Geógrafo optou por humanismo

A poderosa palavra de Milton Santos não se limitou aos livros ou às aulas universitárias. Chegou aos palcos, por meio das vozes dissonantes levadas a cena pela atriz diretora e autora Denise Stoklos; a diversas comissões, como a formada pela prefeita Marta Suplicy para inserir São Paulo no processo de globalização; por fim, à internet, que distribuiu sua crítica à comunicação sem emoção. A repercussão do discurso do geógrafo representou a consagração do humanismo na cultura, como foi observado no ano passado, quando ele recebeu o Prêmio Multicultural 2000 Estadão Cultura. Generoso, ofereceu sua premiação "aos brasileiros, que muito esperam de seus intelectuais". O prêmio valorizou um pensamento cuja construção começou na década de 60, quando, empurrado para um exílio "voluntário" pelo governo militar, Santos aproveitou a dor da ausência para solidificar a forma de estudo que o consagraria.Em vez de fazer uma mera descrição de relevos, passou a analisar as conseqüências que a economia, a política, o desenvolvimento urbano, a estrutura agrária e os problemas sociais têm na vida cotidiana. Foram 13 anos longe do Brasil, período em que foi professor na França, no Canadá, na Venezuela e nos Estados Unidos. Trabalhou ainda em Dar-es-Salaam, na Tanzânia.Uma trajetória vitoriosa, que lhe garantiu, entre outros, o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1994, uma espécie de Nobel de sua área. Também foi consultor da Organização das Nações Unidas, da Organização Internacional do Trabalho e da Organização dos Estados Americanos. Santos derrubou idéias antigas sobre a organização das cidades, como a de que centros urbanos modernos destroem a experiência humana."O que destrói é a civilização que nós adotamos, pois a cidade aparece como manifestação representativa dela", costumava dizer. A tendência, defendia, é a redução das diferenças entre os homens do campo e os da cidade. Na realidade muitos deles seriam as mesmas pessoas. Sempre fazia os comentários com um sorriso encantador, traço característico de um baiano, como ele garantia, nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas. Amante da matemática, acabou cursando Direito, em Salvador. Naquela época, dizia-se que a Escola Politécnica não tinha muito gosto em acolher negros. Impressionado pela obra Geografia Humana, de Josué de Castro, mudou de área, disposto a participar de um debate filosófico sobre o destino do homem e a história do mundo se fazendo por meio da produção do espaço geográfico.Desde sua opção, produziu mais de 300 artigos e 40 livros. O último, O Brasil: Território e Sociedade no Início do Século 21, foi lançado no início do ano.

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