Sylvain Liechti/ONU
O general Carlos Alberto Santos Cruz em missão no Congo. Sylvain Liechti/ONU

Generais descrevem atuação em missões de paz: 'Não há rotina'

Carlos Alberto Santos Cruz e João Carlos Vilela Morgero, que comandaram tropas brasileiras na missão de paz no Haiti, narram experiências das Forças Armadas no exterior - da relação com a população local à boa imagem do futebol brasileiro

Marcelo Godoy e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2020 | 14h00

Assim como os contra-almirantes Eduardo Wieland e Sérgio Berna Salgueirinho (veja mais), os generais Carlos Alberto dos Santos Cruz e João Carlos Vilela Morgero comandaram contingentes brasileiros em tropas de paz. 

Santos Cruz comandou a força de paz no Haiti por dois anos e três meses e depois a força para imposição da paz na República Democrática do Congo, enquanto Morgero liderou o contingente brasileiro no Haiti em 2005, e participou de algumas das principais crises que marcaram o início da presença brasileira na força de paz das Nações Unidas.   

Quais as principais mudanças trazidas pela participação em forças de paz e missões individuais para o Exército brasileiro?

Não é só o Exército e as Forças Armadas que aprenderam. O próprio governo percebeu que, para utilizar as Forças Armadas como instrumento de projeção externa, ele tinha de aplicar recursos em preparação e equipamentos e isso foi feito. Durante todo o período do Haiti os recursos extraorçamentários que saíram do governo para as Forças Armadas foram muito bons e permitiram fazer uma preparação excelente.

O governo teve consciência de que tinha de fazer isso para ter uma representação boa no exterior. Dentro do Exército, a conscientização foi de treinamento e preparação. Você não pode ir para uma tarefa sem estar preparado. O investimento que já existia no Exército foi muito reforçado assim como a seleção de pessoal. Houve um aprofundamento da cultura da preparação para desempenhar bem e não fazer besteira, dos técnicos aos combatentes.

A logística mudou muito?

Nossa logística era toda baseada em meios militares e ali aprendemos a envolver civis na logística operacional. Por exemplo, se você quiser um equipamento no Haiti, você contrata uma empresa civil e ela vai colocar o material em 30 dias dentro da base e faz o desembaraço alfandegário, faz tudo. O uso de empresas civis na logística foi um avanço.

O senhor esteve em dois tipos de missões: de manutenção da paz e de imposição da paz. Do ponto de vista de regras de engajamento, o que os militares aprenderam?

Você precisa ter regras bem definidas e praticar as regras exaustivamente em treinamento. Do quartel à prática tem uma distância grande. Dizer que você só pode usar a arma com efeito letal quando se sentir em perigo de vida, isso é um princípio. Mas, na prática, que momento é esse na cabeça de cada pessoa, não é fácil. Você só resolve isso com treinamento exaustivo das diversas situações com características práticas para que aquele conceito se fixe e faça o sujeito desenvolver reflexos de acordo com ele.

Qual o papel da liderança do oficial nessa hora?

O papel do oficial em missão de paz é sempre o mesmo. Ele tem de estar junto com a tropa e participar de tudo. Não pode se distanciar do pessoal. Eu nunca servi na tropa brasileira. Meu caso era diferente, como force commander. Até um nível de batalhão você tem de estar junto.

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Como force commander você tem de estar junto porque na ONU tem diversos países e diversas culturas com interesses diferentes. Só a liderança pessoal consegue puxar todo mundo.
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General Carlos Alberto Santos Cruz

Como foi seu primeiro dia no Haiti?

Cheguei em uma sexta-feira, final do dia e vindo de Miami para o Haiti e no outro dia era a solenidade de passagem de função. Logo após a cerimônia, houve uma recepção na casa do embaixador brasileiro. Depois do almoço, eu estava desarrumando a mala e tocou o telefone disseram que tinha havido um tiroteio. Perguntei: Morreu alguém? Não. Então continuei desarrumando a mala. Vai fazer o quê? Você tem de ter calma e tranquilidade.

Quando o senhor chegou estava começando o processo de pacificação de Cité Soleil?

De 2004 a 2005, o trabalho foi em Bel Air. Em 2006, foi em Cité Militaire. Em 2007, era Cité Soleil. O destino me reservou Cité Soleil. Com toda a limpeza feita nas duas comunidades anteriores, as gangues se concentraram em Cité Soleil.

