Funcionária alertou Graça Foster sobre desvios na Petrobrás, diz jornal

Funcionária alertou Graça Foster sobre desvios na Petrobrás, diz jornal

Geóloga ligada à diretoria de Abastecimento notificou a presidente da estatal sobre irregularidades em obras da refinaria Abreu e Lima, segundo reportagem do 'Valor Econômico'

Agência Estado

12 de dezembro de 2014 | 10h11

Ampliado às 16h10

São Paulo - A atual diretoria da Petrobrás foi informada de irregularidades na empresa antes da deflagração da Operação Lava Jato, conforme mostram documentos internos divulgados pela geóloga Venina Velosa da Fonseca, que foi gerente executiva da Diretoria de Abastecimento. A informação foi divulgada nesta sexta-feira, 12, pelo jornal Valor Econômico. A estatal afirma ter apurado as informações fornecidas pela funcionária.

Conforme a publicação, a geóloga afirma que a presidente da estatal, Graça Foster, foi notificada sobre o assunto pela primeira vez em mensagem enviada em abril de 2009, quando a atual número 1 da Petrobrás ocupava a Diretoria de Gás e Energia. Venina voltou a enviar mensagem a Graça após ela ter assumido o comando da empresa, em fevereiro de 2012. 

 

Venina alertou sobre pagamentos de serviços de comunicação que não foram prestados, cujos valores chegariam a R$ 58 milhões, e sobre a escalada de aditivos que elevaram os custos da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, de US$ 4 bilhões para US$ 18 bilhões. Os alertas também faziam referência a contratações atuais de fornecedores de óleo combustível das unidades da Petrobrás no exterior cujos custos foram aumentados em até 15%.

A reportagem afirma que, em 2014, Graça Foster recebeu denúncias envolvendo escritórios da Petrobrás no exterior. Nesse caso, ocorrido já sob o atual comando da estatal, nenhuma providência foi tomada até agora.

Ainda de acordo com o jornal, a funcionária, afastada da Petrobrás no mês passado e que deve depor ao Ministério Público, diz ter alertado não só Graça Foster, mas também José Carlos Cosenza - que substituiu Paulo Roberto Costa, denunciado por envolvimento em um esquema de desvios, na Diretoria de Abastecimento - a respeito dos desmandos, sem que nenhuma providência tenha sido tomada. Em depoimento à CPI Mista da Petrobrás, em 29 de outubro, Cosenza disse aos parlamentares que nunca havia sido informado sobre desvios de recursos na estatal em 34 anos de empresa. O jornal Valor Econômico reproduziu um e-mail de Venina enviado seis meses antes a Cosenza sobre as perdas de até 15% na área de petróleo e óleo combustível.

A geóloga diz ter começado a suspeitar de irregularidades na Petrobrás em 2008, quando verificou elevação nos gastos dos contratos de pequenos serviços, chamados de ZPQES dentro da estatal. Embora o valor orçado para aquele ano fosse de R$ 39 milhões, de janeiro até meados de novembro de 2008 os gastos já somavam R$ 133 milhões. Venina relatou ter procurado seu superior imediato na Diretoria de Abastecimento para apontar os problemas e as dificuldades em rastrear os contratos, e viu Costa apontar o dedo para um retrato do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e perguntar se ela queria "derrubar todo mundo".

Posteriormente, Venina procurou o então presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, que instalou comissão para apurar o caso. Essa investigação interna apontou os gastos de R$ 58 milhões em serviços não realizados, assim como irregularidades na documentação de fornecedores, como uso de um mesmo endereço para empresas diferentes. O gerente de Comunicação da época, Geovanne de Morais, foi demitido, mas entrou em licença médica e permaneceu nos quadros da Petrobrás por mais cinco anos.

Em relação a Abreu e Lima, Venina fez uma série de sugestões para a adoção de licitação pública, em vez de contratação sem concorrência, como vinha sendo feito para o empreendimento. Um documento de 2009 da própria Petrobrás mostra que a geóloga fez 107 Solitações de Modificação de Projetos, o que poderia economizar R$ 948 milhões nas obras da refinaria. Nenhuma sugestão da gerente foi aceita. Parte das sugestões de Venina eram direcionadas à Diretoria de Serviços, comandada na época por Renato Duque, investigado pela Operação Lava Jato - ele chegou a ser preso pela PF, mas foi solto por liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki.

Após fazer as denúncias e não obter resposta, Venina deixou a gerência subordinada à diretoria de Costa em outubro de 2009. No ano seguinte, foi enviada para uma unidade da Petrobrás em Cingapura. No período fora do País, a geóloga enviou outras mensagens a Graça Foster - numa delas, diz que o orgulho de trabalhar na empresa deu lugar à "vergonha".

Em maio de 2014, ao fazer uma apresentação na sede da Petrobrás, Venina voltou a citar as perdas envolvendo a comercialização de combustível no exterior relatada no mês anterior a Cosenza. Em junho, propôs a criação de uma área de controle de perdas nos escritórios da empresa no exterior, mas a medida não foi adotada.

A última mensagem de Venina sobre o assunto foi enviada em 17 de novembro, dois dias antes de ser afastada do cargo de chefe do escritório em Cingapura. No dia 20, ela voltou a escrever para Graça Foster e relatou que a vida dela havia virado "um inferno" desde 2008", quando se deparou "com um esquema inicial de desvio de dinheiro, no âmbio da Comunicação do Abastecimento". "Ao lugar contra isso, fui ameaçada e assediada. Até arma na minha cabeça e ameaça às minhas filhas eu tive", escreveu Venina a Graça.

Em nota divulgada nesta sexta-feira, a Petrobrás afirmou que apurou todas as informações enviadas pela funcionária e que foram instauradas comissões internas em 2008 e 2009 "para averiguar indícios de irregularidades em contratos e pagamentos efetuados pela gerência de Comunicação do Abastecimento". A estatal diz ainda que o ex-responsável pela área, Geovanne de Morais, foi demitido por justa causa em 3 de abril de 2009, mas a demissão só foi efetivada em 2013 porque o contrato de trabalho estava suspenso em razão de seu afastamento por licença médica.

Segundo a nota, a área da estatal responsável por controles e auditorias não constatou irregularidades entre 2012 e 2014. "Como mencionado em comunicados anteriores, a Comissão Interna de Apuração constituída para avaliar os processos de contratações para as obras da RNEST (Abreu e Lima) concluiu as apurações e encaminhou o Relatório Final para os órgãos de controle e autoridades competentes", conclui a nota.

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