Fuga de alunos atinge escolas tradicionais de SP

A crise do mercado de ensino particular atinge em cheio as grandes e tradicionais escolas de São Paulo. A mais recente pesquisa do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp), divulgada com exclusividade pelo Estado, mostra a queda no número de alunos em praticamente todas elas. A diminuição acompanha a tendência do ensino particular paulista, que desde 1996 vem aumentando a oferta em proporções muito maiores que a procura. Resultado: menos estudantes por escola e transferência para estabelecimentos mais baratos. "Temos agora muitas famílias com um filho só", diz o diretor-geral pedagógico do Colégio Dante Alighieri, Lauro Spaggiari. O argumento da redução da taxa de natalidade na classe média (1,6 filho por casal) é usado por dez entre dez diretores de escolas, sem contar o próprio Sieeesp. Mas não foi só isso. O Dante perdeu cerca de mil alunos entre 1996 e 1999, quando ocorreu reajuste de mensalidades e exigências do governo para que se diminuísse o número de estudantes por sala de aula. "Investimos pesado em tecnologia voltada à educação e isso ajudou o Dante a manter, depois de 1999, o número de alunos", diz Spaggiari. Mesmo assim, a perda no período - 1996 a 2002 - foi de 22,5%. Com 135 anos de tradição, o Colégio São Luís também confirma que passou por "um período difícil", mas que a recuperação já começou. "Os alunos saíram para escolas mais baratas", afirma o diretor-administrativo Jairo Nogueira Cardoso. Dos 2.603 estudantes em 1996, agora restam 1.810. Este ano, porém, as inscrições para 2003 aumentaram 46%. Os números gerais do ensino particular trazem um bom retrato das mudanças nos últimos anos.De 1996 para 2002, a quantidade de escolas no Estado cresceu 116%, enquanto o número de alunos, 17%. Isso acarretou uma média menor de estudantes por sala de aula, 18,4 em algumas séries do ensino fundamental. O que é interessante do ponto de vista pedagógico acabou se tornando um problema financeiro. "Alunos a menos na classe não reduzem em nada a despesa das escolas", diz o diretor da Ipso, empresa responsável pela pesquisa encomendada pelo Sieeesp, João Paulo Santos Nogueira. Para o gerente de comunicação social do Colégio Mackenzie, Fernando Kerr, a perda do poder aquisitivo do brasileiro nos últimos anos foi uma das razões da redução do número de matrículas. "Eles foram inclusive para as escolas públicas", diz. Além disso, ele nota uma mudança do perfil etário no bairro de Higienópolis, onde fica a escola. "Agora, há mais casais com filhos em idade universitária na região." Para escapar da crise, o Colégio Bandeirantes apostou na elitização da escola e teve queda de apenas 0,4%. Aumentou investimentos em tecnologia, capacitação de professores, estudo de línguas e foi se firmando como um colégio líder no ensino médio. A mensalidade hoje é de R$ 918. "A concorrência é muito maior quando o nível de renda é um pouco mais baixo", diz o diretor-geral Mauro Aguiar. "O momento não está nada fácil, mas conseguimos manter nossa receita." LDB - A crise levou ao fechamento de escolas, recentes fusões e também diminuição na oferta de cursos. Os estabelecimentos podem deixar de oferecer, por exemplo, o ensino infantil. "O maior problema se deu na pré-escola", diz o presidente do Sieeesp, José Augusto de Mattos Lourenço. Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) exigiu que as pré-escolas fossem obrigatoriamente registradas nas secretarias de educação, o que acabou aumentando o número dos estabelecimentos conhecidos. No entanto, a queda no número de alunos por escola é de mais de 20% ao longo dos anos. Segundo Lourenço, o boom das escolas particulares se deu como conseqüência do plano real e da estabilidade econômica. "Os estabelecimentos se sentiram seguros para planejar a longo prazo e, além disso, muita gente veio para a escola particular", afirma. "Agora, com o desemprego, o movimento é inverso." (Colaborou Marcos de Moura e Souza) Veja os números

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