Perdeu alguém em razão do confronto armado?

Não, mas teve gente ferida. teve acidentes, mas não por ação violenta.

Como se faz para controlar as comunicações de uma tropa com aparelhos celulares e câmaras, quando isso é necessário por razões de segurança e sigilo de operações?

É uma coisa incontrolável. Tem de haver a proibição de certas divulgações para não prejudicar o sigilo, mas é muito difícil manter 100%. Tudo pode ser filmado e gravado e transmitido online. O único jeito é fazer tudo certo e corretamente. Isso é bom até, pois não deixa haver deslize e tudo mundo se cuida. Há o problema do sigilo, que, às vezes, é necessário do ponto de vista operacional para preservar a vida de quem está na ação. O sigilo é somente necessidade operacional; fazer o certo é obrigação.

Entre a Haiti e o Congo, o senhor voltou ao Brasil. Pôde verificar o impacto da presença no Haiti em ações do Exército?

O que acho que acrescentou foi a validade do treinamento e da preparação. O elemento tem de ser bem preparado. Ele não pode entrar em certas situações sem ter um mínimo de experiência. Por exemplo, no Haiti, iam só soldados, cabos ou sargentos temporários que tivessem mais de dois anos de trabalho. Não ia o recruta.

Como era a comunicação dos militares com as populações do Haiti e do Congo?

A população toda do Haiti fala o crioulo, que se originou do francês. O francês é falado só pela população de nível melhor. No Congo, há 250 dialetos. Há línguas estruturadas, como o suahili e o zingala. São línguas oficiais do país, sendo o francês uma delas. É fácil falar em francês com uma autoridade, mas quando você vai para o terreno, você precisa de um tradutor, pois as pessoas falam outro idioma.

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É preciso contratar intérpretes, pois as patrulhas têm de sair com intérprete. Sem eles, você não sabe o que está acontecendo. Tem de contratar cem, 200, 400 em uma missão.
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General Carlos Alberto Santos Cruz

O senhor foi procurado pela ONU quando o M-23 ocupou a cidade de Goma?

Sim. Era o Ban Ki-moon o secretário-geral. Em abril, fizeram o contato comigo por telefone. Eles me consultaram. Eu recebi o convite e não gastei mais de cinco segundo para aceitar. Se você é do ramo, você gasta dois, três segundos para decidir. Se você não é do ramo ou tem algum problema gasta mais tempo. Se não, perguntou, tá resolvido. Depois de aceitar, teve trâmite de documentação, que passa pelo Itamaraty, Ministério da Defesa, exame médico e essa burocracia dura 30 dias. Mas a decisão é na hora.

A primeira missão do senhor lá foi organizar a retomada da Goma?

Sim. Era o ponto-chave da coisa, uma cidade de um milhão de habitantes cercada. Foram oito dias de combate. O M-23 recuou 25 quilômetros ao norte de Goma e teve um movimento para frente, onde eles ficaram em dois lugarejos juntos, onde houve novo embate em outubro. E dali eles saíram e foram para a fronteira com Uganda, a cerca de 40 quilômetros dali. Na fronteira,, perderam a última batalha para gente. Os remanescentes quando estavam a sete quilômetros da fronteira entraram na vegetação e foram embora para Uganda. Restaram bandos armados menores.

O senhor esteve sob fogo no Congo?

Sim, em diversas ocasiões. Havia fogo de artilharia, katiushas e outros lançadores múltiplos. Eles tinham artilharia, eles desertaram do exército do Congo e levaram muita munição e equipamento. A brigada da ONU tinha infantaria, artilharia e forças especiais e mecanizadas e helicópteros de ataque. 

Há três anos se discute a participação de tropas brasileiras em missão na República Centro-Africana? Qual sua avaliação? 

Tem de ver o que o país politicamente quer com participação na República Centro-Africana, pois não tem relações comerciais e culturais. A primeira coisa a definir é por que iria. No Haiti era mais fácil enxergar a presença regional. A primeira visão disso tem de ser política, tem de ser o poder político e o Itamaraty. É preciso definir o que se quer politicamente com a participação. 

O que agregou em termos de projeção do poder brasileiro as missões do Haiti e do Congo?

