Frei Betto ataca biocombustíveis

Ex-assessor especial da Presidência se alinha com Chávez, Fidel e Evo ao atacar um dos principais projetos de Lula

Lisandra Paraguassú, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

24 de julho de 2007 | 00h00

Uma das idéias mais caras ao presidente Lula, o projeto de biocombustíveis é o mais recente alvo do Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Usando um e-mail planalto.gov.br, o Consea distribuiu ontem para seus correspondentes um artigo de Frei Betto, que foi assessor especial da Presidência e um dos conselheiros, chamando o programa de "necrocombustíveis" - necro é o prefixo de origem grega para morte.O artigo de Frei Betto não foi nem mesmo escrito para o conselho ou para avaliação de seus integrantes. Foi publicado na sexta-feira pela Agência de Notícias da América Latina e Caribe. A assessoria do Consea o distribuiu por considerar que trata de tema que pode ser analisado pelos conselheiros.O texto é duro com a política de biocombustíveis. Frei Betto usa os mesmos argumentos dos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, de Cuba, Fidel Castro, e da Bolívia, Evo Morales, que acusam os interessados de transferir a produção de comida para a de combustíveis. Evo, aliás, afirmou no domingo que seu país deve sofrer escassez de alimentos porque empresários brasileiros estariam comprando arroz e outros produtos bolivianos para produzir biocombustíveis. Ele classificou de imoral dar esse uso a alimentos.No artigo, Frei Betto vai nessa linha. "Vamos alimentar carros e desnutrir pessoas. Há 800 milhões de veículos automotores no mundo. O mesmo número de pessoas sobrevive em desnutrição crônica", diz. "O entusiasmo de Bush e Lula pelo etanol faz com que usineiros alagoanos e paulistas disputem, palmo a palmo, cada pedaço de terra do Triângulo Mineiro."Frei Betto foi assessor especial de Lula até dezembro de 2004. Saiu dizendo que não tinha vocação para o serviço público. Recentemente tem feito críticas ao governo, especialmente à área social.COBRANÇAEm junho, ele lançou o livro Calendário do Poder, uma espécie de diário de sua passagem pelo governo, em que cobra Lula e aponta, com mágoa e rigor, mazelas da administração. Diz, por exemplo, que o Programa Fome Zero foi enjeitado pelos ministros na época: José Graziano, seu comandante, nunca liberava dinheiro, Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação barrava as iniciativas para divulgá-lo e José Dirceu (Casa Civil) não queria discuti-lo. O livro acusa o próprio Lula de abandonar as promessas de mobilizar os grupos sociais.No livro, Frei Betto ironiza d. Mauro Morelli pela pressa em ter um cargo e reclama de invasões do publicitário Duda Mendonça sobre sua área. Também bate duro em Antonio Palocci (Fazenda) pela política econômica e critica a visão "excessivamente estatizante" do ministro Patrus Ananias no Desenvolvimento Social.

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