Governo do Estado de São Paulo
General João Camilo Pires de Campos e o governador João Doria Governo do Estado de São Paulo

‘General de Doria’ afirma que Exército não apoia aventuras

Diante do bolsonarismo, secretário diz que cadeia de comando da PM paulista não permite o uso partidário da polícia

Marcelo Godoy e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 05h00

Os políticos o conhecem como “o general do Doria”. João Camilo Pires de Campos não gosta do rótulo. Ele procura dissociar a atuação na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo do atual momento político pelo qual passam o País e o Exército, onde trabalhou por 48 anos, três meses e dois dias. A farda cedeu espaço ao terno e gravata e o quartel, ao prédio da antiga Rede Ferroviária Federal, no centro da capital paulista, hoje sede da Secretaria da Segurança Pública do Estado. É ali que o homem que esteve por duas vezes à frente do Comando Militar do Sudeste (CMSE) trabalha desde janeiro de 2019.

Anunciado logo após a eleição de 2018 pelo governador João Doria (PSDB) para chefiar a pasta, o secretário faz uma gestão marcada pela queda dos principais índices de criminalidade no Estado – roubos, homicídios e furtos, em comparação com os dados de 2018 – e pela adoção de câmeras corporais para gravar ininterruptamente o trabalho dos policiais militares, derrubando índices de letalidade policial a zero em 18 batalhões, entre eles o 1.º Batalhão de Choque, as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). 

Durante a pandemia, conta o general, a secretaria perdeu 196 homens para a covid-19. Ele mesmo teve a doença de forma assintomática em 2020 e, neste ano, vacinou-se – já tomou as duas doses. “Tenho 67 anos.”

Seu novo trabalho não o afastou dos colegas de Exército, que o procuram para saber informações sobre Doria. O general mantém distância das redes sociais. Não tem conta no Twitter e, mesmo o WhatsApp, com grupos como o da Turma de 1976 da Academia Militar da Agulhas Negras (Aman), é consultado poucas vezes ao dia.

Campos não fica alheio às ameaças contra as eleições fomentadas por declarações do presidente Jair Bolsonaro contrárias às urnas eletrônicas. Sobre o clima de golpe que ronda o País, ele diz ter certeza de que o Exército não vai embarcar em nenhuma aventura. “Não vai. Não vai. É o Exército profissional que todos conhecemos e todos admiramos.” 

Campos citou nomes de generais do atual Alto Comando do Exército (ACE), seus amigos e antigos subordinados, comprometidos com os princípios de neutralidade, isenção e apartidarismo do Exército. “Como instrutor, nosso objetivo é fazer de nossos alunos profissionais melhores do que nós. E os que me substituíram lá são melhores do que eu.”

Era 1969, quando ele, o filho mais novo do dono de um cartório de Monte Mor, cidade da região de Campinas, no interior paulista, foi inscrito com outros três colegas de sala de aula por um professor no exame da Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Todos passaram. E lá foi ele fazer o que o pai julgava ser um “bom científico”.

Começava ali uma carreira na Arma da Artilharia que o levaria a rodar pelo Brasil com a mulher e os dois filhos, a mudar 44 vezes de casa e a ser instrutor na Academia de Guerra da Força Terrestre do Equador por dois anos antes de voltar, após 43 anos, a São Paulo, para comandar a 2.ª Região Militar. “Para a família, foi puxado.”

Ao aceitar o convite para assumir a Segurança Pública, o general alugou um apartamento na Vila Mariana – a família permanece no interior. Quando seu nome foi anunciado, para a Segurança Pública parecia se tratar de mais uma solução improvisada para pacificar uma área na qual o recém-eleito Doria enfrentava resistências.

O general havia participado da campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB), e o candidato tucano derrotado por Bolsonaro acusava Doria, seu antigo pupilo, de traição. Ao mesmo tempo, o governador tinha enfrentado concorrentes ao governo do Estado que traziam coronéis da PM como vices e tinha de lidar com os descontentamentos das polícias com as seguidas administrações na Segurança entregues a promotores de Justiça.

As polícias queriam seguir o caminho do Rio, onde o governador Wilson Witzel dividiu a secretaria e deu a cada polícia um lugar em seu secretariado. Doria resistiu. Foi aí que surgiu o nome do general. Era para ser um arranjo de poder no contexto da volta dos militares à política nacional. Quando chegou à secretaria, Campos não conhecia as pessoas ou a cena criminal paulista. Nomeou dois executivos: o coronel Álvaro Camillo e o delegado Youssef Abou Chahin. Sua figura, no entanto, ajudou a controlar o avanço do bolsonarismo na polícia.