Respeito, profissionalismo do nosso pessoal, respeito pelo País. Enxerga-se o País com Forças Armadas responsáveis e com uma sociedade responsável. Essa imagem positiva traz respeito em todos os foros internacionais.

Confira, agora, a entrevista com o general  João Carlos Vilela Morgero

Morgero comandou o contingente brasileiro no Haiti em 2005, e participou de algumas das principais crises que marcaram o início da presença brasileira na força de paz da ONU.

Qual era a rotina do senhor durante o comando no Haiti?

Não havia uma rotina diária, pois sempre havia ocorrências que exigiam medidas e ações, algumas vezes preventivas, outras vezes dissuasórias. De qualquer modo, realizávamos uma série de atividades para manter a auto estima e elevar o moral da tropa. O planejamento para as operações se baseava em um trabalho minucioso de inteligência realizado pela tropa, e em dados obtidos junto aos demais contingentes e do próprio estado-maior do force commander. Para manter a tropa em condições físicas, morais e psicológicas capaz de enfrentar as dificuldades inerentes à missão, realizávamos treinamento físico, reuniões para atualização dos acontecimentos, com a finalidade de explorar alguma ação importante, destacar acertos e erros; além das reuniões sociais pelo menos uma por semana.

Nosso dia começava as seis da manhã. Porém, eu acordava às 5h15, fazia uma corrida ou caminhada durante esse tempo. As 6h15 todos deveriam estar prontos para o treinamento físico, exceto os militares que estivessem de serviço ou em patrulhas. As 7h15 já estávamos tomando o café da manhã. As 8h, nos reuníamos para repassar as ocorrências do dia e da anterior, e as atividades planejadas para aquele dia. A partir daí, nos deslocávamos para cumprir as diversas missões; patrulhamento, presença nas áreas de atuação, contato com a população, tropas vizinhas de outros países. Por volta das 14h, tínhamos percorrido toda nossa área de atuação e retornávamos à base, quando as ruas estivessem tranquilas, do contrário permanecíamos nas ruas até a solução dos conflitos.

Quais as principais operações que o contingente brasileiro participou sob o seu comando? Qual a mais desafiadora delas?

Foram realizadas várias operações. Na apresentação que fizemos ao encerramento da missão do segundo contingente estão detalhadas todas as operações. A mais desafiadora foi a retomada da casa do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, ocupada por quase sessenta rebeldes, ex-militares armados, que haviam sido expulsos do Exército.

Quais os principais desafios o senhor e sua tropa enfrentavam no dia a dia relacionados à logística, ao clima e à comunicação com a população?

Relacionados a logística, podemos dizer que recebemos do Exército um bom armamento, equipamentos novos, coletes e capacetes balísticos, munição, viaturas mecanizadas Urutu, viaturas sobre rodas (caminhões, viaturas médias) em número suficiente para cumprir as diversas missões. Além disso, recebemos algumas viaturas tipo Land Rover das Nações Unidas. O clima do período do segundo contingente era mais quente, porem não nos trazia grandes transtornos. Isso porque, em Porto Príncipe sempre soprava uma brisa marítima que amenizava a temperatura. O equipamento que utilizávamos era bastante pesado (colete e capacete balístico, colete tático individual, onde levávamos, pistola carregada, dois carregadores e cantil, além do fuzil parafal). A segurança dos militares sempre foi prioridade máxima.

Como era a relação com a população local?

O contato com a população era constante e foi melhorando a cada dia. Em uma das nossas primeiras operações, eu me recordo de levarmos para o centro de Bel Air, assistência médica e odontológica, distribuição de medicamentos, cestas básicas, corte de cabelo, apresentação de vídeos das Forças Armadas, distribuição de folders e revistas, figurinhas da seleção brasileira. Aliás, uma das mais solicitadas era de Ronaldo e de Ronaldinho Gaúcho. Foi tão grande o sucesso com a população que passamos a realizar em todas as operações.

Com evoluiu a relação com a polícia haitiana?

Demorou um pouco, pois percebemos que eles tinham um grande ressentimento em relação à população que apoiava o ex-presidente. Depois de dois meses, já fazíamos operações com eles, a confiança foi sendo conquistada dia a dia. Aos poucos, a polícia do Haiti foi percebendo que a nossa missão era ajudá-los a reerguer o país do caos que se encontrava.

