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Foto em Bíblia distribuída decreta saída de Milton Ribeiro do MEC

Série de reportagens revelou denúncias de corrupção e mostrou como o MEC foi capturado pela atuação de pastores

Breno Pires e Júlia Affonso, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 20h11
Atualizado 28 de março de 2022 | 21h16

BRASÍLIA — A revelação da distribuição de bíblias com a foto de Milton Ribeiro em evento oficial do Ministério da Educação acelerou o fim da gestão do ministro-pastor. A saída veio no mesmo dia em que o Estadão publicou a imagem impressa nos exemplares da Bíblia editada pela Igreja Cristo Para Todos, do pastor Gilmar Santos. Em dez dias, uma série de reportagens revelou como o MEC foi capturado pela atuação dos pastores Gilmar e Arilton Moura com a anuência do ministro.

Na segunda-feira, 28, o Estadão mostrou que, na segunda página da Bíblia distribuída em evento do MEC e na presença de Ribeiro, consta um agradecimento especial ao ministro pela “comunhão especial com o pastor Gilmar Santos”. O texto traz, ainda, uma menção ao prefeito de Salinópolis (PA), Kaká Sena (PL), “pelo patrocínio dessas bíblias”. 

em o MEC nem a prefeitura informaram quem pagou a impresso do livro. A veiculação da imagem do ministro, na avaliação de especialistas em Direito Público, pode configurar em crime. Já os evangélicos condenaram a promoção pessoal em livro religioso.

A ilegal mistura do público com o privado culminando em casos de cobrança de propina pelos pastores ligados a Ribeiro foi exposta nas reportagens publicadas a partir do dia 18 deste mês. A primeira delas trazia a revelação da existência de um gabinete paralelo no MEC, sob liderança do pastor Gilmar Santos e com atuação do também pastor Arilton Moura. Os religiosos abriam as portas do gabinete de Ribeiro para prefeitos e organizavam eventos regionais.

Em julho, Salinópolis foi um dos locais visitados por Ribeiro e os pastores para atender prefeitos que buscavam acessar recursos federais para a área da educação. Durante o evento, houve a distribuição de bíblias.

Na semana passada, foi noticiado o primeiro relato sobre cobrança de propina pelos pastores. O prefeito de Luís Domingues (MA), Gilberto Braga (PSDB), disse que Arilton Moura pediu R$ 15 mil de sinal, para “protocolar” a demanda no MEC, e mais 1 quilo de ouro quando as verbas do orçamento federal fossem reservadas ao município.

O ministro tentou resistir. Em entrevista, disse que pediu investigação da Controladoria-Geral da União (CGU) e declarou que tinha se afastado dos pastores em agosto do ano passado após receber denúncias de suposta cobrança de propina. No entanto, mesmo depois de ter sido informado do esquema, Ribeiro continuou se encontrando com os dois religiosos.

A saída de Ribeiro, o primeiro ministro de Bolsonaro que deixa o cargo por suspeita de corrupção revelada pela imprensa, tem um propósito de estancar a sangria do governo e também o de preservar a imagem do próprio pastor.

O caso está na Polícia Federal, no Ministério Público Federal (MPF) e no Tribunal de Contas da União (TCU). Com base nas reportagens, o MPF pediu abertura de inquérito para apurar o envolvimento do ministro da Educação com os dois pastores por suposta prática de crimes.

 

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