De acordo com um coronel ouvido pela reportagem, a presença do general na secretaria ajudou a conter a corrosão que o bolsonarismo provocou em outras polícias estaduais. Outro coronel da PM que acompanhou a infiltração da política partidária na tropa comparou Campos ao policial que faz toda a carreira no Corpo de Bombeiros e, ao chegar ao topo da carreira, tem de comandar o policiamento de área. Campos, segundo ele, aprendeu as diferenças entre o Exército e a polícia.

O general se tornou avalista da maior mudança até agora observada na área: o programa que instalou 3 mil câmeras individuais em PMs. Lideranças bolsonaristas atacaram a medida. No dia 14 de julho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) escreveu: “Câmeras ligadas 100% do período que o PM estiver trabalhando vai desestimulá-lo. Não vai tardar e a sociedade sentirá os efeitos”.

Sem volta. Campos disse ao Estadão que o programa de câmeras “não tem volta”. E anunciou que as atuais 3 mil devem chegar a 10 mil no fim do governo, em 2022. Mas o filho do presidente não ataca o general. Quando reclama da Segurança Pública paulista, sempre aponta o dedo para Doria. Por trás do discurso bolsonarista de que “a polícia precisa trabalhar” estaria o descontrole da letalidade policial sob a justificativa de que os bandidos podem atirar à vontade nos policiais.

Ainda no Exército, o general teve experiência da ação em operações da Garantia da Lei e Ordem quando um de seus subordinados – um cabo – foi assassinado em um confronto com bandidos no Complexo da Maré, no Rio. Para o sociólogo Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Campos trouxe para a Segurança a ideia de controle na ponta da linha, que existe no Exército. Para Lima, esse seria o caso das câmeras da PM. “Elas devem mudar a cultura policial. Aumentam a fiscalização e reduzem a discricionariedade no cumprimento da lei.” 

Segundo Lima, o general pacificou uma área conturbada, mas foi ajudado pelo contexto. “Ele é afável e conversa mesmo com quem discorda.” E assim Campos viu movimentos, como o motim promovido por bolsonaristas no Ceará, passarem longe de São Paulo. E também ações, como a que ocorreu em Pernambuco, com a repressão indiscriminada a uma manifestação da oposição pedindo o impeachment de Bolsonaro.

Trata-se de ameaça real. Em pelo menos duas oportunidades policiais paulistas foram flagrados defendendo o uso da violência contra opositores do presidente nas ruas. “Estive duas vezes com o secretário e fui bem tratado, mas as polícias estão sem comando. As decisões parecem ser tomadas à revelia dele. Não levam muito a sério o que ele pede. A segurança pública está ao Deus-dará”, disse o deputado Ênio Tatto (PT). Tatto, no entanto, avalia que a “repressão nas manifestações não seja culpa dele (Campos)”.

A pouco menos de um ano e meio da eleição, o general deixa em aberto se sairá candidato em 2022. Dois de seus colegas de turma se elegeram deputados federais em 2018 – os generais Roberto Peternelli (PSL-SP) e Eliéser Girão (PSL-RN). “Hoje digo que não pretendo. Mas tem duas coisas que não se deve dizer: nunca e sempre.”

Em 2018, Peternelli o convidou para sair candidato. “Insisti, mas ele não quis. Ele é eficiente e ponderado. Tem conduzido com firmeza a Segurança Pública. O resultado é a queda dos índices de criminalidade.” Também entre tucanos já há quem cogite a passagem do general da secretaria para a política partidária. Marco Vinholi, presidente do PSDB paulista, deixa claro que o partido vai apoiá-lo caso ele queira entrar na corrida eleitoral: “Ele é um general com o perfil do Doria”.