Como era a relação da tropa brasileira com outros contingentes da ONU no Haiti. Algum contingente em específico demonstrava maior ou melhor relacionamento com o brasileiro?

O relacionamento com os outros contingentes era excelente, sempre buscávamos interação trocando informações, recebendo-os na base brasileira para confraternizações. Um fator que facilitava muito esse relacionamento era o force commander da Minustah ser brasileiro. Creio que o relacionamento mais difícil foi com o contingente jordaniano, mas aos poucos fomos conseguindo ganhar a confiança deles e executarmos ações juntos.

Qual a importância da presença brasileira no Haiti para a formação dos oficiais brasileiros, desde os comandantes de pequenas frações de tropa até para os generais que passaram pelo país?

Com certeza, a participação dos militares brasileiros no Haiti, trouxe um amadurecimento profissional desde o soldado até o general, principalmente para os militares mais novos. A participação nessa missão real nos trouxe experiência e fortaleceu o espírito de corpo, colaboração, companheirismo, autoestima e responsabilidade, atributos que sempre cultuamos em nossa profissão, mas que foram ressaltados em todas as operações de que participávamos. Considero que esses aspectos contribuíram para uma maior aproximação entre os militares de todos os postos e graduações, criando um excelente espírito de corpo.

Qual o impacto da presença no Haiti nos procedimentos operacionais e regras de engajamento da tropa adotados pelo Exército? Houve alteração de ações em operações de Garantia de Lei e Ordem que o senhor se recorde após seu retorno ao Brasil?

Houve uma grande evolução e aperfeiçoamento dos procedimentos operacionais, após o emprego no Haiti. Nesse período o Exército já tinha em sua constituição uma Organização Militar, denominado Centro de Avaliação e Adestramento do Exército, que fazia a avaliação anual das organizações militares operacionais, onde eram verificados os padrões de adestramento, assim como as regras de engajamento. Isso eu pude comprovar quando comandei a segunda Divisão de Exército e, posteriormente, o Comando Militar do Sudeste.

A cada emprego operacional fazemos uma APA (Análise pós Ação), seguindo um protocolo do nosso Sistema de Lições Aprendidas, por meio do qual todos os erros e acertos percebidos durante uma determinada operação ou exercício, são discutidos e analisados, de forma a se estabelecer um padrão adequado de conduta para a tropa. Com certeza, muitos dos ensinamentos colhidos nas operações no Haiti servem de base, até os dias atuais nas Operações de Garantia da Lei e da Ordem, com os devidos aperfeiçoamentos necessários.

Pode-se dizer que o crime organizado haitiano era a principal força adversa enfrentada pela Minustah?

No período de atuação do segundo contingente, não havia um crime organizado, mas, sim, atuação de gangues, uma polícia haitiana despreparada e os ex-militares, grupo de rebeldes que com a extinção das Forças Armadas, ficaram desempregados, sem comando. Os ex-militares que foram presos, por ocasião da retomada da casa do ex-presidente Aristides, nos deram muito trabalho, devido à morosidade do governo em solucionar a situação dos mesmos.

O contingente brasileiro sob seu comando sofreu baixas?

Felizmente, não sofremos nenhuma baixa de gravidade. Foram muitos poucos, sem grandes gravidades, em razão dos enfrentamentos que tivemos.

O senhor, depois que retornou ao Brasil, passou pela 2.ª DE e pelo CMSE. Em ambos os comandos, havia unidades que tinham ou tiveram contingentes deslocados para o Haiti. Como o senhor percebia o impacto da experiência haitiana nos militares que voltavam da ilha?

Os militares que voltavam do Haiti traziam uma experiência que poderia dizer de veteranos. No período que exerci o comando da 2.ª Divisão de Exército, participamos de duas grandes operações: a visita do presidente dos EUA e a visita do papa Bento XVI, em ambas operações a participação dos militares que passaram pelo Haiti foi um fator determinante para o sucesso.

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Era nítido o grau de adestramento e autoconfiança na atuação dos militares que estiveram no Haiti. Essa experiência passava do mais antigo para os mais novos. Eu mesmo apliquei muito da experiência obtida naquela missão.
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General João Carlos Vilela Mogero

O senhor se recorda como foi o seu primeiro dia no Haiti?

