Andre Dusek/Estadão
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'Gênese' de corrupção na Petrobrás está em Brasília, diz Paulo Roberto Costa

Em mais de cinco horas de depoimento à CPI, ex-diretor disse que 'maus políticos' são responsáveis pelo esquema e que doações oficiais de campanha também são fruto de propina

DAIENE CARDOSO E DANIEL CARVALHO, O Estado de S. Paulo

05 de maio de 2015 | 21h21

Brasília - Em seu quarto depoimento em comissões parlamentares para explicar o esquema de corrupção na Petrobrás, o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa disse nesta terça-feira, 05, que a "gênese" dos desvios está "em Brasília" e não na estatal. Em mais de cinco horas de depoimento, Costa disse que "maus políticos" são responsáveis pelo esquema e que doações oficiais de campanha também são fruto de propina, pois "não existe empresa inocente". O depoimento não havia terminado até a conclusão desta edição.

"Isso aconteceu por atitude de maus políticos. A gênese foi aqui em Brasília. A origem não foi na Petrobrás. A origem veio aqui em Brasília", afirmou Costa, que negou que a corrupção na estatal fosse "institucionalizada", como afirma o ex-gerente da estatal Pedro Barusco.

Costa pôs em dúvida as doações eleitorais feitas por empresas. "Não existe doação de empresas que depois essas empresas não queiram recuperar o que foi doado. Se ele doa R$ 5 milhões, ele vai querer recuperar na frente R$ 20 milhões', disse o ex-diretor. "Os valores, sejam valores de doações oficiais ou não, têm restrições. Algumas empresas me falaram isso e agora, nas delações, isso está ficando claro. Não existe almoço de graça". Costa defendeu que os "maus políticos" também sejam punidos.

Costa é acusado de intermediar negócios entre a Petrobrás e empreiteiras, recolhendo propinas e distribuindo o dinheiro a partidos políticos. Ele disse ter recebido recursos de todas as empreiteiras que compunham o cartel que assinava contratos com a estatal. O grupo, segundo Costa, era liderado pelas empresas UTC e Odebrecht.

Se dizendo arrependido, Paulo Roberto Costa citou uma série de políticos de PT, PSDB, PP e PMDB. Mencionou os já falecidos ex-governador Eduardo Campos (PSB-PE), ex-senador Sérgio Guerra e ex-deputado José Janene (PP-PR). Costa afirmou conhecer e ter mantido contados no âmbito do esquema de corrupção com nomes como Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, mas negou envolvimento com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

O ex-diretor reafirmou aos parlamentares ter recebido do ex-ministro Antonio Palocci pedido de contribuição de R$ 2 milhões para a campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2010. Reafirmou também ter se reunido ao menos três vezes, entre 2009 e 2010, com Sérgio Guerra e com o líder do PP na Câmara, Eduardo da Fonte (PE), para que pagasse R$ 10 milhões pelo adiamento de uma CPI para investigar a estatal.

Política de preços. Segundo Costa, os malfeitos identificados pela Operação Lava Jato representam "apenas 10% do rombo" total da empresa. Segundo ele, a política de defasagem de preços de derivados de petróleo foi o principal fator de prejuízo da empresa. "O governo manteve os preços congelados e arrebentou com a empresa". "O maior problema é a gestão que fazem na companhia, a gestão política. Lava Jato é 10% do rombo da Petrobrás".

Paulo Roberto Costa disse ter solicitado algumas vezes ao então presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, o aumento dos preços dos combustíveis, mas não foi atendido. "Ele, como presidente do Conselho, tinha poder para negar. (...) O ministro Mantega estava representando o governo naquele momento", afirmou o ex-diretor, que fez delação premiada e cumpre prisão domiciliar, após seis meses preso. 

Contratos. Sobre a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, Costa disse que a presidente Dilma Rousseff, que na época presidia o colegiado, sabia de todos os negócios aprovados, mas evitou imputar culpa diretamente a ela. "A responsabilidade (pelo negócio) não é só da presidente do Conselho, é de todos os conselheiros. O Conselho foi responsável", respondeu. No entanto, questionado se a compra teria sido aprovada pelo Conselho caso a presidente se dissesse contrária, ele respondeu: "Não".

Já sobre os milionários aditivos contratuais como os da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, Costa afirmou que eles não eram de responsabilidade de apenas um diretor. "Todos os aditivos foram aprovados pela diretoria-executiva da Petrobrás, então responsabilizem toda a diretoria e o presidente da Petrobrás". Segundo o ex-diretor, também houve pagamento de propina nesses aditivos.

Lula. Os deputados Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e Efraim Filho (DEM-PB) apresentaram requerimento para convocar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à CPI. Os deputados alegam que tanto o ex-presidente como sua sucessora, Dilma Rousseff, tiveram condições "de adotar medidas concretas no sentido de estancar a série de desvios de vultosas quantias que estavam ocorrendo no seio da Petrobras". Após protocolado, o requerimento precisa ser pautado e aprovado pelos membros da comissão. A próxima reunião deliberativa será nesta quinta-feira, 7.

Costa negou que tenha conversado sobre o esquema com Lula ou Dilma. O ex-diretor admitiu ter sido convidado para o casamento da filha da presidente, mas não informou o presente que deu.

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