Funerária de sobrinho de Alckmin levava merenda, diz ex-funcionário

Empresário é filho de Paulão, suspeito de chefiar fraude em licitações e pagamento de propina a prefeitos paulistas e outros 3 Estados

Fabio Leite, do Jornal da Tarde,

16 de janeiro de 2011 | 23h00

Ex-funcionário da Velório e Funerária Pindamonhangaba, empresa de Lucas César Ribeiro, que administra o serviço na cidade, o agente funerário Vicente Ricardo de Jesus, de 52 anos, relatou ao Jornal da Tarde que, no período em que trabalhou no local, fazia transporte de merenda escolar para a Verdurama durante o dia com o mesmo veículo que transportava cadáveres à noite. A prefeitura classifica o fato de "mentira". Lucas é filho do lobista Paulo César Ribeiro, cunhado do governador Geraldo Alckmin.

 

A Verdurama é investigada pelo Ministério Público Estadual por suspeita de fraude em licitações e pagamento de propina a prefeitos paulistas e outros três Estados. Paulo César, conhecido como Paulão, é suspeito de comandar o esquema no Vale do Paraíba, onde fica Pindamonhangaba, cidade natal do tucano. Ambos negam as acusações.

 

Em depoimento à promotoria no fim do ano passado, o ex-secretário de Finanças de Pindamonhangaba Silvio Serrano disse que empresa do filho de Ribeiro "fazia transporte de gêneros alimentícios para a Verdurama".

 

Segundo o Ministério Público, Serrano foi indicado por Paulão ao prefeito João Ribeiro (PPS), apadrinhado de Alckmin que está no segundo mandato – a vice, Myriam Alckmin, é sobrinha do governador. Serrano foi demitido em outubro, após a denúncia vir à tona.

 

Além da funerária, Lucas também é dono de uma microempresa de transportes, a Lucas CR Transporte e Logística, segundo dados da Junta Comercial. O endereço informado é o mesmo onde outro filho de Paulão, Thiago, declara residência.

Segundo o agente funerário, o transporte da merenda era feito com os carros da funerária, uma caminhonete e uma van. "Todo mundo sabia. A secretaria de saúde, e, claro, a prefeitura também sabia. É porque transporta aquelas panelas meio grandes, aí é fogo, né?", disse.

 

Ele deixou a empresa em 2008 e hoje trabalha em outra funerária na cidade. "Isso é fácil de levantar. É só ligar na Verdurama e pedir as notas, porque a gente tirava as notas, a quilometragem, a escola, quantidade de merenda que entregava. Tudo por escrito."

 

Verdurama

 

O JT tentou, na sexta-feira, contato com o dono da Verdurama, Vilson do Nascimento, na sede da empresa, e pelo celular, mas não houve retorno. O advogado que defendia a Verdurama, José Maria Trepat Cases, deixou o caso em 2010.

 

A reportagem também tentou contato telefônico com Lucas na funerária e em sua residência, em Pindamonhangaba, mas não o localizou. Gilberto Menin, advogado de Paulão no caso, disse que só tem procuração para defender o pai de Lucas e não se manifestaria sobre o assunto, porque o inquérito corre sob segredo de Justiça.

 

"O que posso dizer é que o Lucas não é alvo de nenhum inquérito e o inquérito do Paulo é sigiloso. Inclusive, o MP já noticiou que vai averiguar por que houve vazamento de informações à imprensa", disse Menin.

 

Por meio da assessoria de imprensa, a Prefeitura de Pindamonhangaba negou o relato do agente funerário. "Isso é mentira. Nunca houve transporte de merenda escolar em carro funerário. Isso é boato que surgiu desde 2006. A gente foi atrás e já desmentiu. Houve confusão porque o carro que transporta a merenda é do mesmo modelo e da mesma cor do carro funerário", afirmou.

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