O meu primeiro dia foi longo demais. Depois da solenidade de assunção do comando, na parte da manhã, após levar as autoridades para o aeroporto de Porto Príncipe, inclusive o comandante militar do Sudeste, general Sérgio Pereira Mariano Cordeiro, o meu antecessor e grande amigo general Américo Salvador de Oliveira, comandante do primeiro contingente, quando retornava do aeroporto para a Base da Brigada, fomos surpreendidos com a invasão da casa do ex-presidente Aristides pelos ex-militares, considerados rebeldes pelo governo haitiano. Foram dois dias e duas noites de intensas negociações, inclusive com a presença do general Augusto Heleno, force commander da missão.

A ordem que recebemos foi de retomar a casa, confiscar todas as armas e conduzir os militares presos à magistratura de polícia. Essa, na minha opinião, foi uma das operações mais tensas e demoradas, que exigiu muita serenidade, paciência e bom senso, pois qualquer deslize poderia ter resultado numa grande tragédia. O bom senso, o treinamento da tropa e a ação de comando dos militares em função de comandantes prevaleceu e conseguimos cumprir a missão sem disparar um tiro sequer. Essa operação foi determinante para isolar o segmento dos ex-militares.

E seu último dia, como foi?

O último dia, quando acabei de passar o comando para o coronel Adilson Mangiavacchi foi uma sensação enorme do dever cumprido e a missão concluída com êxito. A substituição era feita por escalões. Eu e meu estado-maior fomos os últimos do segundo contingente a deixar a ilha. Se não me falha a memória, isso ocorreu em 15 de junho de 2005.

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Contra-almirantes narram participação do Brasil em forças de paz: 'Sem descanso'

Militares que comandaram força-tarefa marítima da Unifil, missão de paz no Líbano, relatam ganhos para a tropa e exaltam papel de projeção de força do Brasil

Marcelo Godoy e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2020 | 14h00

Eduardo Augusto Wieland, Sérgio Renato Berna Salgueirinho, Carlos Alberto Santos Cruz e João Carlos Vilela Morgero têm um comum o fato de terem comandado brasileiros em ações de paz no exterior.

Os contra-almirantes Wieland e Salgueirinho foram os dois últimos brasileiros a comandar uma força de paz com tropas brasileiras no exterior: chefiaram a Unifil, no Líbano, entre 2019 e 2020.

Já Santos Cruz foi o chefe da Minustah, a força de paz no Haiti, entre 2007 e 2009. Depois chegou à força de imposição da paz na República Democrática do Congo, em 2013. E Vilela foi o comandante do contingente brasileiro na Minustah em 2005 (veja mais aqui). 

A primeira entrevista é com Sérgio Renato Berna Salgueirinho, que deve passar o comando da Unifil, a força de paz da ONU no Líbano, em janeiro. O Brasil deixou de manter um contingente na Unifil, última tropa brasileira a atuar em forças de paz das Nações Unidas. 

Qual a situação enfrentada pelos militares que compunham a Unifil?

Tanto os tripulantes da fragata Independência, que já concluiu sua participação na missão, quanto os componentes do estado-maior da força-tarefa marítima da Unifil seguem em segurança, cumprindo suas missões e satisfazendo os requisitos individuais para integrarem as Forças de Paz da Unifil.

Quais os principais fatores que desestabilizavam a região?

A respeito da FTM-Unifil, dentre suas tarefas de vigilância marítima e as operações de interdição marítima está a de evitar a entrada de armas ilegais e material correlato no território libanês, vindos pelo mar. Para isso, os navios realizam patrulhas de forma ininterrupta na região do mar Mediterrâneo, adjacente ao território do Líbano, o que tem contribuído para a estabilidade e a paz nessa região. Não é tarefa da FTM-Unifil a identificação de grupos armados ou criminosos.

Qual o treinamento e como era a logística das forças da ONU empregadas na missão? Como foi feita a seleção do pessoal que serviu na missão?

A ONU exige para todos os militares que serão desdobrados em uma missão de paz uma cuidadosa preparação. Foram realizados cursos preparatórios, ainda no Brasil, devidamente supervisionados e homologados pela ONU. 

Quantos eram os militares brasileiros na época em que o serviu na missão? Havia integrantes da Marinha, da FAB e do Exército na missão?

