Forças Armadas vão à TV popular

A estratégia de marketing das Forças Armadas para reforçar a imagem da instituição perante a opinião pública e obter apoio para seus pleitos orçamentários no Congresso adotou, como foco, a participação em programas populares de televisão dirigidos a todos as classes sociais, mas especialmente aos segmentos "C", "D" e "E" de telespectadores. Esses setores da população representam a maioria do eleitorado e têm peso na formação da opinião pública, que teoricamente influencia as decisões dos congressistas. O melhor nessa ofensiva de comunicação, segundo o Centro de Comunicação Social do Exército, é que ela resulta de interesse voluntário da mídia, o que significa espaço e horas de exposição a custo zero.Os exemplos são múltiplos e anunciados nas páginas que os comandos militares mantém na Internet. O Exército está preparando, por exemplo, uma participação no "Domingão do Faustão", um dos mais populares das tardes de domingo, cujos telespectadores devem assistir a uma reportagem com artistas globais interagindo em treinamentos da aviação do Exército, em Taubaté. Em programas desse tipo, os porta-vozes militares nunca deixam de chamar a atenção para suas dificuldades orçamentárias e para o melhor preparo que teriam se mais recursos fossem destinados a eles. O Exército conseguiu inserir, também em horário nobre, programas sobre suas atividades na selva amazônica e, quando solicitados, seus representantes comparecem a programas populares, como "Mais Você", da Globo, "Note e Anote", e "É Show", da apresentadora Adriane Galisteu na Record. Nesta semana, a aeronáutica permitiu filmagens e cedeu imagens para reportagens de televisão sobre o uso dos velhos caças franceses Mirages na Base Aérea de Anápolis. A Marinha, por sua vez, ocupou espaços no "Fantástico", no último domingo, para exibir o treinamento de marinheiros e pilotos de caça no porta-aviões São Paulo, comprado por US$ 12 milhões da França."Nós não sabemos se aquelas onças serão mesmo capazes de atacar alguém, mas assusta saber que elas existem e temos controle sobre elas no meio da selva", explica um general da reserva sobre as imagens de impacto mostradas pelo Globo Repórter, dez dias depois do ataque terrorista nos EUA, a respeito da presença militar brasileira na Amazônia. A onça pintada é mascote dos quartéis e animal de treinamento de guerra. "No mínimo", acrescentou o general, "essas cenas mostram que tipo de combatente eventual inimigo pode ter de enfrentar". Pela TV fica-se sabendo que as unidades treinadas para proteger a Amazônia incorporam indígenas e técnicas de lutas antigas com arco e flecha e armadilhas mortíferas, com cipós e estacas. Parece cinema, mas é real. Se funcionará no mundo da guerra biológica e dos mísseis inteligentes, é outra história.Mas, para atrair mesmo a atenção, os estrategistas de comunicação marcaram um golaço por terem convencido o ex-soldado do Exército e velocista Robson Caetano a participar do "Esporte Espetacular", transmitido domingo passado pela Globo. Caetano ancorou imagens de treinamento e mostrou a importância para a defesa da Amazônia do Centro de Instrução de Guerra na Selva.Desde a redemocratização do País em 1985, marcada pela posse de um civil, José Sarney, no lugar de um general, João Figueiredo, na presidência da República, é a primeira vez que os militares ganham espaço nos meios de comunicação de maneira tão favorável, em programas e horários de grande audiência. E tratam de aproveitar a oportunidade para desfazer a impressão de que depois do regime militar, não haveria nenhum papel a ser cumprido. Os ataques terroristas do dia 11 de setembro a alvos nos Estados Unidos e o conflito militar dele decorrente, com tentáculos que se estendem também à América Latina e o Brasil mostraram - argumentam as fontes militares - que a prevenção, o preparo e o equipamento adequado são indispensáveis para a defesa do País.

Agencia Estado,

17 de outubro de 2001 | 17h12

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