Gastos da Abin na Satiagraha chegaram a R$ 800 mil, diz agente

Agência contesta e diz que gastos não chegaram a R$ 400 mil; à CPI, Kluwe nega ter vazado grampo do STF

Ana Paula Scinocca, de O Estado de S. Paulo,

25 de novembro de 2008 | 19h20

O presidente da Associação de Servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Asbin), Nery Kluwe, afirmou nesta terça-feira, 25, ser "voz corrente" na Abin que o gasto com arapongas na Operação Satiagraha chegou a R$ 800 mil. O valor é quase o dobro do gasto divulgado pela própria Polícia Federal (PF) que, responsável pelo inquérito, disse que as despesas totais com a operação foram de R$ 466 mil. "Ouvi dizer que as despesas com a Satiagraha foram de 800 mil. Isso é voz corrente na agência", afirmou, em depoimento à CPI dos Grampos, na Câmara.   Veja também: Entenda o escândalo que derrubou a cúpula da Abin  As fases da Operação Satiagraha: o que mudou e o que fica igual Gravação mostra clima tenso entre delegados da Satiagraha Polícia Federal pretende pedir prisão de Dantas novamente As prisões de Daniel Dantas  Os alvos da Operação Satiagraha    Kluwe não deu detalhes sobre os gastos. "Foi com servidores, diárias. Mas não sou eu quem tem que esclarecer isso. Procurem as autoridades competentes", disse, depois, aos jornalistas. Em depoimento também à CPI, em agosto, o diretor afastado da Abin, Paulo Lacerda, disse que a participação de integrantes da agência ocorreu "informalmente". Por meio de sua assessoria de imprensa, a Abin negou que os gastos com a Satiagraha foram de R$ 800 mil. "Todos os gastos, incluindo compartilhados com outras operações da Abin são de R$ 381 mil", informou a agência.   Ao depor por duas horas em sessão esvaziada - apenas quatro deputados estavam presentes - nem mesmo o relator da CPI, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), apareceu -, Kluwe afirmou que a participação de arapongas da Abin na Satiagraha começou com "apoio natural", ganhando força depois. "Eu suponho que começou com apoio natural, verificação de determinados dados. A situação foi crescendo e achou-se natural."   Segundo o presidente da Asbin, a cúpula da agência soube da participação de agentes na Satiagraha uma vez que "pelo menos quatro homens analisaram (da Abin) e-mails sigilosos nas investigações e relataram o seu conteúdo a Paulo Lacerda". Kluwe foi além dizendo "nunca ter visto participação tão ampla" de homens da agência em uma operação da PF, como na que resultou na prisão temporária do banqueiro Daniel Dantas.   "Houve quebra de comando inaceitável. Os chefes não assumem (a participação da Abin). Alguns chefes não abriram à integralidade do conhecimento que detinham. Isso causou constrangimento para todos nós", afirmou.   Negativa   O presidente da Asbin foi taxativo ao negar que tenha sido responsável pelo vazamento do grampo entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). "Repilo e rechaço a maledicente acusação de minha participação no episódio", afirmou, logo em suas primeiras declarações à CPI. "Para a Abin não há interesse nenhum em grampear um ministro, uma autoridade do governo. Para nós é mais vantajoso recrutar uma secretária como fonte humana do que grampear uma autoridade", disse.   A informação de que Kluwe teria sido responsável pelo vazamento do grampo entre Gilmar e Demóstenes é atribuída ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Jorge Félix. O ministro, porém, nega. Em reunião na Abin, Félix, segundo relato de participantes, teria mencionado o nome de Kluwe, o que o próprio presidente da Asbin descartou. "Só faltou dizer o meu nome. A insinuação é mais terrível", disse, acrescentando que tomará medidas "judiciais cabíveis" contra o ministro. "Nós divergimos no âmbito das idéias e dos posicionamentos. Já tivemos alguns embates e eu vejo com naturalidade em nossa luta política", afirmou, ao mencionar sua relação com o chefe do GSI.   Marido traído   Na CPI, Kluwe negou ainda que a Abin tenha equipamentos que possam realizar escutas. Levantamento do Exército feito em 15 aparelhos da agência, porém, mostra que pelo menos sete deles podem ser usados para grampos telefônicos, conforme o Estado revelou no domingo. Ele ainda negou a interferência do Planalto na Abin e disse acreditar que Félix não tinha conhecimento do engajamento da Abin na Satiagraha. "A minha convicção pessoal é que não (que Félix não sabia). Se ele soubesse, teria tido mais desembaraço e pujança na defesa dos agentes. Na primeira vez que compareceu no Congresso, ele pareceria marido traído".   Kluwe também apontou haver "promiscuidade" entre Abin e a PF. Citou como exemplo o episódio da quebra de sigilo, sem autorização judicial, de um grupo de e-mails de servidores da agência. A quebra do sigilo teria sido promovida pela PF com o apoio da cúpula da agência, irritada com as críticas de agentes da Abin à condução da crise na instituição.   "Como os companheiros expressavam repulsa em relação a determinadas atitudes da diretoria da Abin, iniciou-se a investigação, quebrou-se o sigilo sem autorização judicial mediante apoio de companheiros da Polícia Federal. Esse foi um precedente grave, uma vez que o sigilo eletrônico de dados para ser quebrado, a Constituição garante que a quebra tem que ser precedida de autorização judicial", afirmou.   Apesar da colaboração entre PF e Abin na Satiagraha , Kluwe disse que o ambiente entre as duas instituições é de conflito, E citou trechos de um samba para exemplificar tal relação. "Nosso amor é tão bonito, ele finge que me ama e eu finjo que acredito."  

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