Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Furtos e expansão urbana ameaçam memória de Campos Sales em Campinas

Casarão onde presidente nasceu deu lugar a prédio; museu em sua homenagem foi assaltado

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

CAMPINAS - Campinas esteve no centro do movimento que derrubou a Monarquia, conta o historiador Genaro Campoy Scriptore, que escreve um livro sobre o período histórico que antecedeu a República. “Os ideais republicanos se intensificaram a partir da revolução de 1842, iniciada em Sorocaba, com a aclamação pelos paulistas de Tobias de Aguiar como presidente da Província. A revolta se estendeu para outras cidades do interior, principalmente Itu e Campinas. Aqui, o padre Diogo Feijó, ex-regente do Império, aderiu ao levante que ficou marcado pelo combate da Venda Grande, em que ao menos 17 campineiros morreram”, conta Scriptore.

Ainda segundo o pesquisador, o campineiro Manuel Ferraz de Campos Sales logo assumiu a linha de frente dos republicanos, que tinham em Francisco Quirino dos Santos e seu irmão, João Quirino, os doutrinadores liberais. “Era um grupo apoiado pela maçonaria, que incluía Prudente de Morais e Rangel Pestana, que morou um período em Campinas. Campos Sales formou-se em 1863 na Faculdade de Direito de São Paulo e Prudente era seu colega de turma.”

Mais tarde, Campos Sales se tornou o quarto presidente da República, o segundo eleito pelo voto direto. Governou o País de 1898 a 1902 e deixou marcas importantes em sua terra natal. Parte de sua memória, no entanto, foi alvo dos ladrões. Uma placa de bronze, na casa em que morou, na esquina da avenida que leva seu nome com a Rua Regente Feijó, foi furtada. Restou uma placa de concreto fazendo referência ao seu nascimento, naquele local.

O casarão onde Campos Sales nasceu e morou grande parte da vida foi demolido e, em seu lugar, ergueu-se um prédio de 12 andares. No térreo, funciona uma loja de acessórios para celulares. A perda maior foi registrada no museu criado para cultuar a memória do ex-presidente. No dia 8 de agosto de 2013, cinco criminosos armados invadiram o Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA), onde funciona o Museu de Campos Sales, renderam funcionários, visitantes e pesquisadores e roubaram peças importantes do acervo. O CCLA é uma entidade cultural particular e sem fins lucrativos.

No roubo, foram levadas cerca de 100 peças, entre elas documentos originais de Campos Sales, uma carta do imperador chinês Guangxu e um livro com dedicatória sobre a história da Dinastia Romanov, doado ao então presidente em sua posse por Nicolau II, último czar russo. Os ladrões levaram, ainda, 11 livros do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, escritos no início do século 19, e a primeira edição de uma obra sobre a flora nacional do também botânico João Barbosa Rodrigues. “Eram dois volumes raríssimos sobre as palmeiras do Brasil. Levaram outras obras raras que foram presentes do próprio Campos Sales para o Centro de Ciências. Ele nos honrou várias vezes. A quadrilha foi presa meses depois, mas as obras de maior valor não foram recuperadas”, diz o presidente do CCLA, Alcides Ladislau Acosta.

O museu guarda objetos pessoais, como a navalha usada por Campos Sales, um retrato em óleo sobre tela pintado por Fernando Piendereck em 1879, quando Sales era vereador na cidade, caricaturas do então presidente publicadas pelo jornal O Malho, fotos de obras em seu mandato, como a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, na Amazônia. Em seu acervo ainda há cartas escritas pelo político, o livro com eus discursos e o de sua biografia, escrito por Afonso Arinos. A biblioteca com 150 mil volumes, dezenas deles doados por Campos Sales – muitos com dedicatórias –, fica no mesmo prédio onde funciona também o Museu Carlos Gomes, em homenagem ao músico campineiro. ”

A forte expansão urbana da principal metrópole do interior, com 1,19 milhão de habitantes, cobrou seu preço. Na proclamação, Campinas tinha 33,9 mil moradores, hoje são 1,19 milhão de habitantes. Com o crescimento, muitos símbolos republicanos desapareceram. Mas o monumento a Campos Sales, inaugurado em 1934 no meio do Largo do Rosário, ainda resiste, embora ocupe atualmente um espaço menor. Formado por esculturas de bronze, sendo que uma delas retrata o político sentado. Em 1956, durante reforma do largo pela prefeitura, o monumento foi transferido para uma rotatória, no início da Avenida Campos Sales e base de mármore do monumento, com quase um metro de altura, foi suprimida.

No novo local, um dos pontos mais movimentados do trânsito central, devido à confluência de várias vias, um morador de rua de 62 anos, que “ocupa” aquele espaço e se identificou apenas como Oliveira, diz que faz companhia “ao homem sentado” (Campos Sales).

 

SERVIÇO

MUSEU CAMPOS SALLES – CAMPINAS

Rua Bernardino de Campos, 989, centro.

Aberto de segunda a sexta, das 9 às 12 e das 14 às 17h30.

Entrada gratuita.

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