Fracassa tática de negociação com tucanos

Tentativa de conquistar governadores deixou Serra e Aécio de fora e irritou cúpula do PSDB

Christiane Samarco, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Governadores tucanos aliados do Planalto na defesa da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) já captaram na bancada do PSDB no Senado sinais de resistência à pregação. Assim, a tática do Planalto de negociar com os governadores da legenda no varejo, para arrebanhar votos em favor da emenda que prorroga o imposto do cheque, fracassou.Ao optar por essa estratégia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, agradaram a governadores de Estados pequenos, como a Paraíba de Cássio Cunha Lima, ou de menor peso político no partido, como o Rio Grande do Sul de Yeda Crusius. Deixou de fora, no entanto, os dois governadores mais influentes - Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) - e, pior, ainda irritou a cúpula do partido.Serra e Aécio, que esperavam ser chamados para conversar com Mantega ontem, receberam apenas telefonemas. E em vez de uma proposta ousada que pudesse sensibilizar os senadores, revelando disposição do governo de "pôr a mão no bolso" e ceder recursos em favor dos Estados, do setor produtivo e do cidadão, como sugerira Aécio, ouviram uma negativa do ministro. Segundo um dos vários governadores tucanos com os quais Mantega conversou nas últimas 48 horas, o ministro deixou claro que as concessões que o governo tinha a fazer, no atacado, já foram feitas e negociadas com a base aliada. Em conversa reservada ontem, Aécio reclamou que Minas não obteve nenhum "agrado" do governo que pudesse virar votos no Senado. "O PAC em Minas é ficção. O Estado não recebeu um único real. Só houve transferência substancial de recursos para Belo Horizonte e Contagem, que são prefeituras petistas", desabafou o governador a um parlamentar. As principais reivindicações de Serra e Aécio - a partilha com os Estados dos recursos da Cide (contribuição cobrada sobre o preço dos combustíveis) e a redução de PIS e Cofins para empresas de saneamento - foram ignoradas pela equipe econômica. Um dirigente tucano próximo a Serra diz que, diferentemente de Minas, São Paulo não tem queixas do governo federal este ano. Serra já avaliou que a relação do Estado com a União tem sido "muito positiva".Ele reconhece que houve uma ação do governo federal para facilitar a vida dos Estados este ano e cita não só o aumento do limite de endividamento de São Paulo como a previsão de R$ 1,3 bilhão do PAC para uma obra do Rodoanel. O problema, segundo o dirigente tucano, é que isso não dá argumentos a Serra para fazer a defesa da CPMF na bancada, virando votos, nem sustenta um discurso público do partido em defesa do imposto do cheque.

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