Há participação de militares da Marinha do Brasil e do Exército na Unifil. De fevereiro de 2020 até os dias atuais, tivemos a presença de cerca de 220 militares da Marinha e sete militares do Exército participando, simultaneamente, da Unifil. Em 2 de dezembro, com o encerramento da participação da fragata Independência na missão, o atual contingente brasileiro na Unifil passou a ser de 21 militares da Marinha.

Como era a relação com os militares de outros países? Contingentes de quantos países faziam parte da missão? Quais as nacionalidades envolvidas?

A Unifil possui uma força de trabalho de cerca de 10 mil militares de 45 diferentes nacionalidades, distribuídos em toda a área de operações, situada no sul do Líbano, e na área marítima de operações, que cobre uma porção marítima em frente à costa libanesa. Os militares do contingente brasileiro sempre foram muito bem recebidos e tratados pelos demais membros dos países contribuintes de tropas em um ambiente de respeito mútuo e profissionalismo. Mais especificamente na força-tarefa marítima da Unifil, contamos com a participação de militares e meios da Alemanha, Bangladesh, Grécia, Indonésia e Turquia, além do Brasil.

Como a missão contribuiu para o aperfeiçoamento e operacionalidade de nossas Forças Armadas?

A FTM-Unifil, criada em outubro de 2006, é o primeiro e único componente naval de uma missão de paz da ONU, e o Brasil foi o primeiro país não integrante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a ter a oportunidade de liderar esta força-tarefa.

Em 24 de fevereiro de 2011, o contra-almirante brasileiro Luiz Henrique Caroli assumiu o comando da FTM-Unifil e, assim, o Brasil passou a pertencer a um seleto grupo de países que liderou esta força-tarefa desde a sua criação: a Itália, a Alemanha, a França e a Bélgica. Desde o início da participação brasileira na missão, seis navios da Marinha foram enviados em 17 comissões distintas para comporem a FTM-Unifil, envolvendo aproximadamente 3.600 militares.

É possível destacar que a longeva participação do Brasil na liderança deste comando de setor da Unifil permitiu à FTM-Unifil alcançar uma desejável estabilidade e continuidade nos seus processos internos, tal como acontece na liderança dos demais setores terrestres da missão. Ao longo desses quase dez anos, a Marinha também ganhou larga experiência em operar continuamente em uma missão real, em um ambiente multinacional, distante 5.500 milhas náuticas do seu território, e em uma região com um ambiente operacional e geoestratégico de alta complexidade. 

De que forma a presença na missão da ONU era um fator de projeção do poder nacional?

A presença do Brasil na Unifil esteve alinhada à Estratégia Nacional de Defesa, sendo possível ampliar a sua influência e visibilidade no contexto mundial das nações, ao reafirmar o compromisso do Brasil com a defesa da paz entre os povos. Permitiu à Marinha, ainda, demonstrar suas capacidades profissionais, de liderança e de coordenação perante os demais contingentes de outras nações e, também, incorporar novos conhecimentos operacionais e táticos.

Destacam-se os desafios: logístico, de manter um navio operando intensiva e continuamente por mais de oito meses, a cerca de 5.500 milhas náuticas de distância de sua sede; a experiência operativa proporcionada pela atuação em uma força multinacional; a visibilidade e a projeção da imagem do Brasil no cenário internacional; o prestígio e o respeito pelo exercício do comando da FTM-Unifil; a possibilidade de contribuição direta à manutenção da paz mundial, a contribuição à segurança e ao desenvolvimento de um país amigo, o Líbano; e a contribuição direta com a capacitação do pessoal da Marinha do Líbano para o desempenho das atividades voltadas à segurança marítima de seu mar territorial. 

Quais os principais desafios enfrentados pela missão em que o senhor esteve presente? Como era feito o controle de armas ?

Muitos foram os desafios enfrentados em 2020, dentre eles os efeitos e as interferências provocados pela pandemia da covid-19, tanto nas forças da Unifil, quanto nas forças da Marinha do Líbano; os efeitos no cumprimento da missão provocados pela atual crise econômica pela qual o Líbano atravessa; os efeitos do incidente da explosão no porto de Beirute; e a adequada preparação para a passagem do comando da Força-Tarefa Marítima da Unifil. Esses desafios, ao mesmo tempo em que exigiram ampla análise das situações impostas, para o correto processo de tomada de decisões e de assessoria ao comando e às demais lideranças da Unifil, foram adequadamente superados com o competente e dedicado trabalho desenvolvido pelo Estado-Maior multinacional da FTM-Unifil.