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‘Militar da ativa não deve ocupar cargo civil’, diz secretário de segurança de São Paulo

General João Camilo Pires de Campos afirma ainda que programa responsável por colocar câmeras nos corpos dos PMs 'não tem volta'

Entrevista com

João Camilo Pires de Campos, secretário da Segurança Pública de São Paulo

Marcelo Godoy e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 05h00

O general João Camilo Pires de Campos, de 67 anos, afirmou ser contrário à participação de militares da ativa em funções de natureza civil sem relação com a profissão militar. Para coibir o uso indiscriminado de militares nesses cargos, como ocorreu no Ministério da Saúde na gestão do general Eduardo Pazuello, o Congresso discute a adoção da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apresentada pela deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), que obriga militares da ativa a passar para a reserva ou deixar o Exército, caso assumam cargos civis no Executivo, a exemplo do que já acontece com magistrados e procuradores. Campos foi para a reserva em maio de 2018. O chefe da Segurança Pública em São Paulo afirmou ainda que o programa responsável por colocar câmeras nos corpos dos policiais militares para gravar ininterruptamente o turno de serviço “não tem volta”. Leia, a seguir, os principais trechos de sua entrevista.

O sr. havia participado da campanha de Geraldo Alckmin à Presidência. Como seu nome surgiu para a pasta?

O governador, quando era prefeito, me conheceu. Eu era comandante do Sudeste. Havia já uma relação, um contato. Eu conhecia o delegado Youssef Chahin, que foi tenente, do CPOR (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva), e de Artilharia (o general saiu aspirante da Arma de Artilharia, em 1976). Na campanha, no programa do Alckmin, estávamos eu, o (cientista político) Leandro Piquet e o coronel José Vicente, e fomos eu e o Leandro ao comitê do Doria para fazer a convergência dos programas de Segurança. Foi aí que o conheci, fora do aspecto funcional entre o prefeito e o comando do Sudeste. E, depois da eleição, fui convidado.

Quando o sr. assumiu a secretaria havia um imbróglio, uma disputa entre as polícias Civil e Militar. Cada qual queria maior protagonismo. Havia ainda rejeição à presença de membros do Ministério Público na secretaria. Como foi o papel do sr. nesse xadrez do governo?

Preciso contar um pouco da minha experiência como comandante da Região Militar, que tem 13 funções, algumas das quais são serviços públicos, como a fiscalização de produtos controlados. Nessa função, temos muito contato com as polícias, tanto a Civil quanto a Militar. Conviver com as polícias, depois de passar dois anos pela Região Militar e comandar por um ano e meio o Sudeste, não foi novidade. Quando as coisas acontecem na vida da gente, você pode não saber na hora, mas saberá adiante. Você aprende todo dia, passando de um sistema Defesa para um sistema Segurança. E eu gosto de aprender. Não houve trauma nessa passagem, não houve revolução, mas evolução.

O sr. não foi um interventor na Segurança Pública?

Eu fui muito bem acolhido por ambas as polícias. Eu conhecia mais a estrutura da Polícia Militar por semelhança com o Exército, com áreas, batalhões e companhias, e fui aprendendo com a Polícia Civil a estrutura departamental, as seccionais e a relação com a política técnico-científica. Eu tinha profundo respeito pela polícia de São Paulo. Aqui sempre teve um profissionalismo destacado e passei a admirá-la com o conhecimento. Sinto-me em casa tratando com os policiais.

Aqui em São Paulo o sr. não enfrentou nenhum caso de motim ou indisciplina, como no Ceará, ou de ação que saiu do controle do governo, como em Pernambuco?

Nem a mais pálida situação dessa. Não houve nenhuma situação. Onde há profissionalismo, onde se faz as coisas com fé, isso não acontece. Aqui os policiais optaram por ser policiais. Percorro a área toda, percorro as delegacias, fui a todo interior e converso com todos eles.

Mas, secretário, não faltam problemas na polícia. Como o sr. viu a ação da PM na favela Paraisópolis, quando nove jovens morreram pisoteados em um baile funk? Como foi aquele dia para o sr.?

Eu fui soldado 48 anos. Isso para mim não foi nenhuma novidade. Os integrantes da Segurança Pública são operários das pessoas de São Paulo. E temos uma polícia com 110 mil pessoas. Nessa hora, tenho 20 mil policiais trabalhando. Dentro das probabilidades, isso pode acontecer. Mas há muita coisa boa acontecendo. O Copom é acionado 70 mil vezes por dia. Eu nunca pensei: ‘Ai meu Deus do céu’ ou tive pesadelo. Problemas existem para serem resolvidos. Tenho a crença de que o profissionalismo da polícia resolve tudo isso.

E naquele dia?

Naquele dia, fui comunicado na hora e as providências já haviam sido tomadas, o Ministério Público já havia sido acionado. Todas as providências de praxe. As polícias são muito rigorosas. Não têm dificuldade de cortar na própria carne.

