Gabeira: ''Arranhei minha imagem espontaneamente''

Segundo deputado, sua única opção era admitir uso irregular de passagens

Luciana Nunes Leal, Denise Madueño e Alexandre Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2009 | 00h00

Desde a manhã de ontem, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), líder de muitos movimentos pela ética na política, procurava se redimir pelo uso de passagem aérea de sua cota parlamentar em benefício de sua filha. Ele contou que tem recebido muitas críticas por meio de mensagem na internet e reconheceu o desgaste. "Eu arranhei minha imagem espontaneamente. Me arranhei propositalmente, porque era a única alternativa. A gente passa por um pelotão de fuzilamento, mas não é o primeiro nem o último", afirmou. No plenário, à tarde, Gabeira procurou explicar por que tomou a iniciativa de fazer um levantamento das viagens autorizadas por ele para a família. Defensor das medidas restritivas anunciadas ontem, ele disse que não poderia apoiá-las sem antes assumir a própria responsabilidade. "Agora eu posso começar a minha luta, porque eu queria o respeito dos senhores. Se eu fizesse essa luta sem dizer antes que dei passagens, não seria respeitado, porque todos sabem que todos dão passagens. Foi o caminho que encontrei."O deputado disse aguardar o levantamento que seus assessores estão fazendo sobre o uso da sua cota de passagens para decidir sobre o ressarcimento à Casa. Ele sabe que uma de suas duas filhas, Tamy, viajou custeada pela Câmara, mas não tem certeza sobre a outra filha, Maya.Gabeira fez questão de mostrar que estava ao lado do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), na decisão de limitar gastos. Comentou que, politicamente, Temer teria mais ganhos, apesar da esperada reação negativa dos colegas na Casa. "Temer não está mais em campanha para a presidência da Câmara. Se tiver impacto, ele poderá ser eleito governador de São Paulo."PLANOS ELEITORAISO envolvimento de Gabeira no escândalo das passagens deve dificultar ainda mais os planos do PSDB de lançá-lo candidato ao governo do Rio em 2010, configurando um palanque forte para a candidatura à Presidência do tucano José Serra no terceiro colégio eleitoral do País.Sem um nome para liderar a chapa majoritária regional, os tucanos fluminenses vinham tentando convencer Gabeira a reeditar a aliança PV-PPS-PSDB, com a integração do DEM do ex-prefeito Cesar Maia, para enfrentar a candidatura à reeleição do governador Sérgio Cabral (PMDB), aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e cabo eleitoral assumido da ministra Dilma Rousseff (PT).Fenômeno da eleição de 2008, quando perdeu a prefeitura para Eduardo Paes (PMDB) por menos de 2% dos votos, Gabeira tem sido assediado pelos tucanos fluminenses, mas vinha relutando, sob alegação de que prefere direcionar o incremento no capital político para o Senado. O PV do Rio também resiste, avaliando que Gabeira não tem perfil para o Executivo estadual e teria poucas chances de bater Cabral fora da capital.PESQUISAPesquisa do Instituto Datafolha no mês passado mostrou Gabeira com 19% - ante 25% de Cabral - de intenção de voto na capital, mas cai para 10% no resto da região metropolitana e para 6% no interior.Os tucanos pretendem observar a repercussão do mea-culpa, mas não pretendem desistir. Além da falta de nomes, avaliam que o fato de Gabeira ter se adiantado na revelação vai reduzir os prejuízos políticos. Candidato a vice na chapa de Gabeira em 2008, o deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB) diz que continuará defendendo o parlamentar para unir tucanos a PPS, PV e o DEM. Para ele, o movimento antecipado do deputado o ajudará a se diferenciar e dará autoridade para que influencie mudanças, em reparação a seu erro.

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