Ulisses Dumas/Estadão
Ulisses Dumas/Estadão

Gabrielli afirma que culpar só sua gestão é 'estratégia suicida'

Petista defende período em que comandou a Petrobrás e diz que empresa não pode viver ‘sob regime policial’

Entrevista com

José Sergio Gabrielli

Ricardo Galhardo, enviado especial a Salvador, O Estado de S. Paulo

20 de janeiro de 2015 | 22h02

Salvador - Presidente da Petrobrás entre 2005 e 2012, o economista baiano José Sergio Gabrielli chefiou alguns protagonistas do escândalo investigado pela Lava Jato. Apesar de não figurar formalmente entre os investigados da operação, ele vem sendo questionado pela própria estatal sobre sua participação em episódios suspeitos, como a construção da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco. Também é alvo do Tribunal de Contas da União, que o coloca entre os responsáveis pelos prejuízos na compra da refinaria de Pasadena, nos EUA - em sua defesa entregue ao TCU, ele pede que a presidente Dilma, que era presidente do Conselho de Administração da Petrobrás na época da compra, receba o mesmo tratamento que ele. 

Em entrevista ao Estado concedida nesta terça-feira, 20, na sede do PT da Bahia, Gabrielli negou que haja uma tentativa da atual direção da Petrobrás de responsabilizar sua gestão, mas disse que se houvesse seria uma “estratégia suicida”. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Estado - Dilma falou no discurso de posse que a Petrobrás é alvo de predadores internos. Quem são?

Gabrielli: A Petrobrás tem controles muito sólidos mas é feita por seres humanos. Tem gente que quer tirar proveito pessoal mas não se pode manter a empresa sob um regime policial, desconfiando de tudo, tem que manter a empresa funcionando regularmente e aferindo se os procedimentos previstos estão sendo cumpridos.

Estado - Mas não ficou claro que esses procedimentos não foram suficientes diante de tanta denúncia?

Gabrielli: Olhe o que são as denúncias. Não são referentes a pagamentos diretos da Petrobrás. São de fornecedores para doleiros. 

Estado - Mas a Petrobrás pagava os fornecedores. Era uma triangulação.

Gabrielli: Sim, mas na avaliação dos critérios internos da Petrobrás tudo estava sendo seguido. Os preços estavam dentro do esperado, as margens de lucro aceitas e os alvos de denúncias eram feitos fora da empresa que tem um volume muito grande. Só tem a confissão de um diretor. Não se pode generalizar dessa forma. O que tem é a confissão de alguns poucos. Por enquanto só tem a confissão de um diretor, o Paulo Roberto, e de um gerente, o Pedro Barusco. Só. A empresa tem 80 mil funcionários.

Estado - Em nenhum momento o senhor desconfiou deles?

Gabrielli: Como eu poderia desconfiar se as coisas eram feitas fora da Petrobrás, entre fornecedor do fornecedor e um doleiro de fora. Como é que você reconhece? 

Estado - A Petrobrás pediu que Paulo Roberto Costa diga qual foi a sua participação em Abreu e Lima. É uma estratégia deliberada de colocar a culpa na gestão anterior?

Gabrielli: Não acredito. Seria uma estratégia suicida, pois na verdade as questões que estão sendo implementadas hoje foram decididas anos atrás. A gestação de um projeto na área de petróleo leva anos. Além disso, existem mais de 120 inquéritos averiguando Abreu e Lima e não sou citado em nenhum.

Estado - O doleiro Alberto Youssef afirmou em delação premiada que o ex-presidente Lula deu uma ordem ao senhor para resolver uma pendência relativa a pagamento para uma agência de publicidade suspeita de integrar o esquema investigado pela Operação Lava Jato. Isso aconteceu?

Gabrielli: É absolutamente falso. Nunca tive essa conversa com Lula, Nunca tive contato com essa empresa. Isso é uma ficção. 

Estado - A ex-gerente de Abastecimento Venina Fonseca disse que em 2008 alertou o senhor sobre pagamentos por serviços de comunicação não prestados por parte da diretoria de Abastecimento, comandada por Paulo Roberto Costa. Isso não era um indício?

Gabrielli: A mim ela não alertou abertamente, mas o caso ao qual ela se refere envolve um gerente de comunicação da área de abastecimento (Geovanne de Morais), que é a área sob comando dela. Eu abri uma comissão de inquérito que investigou o caso e constatou que houve irregularidades. Esse rapaz foi demitido da Petrobrás em 2009 e além disso informamos Ministério Público e TCU. Fiz tudo o que tinha que ser feito para apurar e punir.

Estado - Dilma, como presidente do Conselho de Administração na época da compra da refinaria de Pasadena, deveria estar com os bens bloqueados, assim como estão os integrantes da Diretoria?

Gabrielli: O argumento da minha defesa é que somente o conselho tem competência de decidir compra de empresas e a decisão do conselho foi correta. 

Estado - Em sua defesa ao TCU o senhor nega que a compra de Pasadena tenha dado prejuízo à Petrobrás enquanto o tribunal aponta perdas de US$ 792 milhões. Por que essa diferença?

Gabrielli: O parecer do TCU é politicamente motivado. Não é do TCU, é do ministro José Jorge. Os técnicos do TCU no primeiro parecer concluem que não há problemas com o preço nem os contratos de Pasadena. Depois o ministro solicitou outro a um assessor que em 30 dias, sem nem sequer ir à Petrobrás, criou um parecer que a meu ver é uma ficção equivocada e politicamente motivada. 

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