Quando o sr. chegou aqui, além da relação entre as polícias, a cúpula do crime organizado também foi mandada para prisões federais. Temiam-se represálias da facção...

Foi uma das primeiras perguntas que me fizeram: 'O que o sr. vai fazer com o PCC'. E eu disse: ‘Vamos cumprir a lei’. A decisão da transferência dos presos foi uma decisão do governo e ela foi muito bem feita. Quando todos se deram conta, o Hércules já estava voando para fora de São Paulo.

O PCC nasceu com seis presos, em 1993, em Taubaté. O Estado não foi capaz de evitar que quase 30 anos depois ele se tornasse o primeiro cartel da droga do Brasil. O sr. acha que é possível conter o crime organizado? Há alguma fórmula para isso?

Combater o crime organizado. Esse é o objetivo da política nacional de Segurança Pública e é o primeiro objetivo da Polícia Estadual de Segurança Pública. É possível, sim. O que não pode é descurar e deixar de lado. Combate-se com união e integração. A Segurança Pública é dever do Estado, mas responsabilidade de todos nós. É necessário o uso cada vez maior da inteligência.

Comparando dados do primeiro semestre de 2018 com o primeiro de 2021, São Paulo teve quedas de 4,8% dos homicídios, de 20,5% dos roubos, de 17,5% dos furtos, de 36% dos latrocínios, de 14% de lesões corporais e de 15% da letalidade policial. O número de PMs mortos em serviço no primeiro semestre de 2018 foi de 5 e neste ano, nenhum. As prisões também caíram 18%. Os dados são bons, mas os críticos dizem que o sr. contou com o ‘secretário vírus’ para obter esses resultados. O que pode ser posto na conta da secretaria e o que tem de ser posto na da pandemia sobre essas reduções?

O caso do 'secretário vírus' aconteceu no mundo inteiro, de março de 2020 para cá. Mas nós falamos em 2018, em 2019. O ano de 2020 é atípico. Eu gosto de comparar o ano de 2021 com o de 2019. Os índices caíram abruptamente nos meses de março, abril e maio de 2020. Houve retração econômica e de movimento das pessoas. A polícia circulou com mais tranquilidade, potencializamos a polícia na rua. Ela chegava mais rápido nas ocorrências. E estávamos com uma atenção grande às empresas de alimentos, remédios e de material hospitalar. Planejar não é proibido. Profissionais que estavam na administração foram colocados nas ruas. O que é notável nisso é que, apesar de 2018 ser uma marca interessante, a redução da criminalidade em São Paulo começou lá em 1999.

 

A gestão do sr. também deu aval ao programa das 'body cameras' da PM. No Tribunal de Justiça e no Ministério Público acredita-se que elas podem aumentar a qualidade da prova e acrescentar credibilidade ao relato do policial, além de controlar a letalidade. O sr. pensava em todos esses efeitos quando o programa começou?

Certamente. O projeto câmera começou há sete anos com 50 câmeras, que precisavam pôr no carregador para acessar as imagens. Tudo isso foi pensado. Já me disseram: 'General, a câmera diminui a letalidade'. Eu digo: 'A câmera é um objeto; quem diminui a letalidade é um processo'. Ou seja. Há vários outros aspectos, como o retreinamento, a atenção da tropa. Há treinamento ao vivo e preleções diárias e instruções semanais de reciclagem. E um aspecto fundamental, tão importante quanto as câmeras, que são as reuniões de conformidade e de não conformidade. Cada vez que ocorre um evento morte em uma abordagem aquilo tudo é trazido a um comitê que analisa o caso.

O sr. quer dizer que, partindo do pressuposto que se agia dentro da lei, o que poderia acontecer antes seria o descumprimento de procedimentos operacionais que levariam à reação dos criminosos? A câmera ajudaria o policial a se colocar de forma mais segura nas ocorrências?

Ela ajuda muito o policial. E há trabalhos acadêmicos que mostram que o cidadão, quando sente que o policial está com a câmera, a postura dele é outra. Outro dia comentei: o policial profissional não teme a câmera, pois sabe que ela está somando. Nós tivemos um evento aqui em São Paulo em que uma policial feminina de um metro e meio de altura controlou com a câmera a ação de um homem enorme, só com a câmera.

Não houve resistência na polícia?

