Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Garotinho inicia greve de fome em presídio no Rio

'Minha atitude é um  grito de desespero contra a injustiça que venho sofrendo', escreveu o ex-governador do Rio

Constança Rezende e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2017 | 17h28

RIO - Preso há 25 dias sob acusação de chefiar uma organização criminosa que extorquia dinheiro de empresários e de receber suborno da JBS, o ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PR) começou na manhã desta sexta-feira, 15, uma greve de fome dentro do presídio de Bangu 8. Em carta endereçada à direção do presídio, informou que permanecerá em “jejum por tempo indeterminado” por ter sido preso injustamente e por estar no “limite do sofrimento”. Garotinho fez o mesmo em 2006, quando era pré-candidato à Presidência da República e ficou onze dias sem comer.

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No comunicado, escrito à mão em duas folhas de papel, Garotinho disse que além de não comer, não receberá visitas, nem da família nem de advogados. Tampouco participará do banho de sol a que os internos têm direito. Só retornará à rotina quando “alguma autoridade do Conselho Nacional de Justiça, de preferência o corregedor”, escutar seu “clamor”. Ele só irá ingerir água, diz na carta, que ressalva que ele não espera obter “privilégios”.

RELEMBRE: Garotinho já fez greve de fome em 2006

“Minha atitude é um  grito de desespero contra a injustiça que venho sofrendo, abalando fortemente minha família, como visto durante a visita da última 4ª feira. Rosinha está com síndrome do pânico e meus filhos estão traumatizados.

Tenho sido covardemente perseguido por juízes e promotores da cidade de Campos, que agem para proteger um desembargador que denunciei junto com a quadrilha do ex-governador Sergio Cabral. Em um ano, fui preso três vezes pela Justiça Eleitoral de Campos, por crimes que não cometi”, escreveu.

Ele ser referia à mulher, a ex-governadora Rosinha Garotinho (PR), e à divulgação de informações, em seu blog, sobre o grupo de aliados de Cabral. O ex-governador é acusado de ter chefiado um esquema de corrupção no governo com movimentação de R$ 1 bilhão. Cabral está preso há mais de um ano.

“É uma decisão pessoal, pacífica”, explicou Garotinho no texto. “Sei das consequências para minha saúde. Mas não há horizonte, somente mais covardia, humilhação e perseguição.”

O advogado do ex-governador, Carlos Azeredo, confirmou que o cliente está “irresignado”. “Ele é denunciante de uma série de fatos e foi pego de surpresa por uma decisão sobre a doação da JBS contabilizada pelo partido”, declarou Azeredo. O advogado falou ao Estado no meio da tarde, sem ter conversado com seu cliente.

Garotinho reclama na carta do atraso na confecção do retrato falado de um homem que ele acusa de agressão. O fato teria ocorrido dentro de sua cela em outro presídio, a Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na zona norte, para o qual foi levado dia 22 de novembro. Garotinho diz ter sido ferido no pé e joelho direitos por um homem que usava um porrete.

Agentes penitenciários disseram na ocasião que ele se autolesionou. A suposta agressão ainda está sendo investigada.

O ex-governador foi preso por ordem da 98ª Zona Eleitoral, de Campos, município do Norte Fluminense onde mora. É acusado de receber uma doação simulada ilegal de R$ 3 milhões da JBS para sua campanha eleitoral ao governo do Estado em 2014. Rosinha foi presa pelos mesmas acusações, mas foi solta pela Justiça uma semana depois, com uso de tornozeleira eletrônica. Ao casal são atribuídos crimes como corrupção, participação em organização criminosa e falsidade na prestação de contas eleitorais. Ambos negam as acusações.

Denúncia do Ministério Público Eleitoral afirma que a JBS fez doação ilegal de R$ 3 milhões por meio de contrato com uma empresa indicada por Garotinho para financiar sua campanha em 2014, quando foi derrotado por Luiz Fernando Pezão (PMDB). O dinheiro não teria sido declarado em sua prestação de contas. O casal Garotinho nega as acusações.

Em abril de 2006, o ex-governador lançou mão de uma greve de fome após denúncias de irregularidades em sua pré-campanha à Presidência da República. Disse estar reagindo, “em defesa de sua honra”, a reportagens que diziam que parte do dinheiro de sua campanha vinha de ONGs ligadas ao então governo de sua mulher, via empresas de fachada. Foram onze dias de alegado jejum, período em que disse ter perdido 6,7 quilos e permaneceu na sede fluminense do PMDB, seu partido à época.

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