Confira, agora, a entrevista com o contra-almirante Eduardo Wieland

O contra-almirante Eduardo Wieland atuou no Haiti e comandou a força-tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FTM-UNIFIL). Um brasileiro comandou a força no país asiático por nove anos, de 2011 a 2020. 

Qual o impacto da missão no Líbano para a formação dos marinheiros? 

O grande ganho profissional é oriundo da atuação do navio em uma Força Multinacional regida por normas-procedimentos específicos da ONU em uma região de cultura riquíssima, com características físicas diferentes das encontradas no Brasil. Os militares que compõem a tripulação dos navios são empregados em uma operação real, em uma sensível região do globo terrestre, onde diversas culturas se superpõem e que empresta uma alta visibilidade aos participantes da Missão de Paz.

De que forma essa participação contribui para o aprimoramento de procedimentos da Marinha?

Temos a oportunidade de entrar em contato com militares das mais diversas partes do globo, trocarmos experiências, aperfeiçoarmos procedimentos e forjarmos laços de amizade. São ganhos intangíveis no presente, mas que no futuro podem representar um valor imensurável. Por cerca de oito meses, passamos também a viver a “vida de bordo”, nos familiarizando com os detalhes do navio, as atividades técnicas, de manutenção e operacionais. 

O militar, ao retornar de uma missão desse porte, ganha um inestimável cabedal de conhecimento técnico-profissional que refletirá positivamente na Marinha do Brasil. Os ganhos operacionais são naturalmente elevados. Exercitamos aqui a interoperabilidade entre Marinhas, a comunicação em língua estrangeira, além de executarmos uma operação de interdição marítima. As dificuldades e oportunidades aqui identificadas servem de subsídios para o aprimoramento de nossa doutrina no Brasil. 

E a importância da missão para o treinamento da esquadra brasileira?

A FTM cumpre diversas tarefas, entre as quais conduzir operações de interdição marítima, treinar a Marinha do Líbano, monitorar a presença naval externa (navios, submarinos e aeronaves) e estar pronta a realizar operações de socorro em coordenação com a Marinha libanesa.

Um dos chamados pilares da missão é a condução de operações de interdição marítima, que podem ser definidas como o conjunto de esforços para monitorar, interrogar, interceptar e, se necessário, abordar tráfego marítimo em uma área definida, para verificar, redirecionar, apreender suas cargas ou apresar embarcações, na aplicação de sanções, como aquelas em apoio às resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e/ou para prevenir o transporte de itens restritos.

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Realizar essa atividade em uma área de operações distantes e com características peculiares, sob a égide da ONU, é o grande aprendizado para a esquadra e para a Marinha do Brasil. 
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Contra-almirante Eduardo Wieland

Quais os impactos dessas experiências na vida cotidiana? 

A distância de nossos laços familiares, de nossa casa e de nossos hábitos diários, atrelada a uma rotina de trabalho diuturna, acabam por forjar a maturidade psicológica do militar e até de sua família, fundamental para habilitá-lo a qualquer tipo de sacrifício que a nação poderá lhe impor. 

Como é a rotina dos marinheiros na embarcação?

Para a execução da Missão Marítima no Líbano, temos a meta de manter ao menos três navios no Mar do Líbano continuamente, durante todo o ano. Para tal, nossos marinheiros são submetidos a uma escala de patrulha com paradas logísticas e eventualmente de descanso. A permanência no mar é, em média, 60% do período. No porto, cumpre-se ainda as atividades de segurança do navio, logística, manutenção e limpeza e organização. É uma intensa atividade de trabalho. O navio também atua como um verdadeiro ‘embaixador’ em Beirute, mostrando a bandeira e sendo visitado por autoridades, convidados e escolas. Todas essas atividades exigem preparação e esmero acurado para bem representar o país no exterior. 

Costumamos falar que não existe dia de descanso semanal específico. Chamamos de ‘sábado-feira’, ‘domingo-feira’, nos referindo aos dias que normalmente estaríamos em descanso, mas que normalmente cumprimos as atividades previstas. O descanso na ONU só é garantido nos períodos de saída regulamentar. Quando possível, buscamos realizar atividades desportivas e culturais para a tripulação, fundamentais para redução da fadiga do nosso pessoal.