Todo processo demanda ajustamento e amadurecimento. Não chegou a mim nenhum dado de recusa ao uso da câmera. Ela não é diferente de uma arma, com a qual devemos nos adaptar. À pistola nós temos de nos adaptar, ao fuzil temos de nos adaptar. A verdade é a seguinte: não existe retorno. Não existe retorno para o uso de câmera no sistema policial. Nós estamos com 3 mil câmeras e estamos comprando mais sete mil. Essa gestão vai com 10 mil câmeras. É algo notável. E, nesse processo de redução da letalidade, teremos mais 4 mil armas taser – já temos 3,5 mil. Teremos 7,5 mil armas de incapacitação.

Mas isso enfrentou reação, como o deputado Eduardo Bolsonaro, que foi ao Twitter afirmar que não estavam mais deixando a polícia trabalhar. O que significa?

Eu já afirmei aqui. A câmera é algo que não volta. A tendência é aumentar cada vez mais. E a tecnologia que estamos aplicando em São Paulo é inédita no mundo.

Como o sr. vê essas reações de políticos que tentam explorar algum descontentamento da tropa?

Eu foco no meu trabalho. Não tenho Twitter, não acompanho. Não tenho nada.

O sr. tem dois colegas de turma que trilharam o caminho da política: os generais Eliéser Girão e Roberto Peternelli, eleitos deputados federais pelo PSL em 2018. O senhor não pensa em trilhar o mesmo caminho de seus colegas de turma?

O futuro a Deus pertence. Mas hoje eu digo que não pretendo. Vou cumprir minha missão; que eu continue sendo útil.

Mas o sr. não descarta totalmente?

Hoje? Você não pode dizer o seguinte: nunca e o sempre.

O sr. não assinou ficha de filiação partidária?

Não quero saber desse negócio.

Discute-se muito atualmente a forte presença de colegas do sr. no governo federal em cargos de natureza civil. Começou a tramitar no Congresso uma PEC que busca limitar isso, estabelecendo para militares as mesmas regras que existem para juízes e promotores. O sr. vê inconveniente nessa participação de militares da ativa no governo em cargos civis? O que o sr. acha da PEC?

Vou ser claro. Há funções fora da Força que são dedicadas, são típicas de profissionais da ativa. Nessas não vejo inconveniência.

GSI, Defesa?

Sim. Nessas, não vejo inconveniência. As outras eu não concordo. Eu preferia que o companheiro fosse para reserva. Agora (é diferente), o aproveitamento de militares da reserva, que receberam algo que a Força proporciona, que é a educação continuada. Então você tem profissionais muito bem preparados em várias áreas. Não vejo inconveniente de o profissional da reserva ser aproveitado na área afim ou que tenha disposição para atuar. Com relação à ativa, os da ativa apenas para aquelas funções que são dedicadas. E se limitem a isso.

Como é a relação do sr. com o governador Doria?

Eu respeito muito o governador Doria pela capacidade de trabalho que tem. Ele trabalha com metas e isso vem ao encontro do que fiz a minha vida toda. Ele trabalha com objetivo, prazo e ação. No caso da Segurança Pública, temos 47 metas para atingir dentro do programa de metas, que é acompanhado pelo governo. Toda quarta-feira tem uma reunião do Conselho de Segurança, que é presidido por ele. Ontem nós fizemos a 110.ª reunião. Teremos até o final do terceiro ano de gestão quase 82 mil armas compradas. Quando isso foi comprado?

O governador já disse ao sr., caso ele seja eleito, se o sr. será o ministro dele da Defesa?

Não. Nunca conversamos sobre isso.

O sr. enfrenta a questão salarial, que é motivo de muita reclamação nas polícias, não?

A questão salarial é uma preocupação do governador. Há uma atenção sempre pela questão salarial, mas outros aspectos da valorização profissional estão acontecendo. Houve um reajuste possível. Há o pagamento das bonificações. Em termos de caixa de governo, a pandemia o diminuiu. A atividade econômica caiu no mundo. A pandemia não é um problema só no Brasil.

Como sr. avalia o protagonismo das Forças Armadas no governo Bolsonaro e o discurso do general Pazuello em um ato partidário?

Você está me fazendo uma pergunta difícil como secretário da Segurança Pública. Deixa eu cuidar da minha cadeira.

