Reprodução Prefeitura Salinópolis
Reprodução Prefeitura Salinópolis

Gabinete paralelo: Ministro admite que sabia de foto sua em Bíblia patrocinada por pastor

Milton Ribeiro, do MEC, afirma que soube em outubro do ano passado que livros foram distribuídos em eventos não religiosos e desautorizou aliado a fazer as impressões

Breno Pires, Julia Affonso e Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 15h01

BRASÍLIA - O ministro da Educação, Milton Ribeiro, admitiu nesta segunda-feira, 28, que sabia da utilização de sua imagem em Bíblias do pastor Gilmar Santos, líder da igreja Cristo para Todos. Como o Estadão mostrou hoje, exemplares do livro com fotografias de Ribeiro e dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura foram patrocinados pela Prefeitura de Salinópolis (PA), e distribuídos em 3 de julho do ano passado, em um evento do MEC na cidade, que fica a 220 quilômetros de Belém. Ribeiro pôs o cargo à disposição do presidente Jair Bolsonaro.

Naquele dia, o ministro posou para fotos ao lado de convidados que seguravam a Bíblia do pastor Gilmar Santos, conforme registros do Ministério da Educação. O livro editado pelos pastores também foi distribuído, no ano passado, em um atendimento a prefeitos em Nova Odessa, no interior de São Paulo.

Em uma rede social, o ministro disse que havia autorizado, em 2021, o uso de  sua imagem "para a produção de algumas Bíblias para distribuição gratuita em um evento de cunho religioso". Ribeiro escreveu que descobriu, em outubro, que as Bíblias haviam sido distribuídas em outros eventos sem sua autorização.

"Novamente agi com diligência e de forma tempestiva para evitar o uso indevido de minha imagem. Imediatamente, em 26 de outubro de 2021, enviei ofício desautorizando esse tipo de distribuição", declarou.

O ministro publicou duas fotos que, segundo ele, comprovariam sua atuação. Uma delas é uma carta sem data, numeração ou timbre do Ministério da Educação, na qual Ribeiro – como chefe da pasta – desautoriza o uso de sua imagem. Da outra fotografia constam duas imagens, uma tabela com a data de 26/10/2021 junto a um aviso de recebimento dos Correios, que não trata do conteúdo do que foi enviado ao pastor Gilmar.

Prefeitos acusam os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura de cobrança de propina para destravar recursos do MEC. Ao Estadão, os prefeitos disseram que os religiosos teriam pedido contrapartidas em barra de ouro, dinheiro e compra das Bíblias de Gilmar Santos.

Na semana passada, Ribeiro disse em entrevistas que tinha informado à Controladoria-Geral da União (CGU), em agosto, sobre “conversas estranhas” do pastor Arilton. O ministro afirmou que, após encaminhar as denúncias, só manteve os encontros com o pastor para não levantar suspeitas. Em entrevista à CNN Brasil, Ribeiro alegou, no entanto, que “não aceitou nenhum tipo de agenda fora do MEC”.

Como mostrou o Estadão, publicações nas redes sociais de um prefeito recém-saído da cadeia contrariam o álibi do ministro para justificar a manutenção de encontros com o religioso mesmo depois de encaminhar à CGU denúncia contra Moura de supostas cobranças de propina na intermediação de verbas

As imagens publicadas pelo prefeito de Centro Novo do Maranhão, Junior Garimpeiro (Progressistas), desmentem essa versão. Cinco dias depois de sair da prisão sob suspeita de integrar uma organização criminosa armada que atua no garimpo ilegal de ouro, Junior Garimpeiro foi recebido pelo ministro num jantar reservado. Quem promoveu o encontro num apartamento de Brasília, em dezembro de 2021, foi o pastor Arilton, com quem o ministro estreitou os laços.

Junior Garimpeiro também publicou, em sua rede social, um encontro com Milton Ribeiro no Blue Tree São Luís Hotel, na capital maranhense, em 2 de setembro de 2021 – em outra reunião promovida pelo pastor. “Quero primeiro anunciar a conquista de 01 creche Tipo 1 para nossa querida Centro Novo e depois agradecer o carinho do Ministro da Educação, Milton Ribeiro, com o povo”, escreveu. “Em breve, iniciará a construção de creche de 10 salas para a alegria de todos.”

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