Pode-se dizer que a Unifil é a missão mais importante no exterior cumprida pela Marinha desde a 2ª Guerra Mundial?

Ao todo, o Brasil já participou de aproximadamente 50 missões das Nações Unidas, tendo enviado cerca de 50 mil militares ao exterior. Na maioria delas a Marinha se fez representar com a atuação de mantenedores da paz do Corpo de Fuzileiros Navais. A participação da Marinha na FTM-UNIFIL, a primeira e até o momento única força naval desse tipo sob a égide das Nações Unidas, é sem dúvida, de elevada importância.

Porém, ainda é cedo para se afirmar ser a mais importante missão no exterior cumprida pela Marinha desde a 2ª Guerra Mundial. Eu não posso dizer isso. Mas posso dar alguns indicadores de importância.

Quais seriam esses indicadores? 

Desde 2011, um almirante brasileiro está no comando da FTM. Há mais de oito anos, a Marinha do Brasil mantém um navio e uma aeronave orgânica na costa libanesa com o objetivo de impedir a entrada ilegal de armas ilegais e materiais correlatos naquele país, além de contribuir para o treinamento da Marinha libanesa, de modo que possa conduzir suas atribuições de forma autônoma. É inegável que o cumprimento dessa missão exige um esforço logístico e de aprestamento elevado.

Outro fator é a própria região em que se insere. Teatro de diversas disputas no passado, é hoje um ponto de contato de diferentes civilizações e religiões e é por onde circula significativo volume de comércio, dentre os quais, o sensível comércio de óleo e gás, e pessoas. Conseguir manter certo grau de estabilidade no Líbano melhora a qualidade de vida de seus habitantes e também garante certo grau de estabilidade regional, que traz reflexo positivo para toda humanidade, inclusive no cotidiano brasileiro, promovendo o papel dos militares entre a sociedade e no atendimento a nossos princípios constitucionais da “defesa da paz”, a “solução  pacífica dos conflitos” e a “cooperação entre os povos para o progresso da humanidade”, conforme estabelecido no art. 4º da Carta Magna. 

Quantos dias de patrulhamento no mar e quantos dias em terra passam os militares na missão?

Em média, durante os seis meses, o navio fica cerca de 120 dias no mar. Quando atracado, os militares cumprem uma escala de serviço, além de rotinas com expediente e manutenção. Como uma ideia geral, os militares saem de bordo uma média de sete dias por mês, quando há segurança e estabilidade em terra para o licenciamento.

Qual o tempo de permanência de cada militar na missão?

O militar permanece na missão durante seis meses, podendo, em alguns casos e a pedido pessoal, estender este período por mais seis meses. Se considerar o período de deslocamento do navio para a área de operações e seu retorno, o período de afastamento da tripulação chega a oito meses.

Quantas abordagens ou fiscalização de embarcações foram feitas pela Unifil nos últimos 5 anos?

Na fase de entendimentos da missão, o governo libanês se reservou o direito de sua soberania, ficando responsável pelas inspeções dos navios. As inspeções podem ser realizadas com os navios no mar ou atracados nos portos libaneses. Os navios da MTF ficam disponíveis para a abordagem quando solicitados pelo governo libanês. Nossa tarefa principal seria identificar comportamentos incomuns, ou aproximações inesperadas de navios e auxiliar o governo sobre qual navio inspecionar.

Evidentemente que a presença de uma força marítima continuamente monitorando a área marítima interrogando todas as embarcações que por aqui passam, confirmando as que se aproximam com os controles previamente informados, já garante por si só uma estabilidade na área. Uma tentativa de atividade ilícita ficaria exposta ao nosso controle.

Nos últimos cinco anos, foram interrogados mais de 35.000 navios e foram feitas mais de 10.000 inspeções pela Marinha libanesa. A última grande apreensão de armamento foi feita em 2012, quando foi descoberto um container com 150 toneladas de armas com destinação para rebeldes na Síria. Em 2016, o contingente brasileiro também contribui com o governo libanês na imposição da lei nas suas águas jurisdicionais, como evidenciado pelo episódio de apreensão de drogas ilícitas, com a participação da Fragata Independência.

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