Entendo, secretário, mas o sr. passou 48 anos no Exército e a dedicação que o sr. teve não se exaure no momento em que o sr. foi para a reserva. Há laços para toda a vida. Há os que não estão mais no governo, como o general Fernando Azevedo e Silva. Há outros que estiveram no Alto Comando com o senhor e hoje são fustigados pelo presidente. Essa tentativa constante de tentar vincular as Forças ao governo, em vez de tratá-las como instituições de Estado, não incomoda o sr.?

Eu tenho profundo respeito e admiração pela instituição que me acolheu. É uma instituição que tem história. Ela tem uma base cultural fantástica. Ela tem sistemas perfeitos e o mais perfeito deles é o de Educação e Cultura, valorizando muito a educação, que é mais do que o ensino. Educação é o que se ensina mais os valores que se reforçam e se incorporam. Vivi nessa instituição maravilhosamente, e essa instituição continua sendo a mesma. A mesma. Eu tenho profunda convicção de que o Exército brasileiro continua sendo o mesmo, voltado ao profissionalismo, voltado ao culto dos valores e das tradições e da sua história.

O sr. tem certeza de que o Exército não vai se prestar a nenhuma aventura?

Não vai. Não vai. É o Exército profissional que todos conhecemos e todos admiramos. Veja o respeito à meritocracia no Exército. Tivemos promoções agora fantásticas. São nomes fantásticos e que, certamente, engrandecem o Alto Comando do Exército. Eu, como instrutor, preciso fazer com que meu aluno seja melhor do que eu sou. Então, eu tenho certeza de que os que estão chegando agora são melhores.

Como o sr. se sente quando abre o jornal e vê Bolsonaro ou Braga Netto dizendo que, se não mudar o voto, não haverá eleição. Como o sr. vê isso?

Essas são as narrativas que aparecem, né? O Exército, na minha opinião, é muito magnânimo em qualquer contexto.

Como é a preocupação do sr. de evitar excessos em manifestações?

Tivemos várias manifestações e uma nesse fim de semana agora (sábado, dia 24 de julho), não tivemos nenhum ferido.

Só uma estátua?

Isso foi outro contexto. A tropa tem atuado com extremo profissionalismo. Vejam a postura dos policiais.

O cidadão de São Paulo pode ficar tranquilo em relação às suas forças policiais no próximo ano diante de uma campanha eleitoral que se desenha muito aguda em razão da aposta na radicalização de alguns atores?

Volto a reafirmar: nós temos forças policiais em São Paulo que são absolutamente profissionais. Gente vocacionada.

Há um antagonismo de alguns setores em relação à polícia. E o comando precisa estar atento para evitar desvios dos que na base sentem muita simpatia pelo presidente da República. Como lidar com esses policiais para que eles entendam que as simpatias deles devem ficar em casa, quando eles vestem a farda?

Existe algo que nós chamamos de cadeia de comando. Ela começa no cabo e termina no comandante. Ela funciona. É fundamental para o equilíbrio e o controle e a orientação. Isso funciona muito bem para identificar um ou outro desvio e corrigir.

Como é a orientação formal em relação a manifestação de policiais nas redes?

Postar-se com profissionalismo. Isso é regra.

Mas como se faz para controlar isso? Foram detectados excessos de manifestação de policiais em redes sociais?

Veja que eu não vou usar o termo preocupação. Eu vou usar o termo atenção. Há uma atenção constante nesse sentido. Qualquer desvio do que se reputa como normalidade deve ser corrigido. Orientar e controlar são os dois bons verbos.

O sr. é ainda responsável pela escolta da vacina. Algum incidente registrado até agora?

Já rodamos um milhão e 500 mil quilômetros distribuindo vacina. Sem nenhum incidente. Escoltamos porque a vacina é um ativo importante.

O sr. já tomou a vacina?

Sim, já tomei. Eu tenho 67 anos. Tomei a AstraZeneca, que é a que estava à disposição.

O sr. teve algum problema?

Eu tive covid. Fiquei assintomático. Até hoje nós perdemos 196 policiais da ativa. É um efetivo considerável. O policial não pode fazer distanciamento. Ele tem de estar no policiamento e a idade média deles é de quase 46 anos. Veja, as pessoas têm reações diferentes. Um cidadão pega e morre em quatro dias, outro luta durante dois meses e outro não sente nada.

Perda familiar o sr. não teve?

Não tive, mas considero essas 196 pessoas como gente da família.

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