FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Freixo se diz vítima da ‘política com terror’

Para candidato do PSOL, campanha de Marcelo Crivella (PRB), que lidera o 2º turno no Rio, espelha um ‘avanço conservador’

Entrevista com

Marcelo Freixo

Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2016 | 04h00

RIO - O avanço da direita nas eleições municipais de 2016, com a estrondosa derrota da esquerda nas grandes cidades no primeiro turno, é parte de um movimento maior, mundial, e marca o fim do período de poder do PT no País, avalia o candidato do PSOL a prefeito do Rio, Marcelo Freixo.

Às voltas com uma campanha em que sobra entusiasmo militante, mas faltam recursos, ele acredita que a candidatura do adversário, Marcelo Crivella (PRB), que angariou apoios à direita e ao centro na última semana, é parte desse cenário de crescimento conservador. Essa movimentação, diz, inclui a candidatura de Donald Trump à presidência dos EUA e o ódio a minorias que grassa no Brasil.

Sem ser explícito, Freixo aponta o motivo do naufrágio esquerdista deste ano: as acusações de corrupção contra o petismo. "Um desgaste muito grande para a imagem da esquerda, que precisa ser reconstruída", prega.

Em contraste, Freixo apresenta a sua candidatura como parte do contraponto ao crescimento conservador mundial. É um cenário otimista, no qual o deputado estadual pelo PSOL  se  coloca ao lado do Podemos espanhol e da pré-candidatura de Bernie Sanders, que disputou com Hillary Clinton a indicação do Partido Democrata às eleições americanas de 2016.

Na campanha real, ele se revolta contra a onda de acusações e boatos que enfrenta, como de que vai vestir a Guarda Municipal com uniformes cor-de-rosa e vai ensinar crianças de quatro anos a fazer sexo. "É um nível muito baixo de fazer política", queixa-se. Sua campanha nos últimos dias deixou o tom ameno e passou a atacar Crivella por sua aliança com o PR do ex-governador Anthony Garotinho e pela atuação do adversário na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

Ao analisar a gestão do prefeito Eduardo Paes (PMDB), Freixo surpreende.  Mistura críticas ao "caos na saúde" e ao problemático sistema de transporte, problemas que acusa  Paes de legar à cidade, com elogios a iniciativas do peemedebista. Cita como positivos o Parque de Madureira, o programa das Clínicas da Família e os corredores de ônibus BRTs, além de, em parte, a reforma do porto, iniciativas do prefeito que aponta como benéficas ao município. E até fala em aproveitar o "legado olímpico" que a esquerda questionou desde o início.

"Acho muito importante ter maturidade de reconhecer onde tem avanço, o que deve continuar, e onde tem o erro", diz, em um inesperado aceno ao eleitorado que apoia Paes, órfão de candidato com a eliminação de Pedro Paulo no primeiro turno.

A seguir, trechos da conversa de Freixo com o Estado.

O que explica a derrota da esquerda nas grandes cidades?

Acho que alguns fenômenos são mundiais. Tem, por um lado, o avanço de uma direita bastante conservadora, em lugares como França, Alemanha... O que é o (candidato republicano a presidente Donald) Trump nos Estados Unidos, com um porcentual altíssimo de intenção de voto. E, ao mesmo tempo, tem experiências muito ricas. O prefeito de Londres é muçulmano. O Partido Trabalhista de Londres tem um ingresso enorme de uma juventude que nunca tinha entrado (na legenda). Tem o Podemos (na Espanha), tem a candidatura do Bernie Sanders nos Estados Unidos... Ao mesmo tempo em que tem um avanço conservador, tem também algo novo acontecendo. Acho que o Rio espelha um pouco isso. Tem essa candidatura do Crivella e tem a nossa. A eleição brasileira mostrou isso. É um ciclo que se encerra, que é o ciclo da era do PT, com tudo que isso representou. Um desgaste muito grande para a imagem da esquerda, que precisa ser reconstruída.

Por que o discurso do ódio avança  na política brasileira?

O que nasce de novo é a fusão, a união, de um setor que tem uma análise, uma postura, muitas vezes marqueteira, inclusive, de um controle comportamental grande, que gera discursos de ódio, posturas de ódio, com uma linha conservadora na economia também, consolidando uma nova direita. É isso que explica, por exemplo, a votação do (Flavio) Bolsonaro, que foi muito mal na campanha, desmaiou no debate, não respondia a nada... Um candidato fraco, mas que fica com 14% dos votos.

Como entender a derrota do PMDB, após dez anos de hegemonia e de o prefeito promover uma Olimpíada bem-sucedida?

Não é pouco comum prefeito perder eleição depois de (ser anfitrião de) Olimpíada. Acho que Eduardo (Paes) acertou em umas coisas, errou em outras.

Onde Paes acertou?

Ah, ele acertou no Parque de Madureira, por exemplo. É um olhar para o subúrbio. Estive em Honório Gurgel. Não tem uma praça em Honório Gurgel.  Mas tem o Parque de Madureira, que acho que é um acerto, é importante. Tem o investimento nos BRTs, melhora o sistema rodoviário. Ao mesmo tempo, a relação com os empresários de ônibus foi de muito pouca transparência, e a passagem foi muito além do que deveria ter sido. Não houve integração tarifária. Mas o BRT melhora, os BRTs construídos melhoraram o sistema rodoviário.  Especificamente no que diz respeito aos ônibus, melhorou.

