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José Roberto de Toledo
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Futebolês para candidatos

A Copa do Mundo tem muito a ensinar aos candidatos - especialmente àqueles que aspiram ao título máximo nas urnas. Afinal, futebol e eleição jogam com a opinião pública, são uma competição renhida e, quando se deixa as regas de lado, viram batalha campal. A seguir, onze lugares-comuns extraídos do campo e que têm aplicação prática nas campanhas eleitorais.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2014 | 02h05

1) Como a Espanha demonstrou furiosamente, favoritismo não ganha jogo. O que aconteceu no passado não tem garantia de que vá se repetir no futuro. Vira e mexe, campeões perdem a coroa e até a cabeça. Embora a taxa de reeleição seja sempre alta no Brasil, a urna é uma caixinha de surpresas.

2) Começar ganhando é bom, mas não é desculpa para relaxar. Não adianta o candidato que está na frente ficar tocando de lado, demonstrando superioridade e só esperando o tempo passar. Quem se acha muito acaba se perdendo em campo. Viradas acontecem o tempo todo. Até quando este texto foi escrito, quem saiu por baixo já havia virado 5 de 10 jogos da Copa.

3) Vaiar o adversário não está nas regras, mas é parte do jogo. Xingar também - desde que você não seja pego. Se for, coloque as mãos espalmadas para cima, faça cara de contrito e diga que estava elogiando a compleição física do rival, ou a pureza da mãe dele. Se tomar cartão vermelho, recorra ao TSE. Contrate o advogado do Fluminense, nunca o da Portuguesa.

4) Não chute defunto que ele ressuscita. Se o rival está indo de mal a pior, deixe ele se enterrar sozinho. Se espezinhá-lo, estará dando ao adversário a parte alta do campo moral - e sendo burro. Brasileiro torce para o perdedor quando o vitorioso não sabe vencer e tenta transformar a derrota em ato de humilhação. Se ainda não entendeu, leia novamente o item 2.

5) Não dê ouvidos às torcidas organizadas, nem aos corneteiros de plantão. Quem incita o ódio ou se deixa dominar por ele acaba seu refém. Jogue limpo e ganhe em campo. Se não puder, volte à prancheta, mude a tática, intensifique treinamentos, invista nas categorias de base, renove o time. Eleição para presidente é como Copa, tem uma nova a cada quatro anos.

6) Quando o adversário tem um Didier Drogba no banco, não se contente com o 1 a 0. Como o Japão descobriu contra a Costa do Marfim, o craque nem precisa tocar na bola para energizar o time. Bastou ele entrar em campo para, em poucos minutos, os marfinenses ganharem fôlego, marcarem dois e virarem o jogo.

7) Como a partida, eleição só acaba quando termina. Sempre pode aparecer um aloprado no último instante e botar tudo a perder. Vide o suíço Mehmedi, que entrou em campo aos 45 minutos e marcou o gol de empate para sua seleção aos 48. Se o Equador tivesse aprendido a lição no primeiro tempo, não teria tomado o gol da virada no último minuto do segundo tempo.

8) Não adianta culpar o juiz. Embora muitos ouçam mais a opinião da torcida do que sigam o livro de regras, depois que o apitou soou, dificilmente o árbitro volta atrás. Olhe para frente que a bola não para de rolar. Não seja uma Croácia.

9) Eleição é esporte coletivo. Ninguém ganha sozinho. Una o partido, contrate reforços junto à oposição e garanta mais tempo de TV que o adversário. Se não conseguir, diga que você não abre mão dos seus princípios para fazer alianças espúrias. Mas não abuse dizendo que, assim, está renovando a política.

10) Quem joga em casa leva vantagem, mas estádio não ganha jogo. Especialmente se ele foi superfaturado, se não tem transporte público para levar o eleitor até lá e se o ingresso é tão caro que só pessoa jurídica chega na bilheteria.

11) Saiba perder. Dar uma de lateral uruguaio, esquecer a bola e chutar a canela do adversário nunca fica bem. Hoje em dia sempre há dez câmeras gravando tudo em full HD, de todos os ângulos. Não transforme bolinha de papel em papelão.

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