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Funcionários da EBC relatam à CPI da Covid censura na pandemia

Dossiê denuncia omissão de informações e proibição de noticiário negativo sobre o tema; Renan Calheiros vai incluir denúncias no relatório final

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2021 | 20h12

RIO - Um dossiê encaminhado à CPI da Covid acusa a direção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) de censurar informações de interesse público sobre a pandemia de covid-19. O documento de 119 páginas, incluindo anexos, lista episódios nos quais teriam ocorrido interferência ilegal no trabalho dos profissionais. Algumas vezes, essas ações ajudaram a reforçar discursos negacionistas em relação à doença. O material  com as denúncias foi enviado por servidores públicos ao relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL). A iniciativa foi noticiada pelo portal Metrópoles.

“A Empresa Brasil de Comunicação está sendo usada pelo atual governo federal para disseminar e reforçar narrativas negacionistas e governistas sobre a pandemia, que certamente prejudicaram o combate ao vírus da covid-19”, diz o documento, que tem por título “O uso indevido dos meios públicos de comunicação da EBC para  difusão de fake news e negacionismo  sobre a pandemia de covid-19”. “Os veículos públicos da EBC deveriam, neste momento, cumprir sua missão de levar informação de qualidade à população, além de combater fake news, para promover a saúde e preservar vidas.”

Renan vai incluir informações do dossiê no relatório final da CPI, segundo a assessoria do senador. A atuação da estatal na pandemia fará parte do capítulo que tratará da desinformação institucional. Nessa parte, serão listadas as condutas de órgãos públicos que divulgaram fake news sobre a covid-19. São citados no dossiê dados de entidades sindicais e da Frente de Defesa da EBC e da Comunicação Pública. “Fica evidente o uso do aparato público de comunicação pelo governo do presidente Jair Bolsonaro para difusão de fake news e desinformação sobre a gravíssima situação da Covid-19 em nosso país”, diz o texto.

Em 2020, durante algum tempo, segundo a denúncia, os profissionais de comunicação da EBC não podiam falar na “segunda onda” da pandemia.  Essa ordem prevaleceu mesmo quando cientistas já alertavam que uma nova série de infecções viria. Outra determinação foi que fosse enfatizado o “Placar da Vida”. É uma criação da Secretaria de Comunicação para enfatizar o número de infectados pelo vírus que se recuperavam e curavam. Não deveria haver destaque para as mortes, afirmam os autores da denúncia.

“As equipes das redes sociais da EBC foram proibidas de postar qualquer assunto que tenha viés negativo sobre a pandemia, mesmo aqueles produzidos pela própria casa, como Agência Brasil”, afirma o texto.

A própria CPI da Covid, segundo a denúncia, foi alvo de proibições da direção da empresa.

“Na CPI da Pandemia, os repórteres do Radio-jornalismo do turno da tarde foram proibidos de cobrir os trabalhos”, diz o texto. “Apenas um repórter da manhã faz um registro e não coloca falas dos senadores, apenas do depoente; Coletivas e repercussões sobre a pandemia não são pautadas, ao contrário, é proibido repórter acompanhar.”

Os denunciantes também apontam que é proibido que profissionais da empresa “citar a polêmica em torno da eficácia da cloroquina em reportagens”. O medicamento, de acordo com pesquisas ineficaz contra o novo coronavírus, é defendido pelo presidente.  Segundo o texto, houve censura a “estudo que atestava a ineficácia” da droga.

“Foi censurado na reportagem do radio-jornalismo o posicionamento do Presidente da Anvisa (Antonio Barra Torres) na CPI, que disse que se arrependeu de ter participado de aglomeração”, prossegue a denúncia. “O repórter hoje está sofrendo um processo administrativo por se recusar a gravar o trecho censurado.”

O dossiê também denuncia proibição de postar nas redes sociais da EBC a foto da primeira pessoa vacinada no Brasil, em São Paulo. O motivo foi que foi “iniciativa do governador João Doria” (PSDB). Segundo a denúncia, quando o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta depôs na CPI, “as  reportagens da Agência Brasil e da TV Brasil não mostraram os questionamentos  feitos por ele”. Também não foi dado destaque à crise do oxigênio em Manaus. Houve, afirmam censura “até das próprias declarações do presidente Jair Bolsonaro, numa lógica de proteger o presidente dele mesmo. Um exemplo foi o “e daí?” ao se referir aos primeiros 5 mil mortos pela Covid-19”.

“Por lei e em respeito à Constituição Federal, nenhum governo pode usar a EBC para promoção própria. A autonomia em relação ao governo Federal, assim como a vedação  ao proselitismo, estão claramente expressos no texto legal”, argumentam os denunciantes. “Os canais responsáveis por fazer a divulgação de atos oficiais são a TV BrasilGOV, antiga TV NBR, e o programa de rádio A Voz do Brasil, ambos operados pela EBC como uma prestação de serviço ao governo.”

Os denunciantes sugerem que sejam questionados a respeito desses procedimentos, a Secretaria de Comunicação (Secom);  o diretor-presidente da EBC, Glenn Valente; a diretora de Jornalismo, Sirlei Batista; e o ministro Braga Netto – que quando chefiou a Casa Civil coordenou o combate à pandemia.

O Estadão procurou a EBC, para que a direção da empresa se pronunciasse sobre o dossiê. Até a publicação deste texto, não houve retorno.

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