Funk, proteção divina e rituais sem água na guerra antidengue

Na guerra contra a epidemia dedengue no Rio de Janeiro vale tudo. Rituais de umbanda sãomodificados, fiéis clamam por proteção divina contra o "Aedesaegypti", agentes de saúde se vestem de mosquito e um funkcanta que "o mal da dengue é forte, mas podemos superar". Ao menos 80 pessoas morreram este ano no Estado vítimas dadoença, que já contaminou mais de 75 mil pessoas, naproporcionalmente mais letal epidemia de dengue registradaoficialmente no Rio. Em 2002, morreram 91 pessoas em 288 milcasos. Enquanto Exército e bombeiros combatem focos de reproduçãodo mosquito transmissor nas ruas, e as pessoas continuam atrásde atendimento nos hospitais, na Igreja Universal do Reino deDeus os fiéis buscam proteção divina. Um folheto da igreja lembra que o significo de "Aedesaegypti", mosquito transmissor da doença, é "desagradável doEgito", numa referência à história bíblica das pragas enviadascontra o faraó que manteve o povo de Israel em cativeiro. "De fato não deixa de ser uma praga, quem tem que sercombatida. Fazemos uma oração de proteção divina para aspessoas. Se você quer pedir uma proteção para que o mosquitonão te atinja, nós pedimos", disse à Reuters o bispo RenatoMaduro, responsável pela celebração nas manhãs de domingo naCatedral Mundial da Fé, em Del Castilho, zona norte do Rio. "O milagre não é descartado... então a igreja entra com oóleo, e a pessoa que tiver fé pode receber a graça de Deus",acrescentou. O bispo ressaltou que aos domingos, normalmente,os fiéis são ungidos com óleo para proteção. Mas não é apenas na igreja que o combate à dengue tem sidotratado. Em centros de religiões afro-brasileiras do Rio, o usode copos d'água nos rituais está sendo restringido. O mosquitoda dengue deposita seus ovos em água limpa e parada. "Trabalho em copo d'água, só em último caso mesmo. E aindaassim colocamos algum paninho em cima para tampar", disse JorgeLuiz de Ogum, presidente da União dos Templos de Umbanda eCandomblé. Sobre a possibilidade de tratar a água com larvicida oucloro, o que impedira a reprodução do mosquito, ele respondeu:"Água com cloro não dá, aí não vai funcionar." Até mesmo entre os profissionais especializados no combateà epidemia, saídas alternativas encontram espaço. Equipes deagentes de saúde vão às ruas da cidade vestidos de mosquitopara ensinar às crianças métodos de prevenção da doença. Os 19 agentes fantasiados, funcionários da SecretariaMunicipal de Saúde, fazem um trabalho educativo em comunidadescarentes, apresentando esquetes sobre o desenvolvimento domosquito e as formas de impedir que ele se reproduza. Uma outra agente de saúde antidengue recorreu ao popularritmo carioca do funk para alertar sobre os riscos da doença. AMC Dengosa, que na verdade é a agente Heloísa Faria da Costa,repete em refrão os alertas feitos à exaustão pelasautoridades. "Não deixe água parada, isso é primordial. O mal da dengueé forte, mas podemos superar, o mosquito 'Aedes aegypti' elenão vai nos vencer", diz a letra da música.

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