Onde Paes errou?

Ele errou muito.  A cobertura da Clínica de Família ampliou. Mas não resolveu o problema dos leitos. A saúde no hoje no Rio é um caos. O sistema de regulação, que chamamos Sisreg, foi terceirizado, ele terceirizou todo o sistema de saúde.  Mesmo tendo ampliado a Clínica de Família, que é um ponto positivo. Acho muito importante ter maturidade de reconhecer onde tem avanço, o que deve continuar, e onde tem o erro.

E as obras do porto, com a criação da nova orla no Centro?

O porto custou um valor muito alto. Evidente que, se comparar o que era o porto e o que é hoje, hoje é bem melhor.  Ninguém é contra revitalizar o porto. O dinheiro que foi usado ali dava para fazer saneamento em toda a zona oeste.  Essa é uma escolha que se faz também. É bom hoje ter o porto do jeito que está? É.  Mas não está tudo resolvido. Hoje tem por  exemplo os imóveis do porto, da chamada zona portuária, que é um terreno grande, menos de 5% de taxa de ocupação.  Ele vai terminar a gestão dele e esse problema não está resolvido. Hoje tem 40% da população que tem carteira assinada trabalhando no Centro da cidade. Deveria resolver um problema de um lado de moradia de outro da economia, de gerar emprego e renda. Para fazer que aquilo ganhe sentido. Para não ser só um boulevard, onde as pessoas vão, passeiam. O projeto deveria ser muito maior, mais ousado.

O senhor tem sido muito atacado por questões como droga, aborto, além de muita boataria...

É o método de ação de quem faz política com terror. Eu sabia que o segundo turno teria uma campanha com métodos que não são os nossos. Eu vou para a televisão e digo (a Crivella): ‘Você tem de explicar a aliança com Garotinho’. Não estou inventando. É diferente de eles espalharem que vou liberar a droga, que vou acabar com a PM, que vou vestir a Guarda Municipal de rosa, que vou distribuir livros ensinando crianças de quatro, cinco anos a fazer sexo... É um nível muito baixo de fazer política. Quem tudo faz para chegar ao poder tudo faz no poder.

Por que o foco no Garotinho?

Há uma aliança formal do Garotinho com Crivella no primeiro turno. A aliança deles é PR com PRB. O vice (Fernando Mac Dowell) é indicado do Garotinho. O meu temor é a volta do Garotinho. Garotinho foi expulso eleitoralmente do Rio de Janeiro pelo carioca. Não adianta o Crivella dizer que o vice dele é um técnico, quando o vice dele é um técnico, que eu respeito, mas é indicado pelo Garotinho, é do PR. O Crivella quer me convencer que o Garotinho o apoia e não quer nada em troca. Então, realmente a capacidade de conversão do Crivella está muito sofisticada. Do Garotinho espero tudo, tudo de ruim.

Pode ter alguma privatização no seu governo?

Privatização? Mais do que já teve? O Rio está todo terceirizado, a saúde está toda terceirizada.



Perguntando o inverso: pode ter alguma desprivatização, digamos assim?

Não é muito viável, né?  Vamos dar um exemplo concreto. As OSs (Organizações Sociais) no Rio de Janeiro hoje são caríssimas, não têm transparência nenhuma e não são eficientes. Acabei de ler um relatório do Tribunal de Contas que mostra, por exemplo, que os remédios comprados com licitação pela administração direta, pelos hospitais que não são OSs, foram mais baratos que os remédios comprados pelas OSs que não têm necessidade de licitação. Vamos fazer uma avaliação desses contratos, porque são muito caros, muito caros. E não necessariamente melhoraram o serviço para a população. Isso não quer dizer que vamos fechar as OSs.  Porque aí prejudica a população, termina com o serviço.

Se a prefeitura tivesse de intervir mais, onde seria?

Transportes. Não é estatizar. Não tem o menor cabimento a prefeitura se tornar dona de linha de ônibus. Mas a prefeitura tem de ter um sistema de regulação. Tem de dizer quais linhas vão funcionar, onde vão começar e terminar. Não pode ter ônibus que sai de Campo Grande e vai para Bonsucesso e aí o empresário decide que esse ônibus vai parar em Madureira. Aí o passageiro que ia para Bonsucesso tem de descer em Madureira para pegar outro ônibus. E uma viagem que poderia durar uma hora e meia vai durar duas horas e meia.

Como vai ficar o legado olímpico? Tem coisas cuja manutenção é cara...

A Olimpíada em parte foi uma oportunidade perdida. Poderia ter deixado um saldo muito melhor do que deixou. Mas acho que a gente ganhou uma experiência, principalmente no que diz respeito ao esporte, muito grande. Acho que a prefeitura tem condição de organizar um calendário de eventos, não enormes eventos, mas eventos médios, eventos pequenos, na própria área esportiva.. O Rio pode ser uma cidade do esporte, aproveitando a estrutura olímpica, aproveitando o know how que a cidade ganhou na Olimpíada.

O senhor pretende auditar a Olimpíada ou algum ponto específico da gestão Paes?

Vamos pegar os contratos para ver. Mas acho que não adianta fazer uma caça às bruxas e paralisar a máquina pública. Agora, se tiver denúncia, se tiver algo irregular que a prefeitura  ainda tenha que pagar, sem dúvida alguma auditar contrato, auditar dividas que ficam, é mais do que uma obrigação.

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