‘Fundo de propina’ pagava políticos, relata Machado

Delator diz que Petrobrás era a ‘madame mais honesta dos cabarés do Brasil’ e que propina era o ‘custo político’ dos contratos no País

O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2016 | 09h16

SÃO PAULO - O delator Sérgio Machado afirmou que o dinheiro arrecadado pelo esquema na Transpetro era mantido em uma espécie de “fundo de propinas” do qual saíam os pagamentos para os políticos. Em seus depoimentos, o ex-presidente da subsidiária procura explicar um sistema de corrupção que, segundo ele, existiria no País desde 1946. Nele, conforme Machado, as propinas nos contratos de empresas e órgãos públicos representam o “custo político” no País, que varia de 3% na esfera federal a até 30% nas administrações municipais.

“Recentemente, em todos os níveis de governo, as pessoas saíram desse padrão e foram além”, disse. Em seguida, concluiu: “A Petrobrás é a madame mais honesta dos cabarés do Brasil”. O retrato que Machado procurou traçar em seus depoimentos começa explicando como funcionava o chamado “fundo da propina”, por ele supostamente administrado.

Machado afirma na delação que ia recebendo os pagamentos em função dos contratos mantidos pela Transpetro com empresas com “as quais ele tinha um relacionamento denso”. Conforme os políticos lhe pediam contribuições, ele sacava o dinheiro do “fundo” e fazia o repasse. Machado definiu em 60% a sua “taxa de sucesso” ao atender aos pedidos dos políticos.

De acordo com ele, R$ 72,934 milhões de propinas foram pagos por quase duas dezenas de empresas a Machado em uma conta bancária do HSBC, em Zurique, na Suíça. A conta era administrada por meio de um trust. O dinheiro pago correspondia de 1% a 3% dos valores dos contratos firmados pela Transpetro entre 2004 e 2014.

O delator disse que só tratava com os presidentes ou donos de empresas. Os pagamentos eram deduzidos da margem de lucro das empresas.

Senhas. Havia duas formas de se pagar a propina, segundo ele. Pela primeira, o empresário criava uma senha que seria usada por seu emissário no encontro para a entrega do dinheiro. O político recebia essa senha, que era repassada ao seu emissário com o endereço onde seria feito o encontro. Dessa forma, segundo Machado, os emissários se encontravam sem saber qual empresa estava pagando e a companhia não saberia para qual político a propina se destinaria.

Entre as senhas usadas nos encontros estão as palavras “arara, melancia e sol”. Os encontros ocorriam sempre em lugares diferentes, em flats, hotéis, casas e escritórios, principalmente, em São Paulo e no Rio. Os pagamentos eram feitos em espécie.

Doações. A outra maneira de pagar a propina, contou o delator, era por meio de doações oficiais para campanhas políticas. Nesse caso, as doações eram feitas por três empresas: Camargo Correa, Queiroz Galvão e Queiroz Engenharia. O dinheiro de propina entrava legalmente no caixa dos partidos. “Só trabalhei com doações ilícitas”, afirmou.

No depoimento de 6 de maio, Machado discorreu sobre o que chamou de “modelo tradicional” de propina. Ele teria começado em 1946, “segundo o qual os empresários moldavam seus orçamentos com a incorporação do conceito custo político”. O custo seria o porcentual destinado para propinas nos contratos. Ele seria de 3% em nível federal, de 5% a 10% no estadual e de 10% a 30% no municipal.

O Estado procurou a Queiroz Galvão e a Galvão Engenharia, mas não obteve resposta até a conclusão desta edição. A Camargo Corrêa informou que “colabora com a Justiça por meio de um acordo de leniência”. / MARCELO GODOY, FAUSTO MACEDO, JULIA AFFONSO, MATEUS COUTINHO, VALMAR HUPSEL FILHO, LUCIANA AMARAL e ROBERTA BARBIERI

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