''Fumar pedra não é vida. Queria sair dessa''

C.H.P., 17, fez até a 7.ª série e hoje vive na República

Roberto Almeida, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

22 de setembro de 2008 | 00h00

Ele diz que só queria atenção dos pais e, por isso, foi parar na rua. C.H.P, de 17 anos, teve teto. Nasceu em Heliópolis, se criou na Mooca, morou no Guarujá e estudou até a 7ª série no Ipiranga. Não parou em lugar nenhum porque depenava as casas dos parentes para comprar crack. Ninguém quis C.H.P., que há três anos dorme na Praça da República, no centro de São Paulo.Era meio-dia quando ele acordou, reclamando que tinham lhe roubado um chinelo e um pacote de biscoitos. A calçada em frente à Secretaria da Educação, diz o rapaz, é um perigo. "Foi só dormir, dar bobeira", disse, apontado para um dos pés descalços. C.H.P. estava sonolento porque havia passado a noite na região da nova Cracolândia, mais especificamente na Rua Guaianazes. Garantiu, porém, que não "fumou pedra". Apenas caminhou pelas ruas lembrando dos tempos em que fazia programa para comprar a droga. "Hoje nem isso eu consigo mais. Não tomo banho, não tenho roupas, não tenho mais nem como fazer isso", sussurrou.O rapaz falou baixo porque não queria que seus "quebradas" (ou colegas de rua) ouvissem. Eles estavam logo ali do lado, entre cobertores imundos, acendendo o primeiro cachimbo de crack do dia. "Fumar pedra não é vida. Eu queria sair dessa vida", desabafou.C.H.P. teve oportunidades, mas deixou que elas escapassem pelas pontas dos dedos toda vez que acendeu seu cachimbo. Quando parou de fazer programas, tentou roubar, uma vez só, na Rua do Arouche. "A mochila do cara tava dando mole, fui perseguido por umas três quadras assim, todo mundo gritando ?pega, pega!? eu caí, lembro que levei um chute na cara, quando acordei não tinha mais nada, só sangue no nariz." Ele queria comprar mais crack.O papo sobre a droga só parou quando C.H.P. ouviu a palavra "pai". Ele virou o rosto, olhou para o nada por alguns segundos. A cabeça, então fez sinal de negativo, os olhos marejaram, mas ele resistiu e confrontou o passado. "Quando bebia, me enchia de porrada. Dizia que eu era um nóia (viciado). O desgosto da família. Foi quando eu fugi, aos 11 anos. Sempre fui fujão", contou.A primeira escapada do rapaz durou pouco. Em poucas horas voltou para casa. A última parece que vai durar para sempre.C.H.P. já passou pelos centros de atendimento a adolescentes, mas ficou no máximo uma semana. Diz que ainda fala com o pai, mas perdeu contato com a avó, com a qual ele se dava bem. Se ele quer um emprego, voltar a estudar, ter uma casa? Claro que quer, mas acha que não vai durar. "É porque ele é um nóia", acusam os "quebradas".

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