a palavra final não é minha. O limite de competência era de toda diretoria, inclusive do presidente da BR. Só que toda diretoria já saiu da empresa, exceto o presidente que esta lá ainda. 

Estado - A BR diz que o presidente não teve responsabilidade.

É muito bonito, lindo. Isso é uma brincadeira, sabe, uma brincadeira. Sem ele não aprovaria. Eu sou peão. Agora eu sou responsável por isso?

Estado - O senhor não estranhou a mesma empresa contratada consecutivamente para três obras no valor de R$ 650 milhões?

Chamou a atenção de todo mundo, mas isso não era da minha competência. Eu tenho que fazer meu serviço. 

Estado - Ofereceram propina para o senhor?

Não, nada.

Estado - O senhor nunca recebeu nenhum valor?

Recebi, um chaveiro.

Estado - O senhor foi afastado por 29 dias da empresa. O que lhe informaram?

Que eu não verifiquei alguns preços unitários de uma planilha de 600 itens. Eu, sendo gerente, tendo uma amplitude de comando de 82 pessoas, eles acham que eu ia ficar vendo item a item de tudo o que é obra? Eu vi os grandes itens. E outra, contratação é preço unitário, não é global. Não precisava ver item nenhum. Eu quero esclarecer que eu sou um pintinho na história toda, não tenho nada a ver com isso.

Estado - O senhor já prestou depoimento sobre o caso na Lava Jato?

Quem quer ver isso no tribunal sou eu. O resultado da auditoria nunca me foi encaminhado. Não pude em momento algum retrucar. Estou numa situação desconfortável com meus colegas. É uma punhalada nas costas de uma empresa que dediquei mais da metade da minha vida.

BR Distribuidora.  Procurada pelo Estado, a BR Distribuidora não se pronunciou sobre as acusações de Marcos Aurélio Frontin de que era da alçada do presidente da empresa, José Lima de Andrade Neto, e dos diretores à época a aprovação dos contratos que estão sob suspeita da Lava Jato com a UTC nem por qual razão apenas um gerente adjunto foi responsabilizado. A empresa informou apenas que “as investigações internas identificaram inconformidades com as normas da companhia, mas não foram apontadas evidências materiais de atos ilícitos” .

Na nota, a BR disse ainda que Frontin foi ouvido “mais de uma vez durante o processo de apuração” e que “não foi localizada nenhuma solicitação do empregado em questão” de acesso ao resultado da auditoria. “Os relatórios conclusivos das apurações foram enviados, em maio deste ano, ao Ministério Público do Rio de Janeiro e, em junho, à Procuradoria Geral da República. O Ministério Público tem a prerrogativa de decidir pelo acesso ao conteúdo integral.”

Sobre a indicação política do atual presidente da BR ter partido do senador Fernando Collor, a BR encaminhou o currículo de Lima Neto que esta no comando da empresa desde agosto de 2009 e desde março de 2014 acumulava o cargo de diretor financeiro já preenchido.

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