Fotógrafo redescobre personagens de 1968

Autor de famosa foto da Passeata dos Cem Mil, Evandro Teixeira registra em livro o que aconteceu com quem foi à Cinelândia pedir fim da ditadura

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

07 de outubro de 2007 | 00h00

Todas as vezes em que a foto foi exibida, seja em exposição, seja em livro, aparecia alguém para dizer ''''olha eu ali''''. De tanto ouvir a declaração, o fotógrafo Evandro Teixeira,71 anos de vida e 49 de profissão, decidiu localizar pelo menos 68 pessoas no meio da multidão de anônimos que se aglomerou na Cinelândia no dia 26 de junho de 1968 na famosa Passeata dos Cem Mil, marco da luta contra a ditadura militar. A foto foi feita por Evandro do alto da escadaria da Câmara Municipal do Rio. Estava bem ao lado do então líder estudantil Vladimir Palmeira, que discursava empolgado. Na foto, que prodigiosamente mostra um mar de rostos jovens perfeitamente definidos, aparece a faixa ''''Abaixo a ditadura. Povo no poder''''.Em dois anos de pesquisa, Evandro localizou mais de 100 pessoas através de um site (www.evandroteixeira.net/68destinos/home.htm) criado por ele. ''''Cada um que se reconhecia na foto, identificava pelo menos outros quatro'''', conta. Todos estão sendo fotografados, em preto-e-branco, por Evandro para o livro 68 Destinos, que será lançado em fevereiro de 2008, ano em que a passeata completa 40 anos. Evandro quer montar o retrato daquela geração e o que aconteceu com estes personagens quatro décadas depois. Nas sessões de foto na Cinelândia, ele tem se surpreendido. ''''As pessoas se emocionam quando começam a lembrar aquele dia. A maioria lembra como uma época marcante da vida.''''A geração 68 se orgulha daquela tarde de quarta-feira. Estava frio, o sol fraco. Graças a um acordo com o governo, não houve repressão policial. ''''Foi a melhor época da minha vida'''', diz Sônia Abreu, arquiteta, 58 anos. Sônia era presidente do diretório da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio. Ela e centenas de estudantes saíram da Ilha do Fundão, zona norte do Rio, divididos em grupos de dez, para o centro. ''''Estávamos preparados para correr da polícia, mas a passeata foi tranqüila.''''Quando reviu a foto esta semana, Sônia identificou vários companheiros de manifestação, como Maria Augusta Carneiro Ribeiro, presa em 1969 e libertada quatro meses depois, no seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick. Hoje é ouvidora-geral da Petrobrás. ''''Quase 40 anos depois, sinto um carinho enorme por aquilo tudo'''', diz Maria Augusta. Principalmente porque acha que mantém o mesmo espírito. ''''Morreria de vergonha se depois de velha eu tivesse me desvirtuado daquela menina que eu fui aos 21 anos.''''Ao contrário de Maria Augusta e outros amigos, Sônia Abreu não se lançou na luta armada. ''''Não tive coragem, embora eu tivesse convicção de que era o melhor caminho.'''' Desde aquela época, Sônia já tinha uma certa resistência à figura de José Dirceu, então líder estudantil. ''''Ele fazia muitos conchavos'''', critica. Para Sônia, Dirceu continua o mesmo, mas os estudantes mudaram. ''''Agora os jovens são muito parados. Talvez em 68 a gente tivesse um inimigo claro a combater. Hoje é tudo mais nebuloso.''''Em 1968, o sonho era mudar o mundo e derrubar a ditadura. ''''Saímos daquela passeata com a certeza da vitória, achando que a ditadura iria recuar'''', lembra Ernandes Fernandes. ''''Mas estávamos enganados. Meses depois veio o AI-5.'''' Ernandes e a mulher, Elayne, não se conheciam em 1968. Na foto, estão a poucos metros um do outro. Eles só se encontraram dois anos depois, namoraram e casaram. Os dois assinam o projeto gráfico do livro de Evandro. Ernandes já se debruçou sobre a foto várias vezes. ''''O mundo naquela época era preto-e-branco. Ou a gente era de esquerda ou de direita. Naquela passeata, os rostos mostram o clima de confiança de todo mundo.''''Quem viveu aquela quarta-feira não esquece. ''''Foi o meu primeiro momento de expressão de cidadania'''', acredita Roberto Guimarães, economista que trabalhou por 25 anos na ONU. ''''Parte do que se transformou a minha vida tem a ver com aquele garoto que eu era em 1968.''''A foto de Evandro - que virou tese de mestrado em Comunicação e Semiótica de Armando Favaro, editor-assistente de Fotografia do Estado, na PUC-SP - não flagrou nenhum dos rostos famosos da passeata. Estavam lá Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Odete Lara. Mas no meio da multidão estão anônimos que anos depois ganharam certa notoriedade: o cantor Danilo Caymmi, o antropólogo Gilberto Velho, a editora Heloísa Buarque de Holanda, o ex-deputado Moreira Franco.Evandro, que estava lá a serviço do Jornal do Brasil, ficou a passeata inteira grudado em Vladimir Palmeira. ''''Só saí de lá quando ele entrou num Fusca azul e foi embora'''', lembra. Ao contrário da maioria, Vladimir saiu da passeata com a certeza de que a ditadura iria endurecer. ''''Sabíamos que mais dia menos dia viria outro golpe.''''Em um dos textos de 68 Destinos,o jornalista Marcos Sá Corrêa, colunista do Estado, percebe a falta de trabalhadores na foto. ''''É um retrato incrível do Brasil na época, porque tem uma faixa que atravessa a foto dizendo: ''''Povo no poder''''. Você olha e vê uma estudantada branca de óculos, quer dizer, o povo não estava ali naquela praça.''''Evandro ainda sonha em localizar nos próximos meses o único negro que aparece na foto. ''''Dizem que ele mora em São Paulo.''''

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