Fósseis sugerem nova linha de evolução do homem

Os primeiros ancestrais do homem que deixaram a África rumo à Europa e à Ásia há cerca de 2 milhões de anos podem ter sido muito menos inteligentes do que se costumava acreditar. Fósseis encontrados em escavações feitas na antiga república soviética da Geórgia revelaram que o cérebro do Homo erectus, o primeiro humano conhecido pela ciência a ter deixado a África, era até 25% menor do que pesquisas anteriores indicavam. A descoberta, feita por uma equipe da Academia de Ciências da Geórgia, em Tbilisi, desafia as visões tradicionais sobre os primeiros passos da evolução humana, que asseguravam que o deslocamento do Homo erectus pelo mundo havia sido possibilitado por seu cérebro maior e por sua inteligência superior.Para alguns especialistas, a migração só teria ocorrido após os humanos terem desenvolvido cérebros maiores que os do Homo erectus, tornando-se capazes de construir ferramentas mais sofisticadas.A descoberta - a ser publicada em detalhes na edição de amanhã da Science - consiste de um crânio e uma mandíbula pertencentes a um indivíduo que viveu há 1,7 milhão de anos.Os fósseis foram encontrados em um sítio arqueológico em Dmanisi, na Geórgia. No mesmo local, pesquisadores já haviam descoberto há dois anos dois outros fósseis de hominídeos, que também seriam os primeiros Homo erectus ou Homo ergaster, datados de 1,8 milhão de anos.O novo crânio - que pode pertencer às mesmas espécies - é menor e mais primitivo que os dois. Tem a região das sobrancelhas elevada, nariz curto, grandes caninos e, o mais significativo, uma cavidade craniana muito menor do que as já vistas em fósseis de Homo erectus.O cérebro teria tido 600 centímetros cúbicos. Espécimes similares tinham 800 e os humanos modernos, pelo menos 1.200.David Lordkipanidze, que liderou a equipe de pesquisadores, disse que a descoberta indica que o aumento do cérebro não foi a única razão que levou o Homo erectus a deixar a África e a se espalhar pelo mundo. "Acredito que tenha havido uma combinação de razões, não apenas uma", disse ele. O chefe do departamento de origem humana do Museu de História Nacional, de Londres, classificou a descoberta de espetacular. "Os cérebros pequenos (dos humanos representados pelo fóssil) e a sua tecnologia primitiva sugerem que o primeiro êxodo da África há cerca de dois milhões de anos não exigia necessariamente mudanças evolutivas ou adaptações especiais", disse ele.Para outro especialista, o arqueólogo e geólogo da Universidade do Norte do Texas Reid Ferring, a mandíbula encontrada juntamente com o crânio pode pertencer a um terceiro hominídeo, o Homo habilis, mais primitivo que o erectus. "Isso era completamente inesperado porque até agora as visões científicas que prevaleciam colocavam o habilis, o ergaster e o erectus em uma seqüência evolutiva", disse Ferring. Agora, acrescenta ele, há uma possibilidade de que eles tenham estado juntos no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Essa interpretação, porém, não é referendada por outros especialistas.Milford Wolpoff, da Universidade de Michigan não acredita os fósseis da Geórgia representem mais que uma espécie. Ele sugere que o crânio menor descoberto agora tenha pertencido a um jovem que ainda estava se desenvolvendo.

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