Força-tarefa prende 12 em Campinas e prefeito fica na mira

Alvo da investigação de esquema de fraudes em licitações é a mulher do pedetista Dr. Hélio, Rosely, que ficou livre por dispor de habeas corpus

Rose Mary de Souza e Fausto Macedo,

20 de maio de 2011 | 08h38

Policiais na Prefeitura de Campinas: oito são considerados foragidos, entre eles vice-prefeito

 

CAMPINAS e SÃO PAULO - Força-tarefa do Ministério Público, Polícia Militar e Corregedoria da Polícia Civil prendeu nesta sexta-feira, 20, 12 suspeitos de envolvimento em organização criminosa para desvio de recursos públicos, corrupção e fraudes em licitações da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S/A (Sanasa), em Campinas (SP).

 

A operação, deflagrada às 6 horas com base em ordem judicial, mobilizou 130 policiais e 30 promotores que cercaram a invadiram o prédio da prefeitura. Oito investigados conseguiram escapar - o vice-prefeito Demétrio Vilagra (PT) está na Espanha e será detido ao retornar ao País.

 

O alvo principal da investigação é Rosely Nassim Jorge Santos, chefe de gabinete e mulher do prefeito Hélio de Oliveira Santos, o Dr. Hélio (PDT). A promotoria suspeita que Rosely comandava pessoalmente a rede de empresários e servidores e direcionava processos de concorrência para obras de grande porte da autarquia de águas, além de contratos celebrados com empresas de segurança, conservação e limpeza. Ainda não há dados sobre o montante do rombo.

 

Depoimentos indicam que Rosely recebia propinas de 5% a 7% do valor supostamente desviado de cada contrato. A promotoria apreendeu com uma testemunha, na fase de investigação, planilha manuscrita em que o nome da primeira-dama é citado ao lado de grandes valores. O documento, juntado aos autos do inquérito, mostra uma divisão de dinheiro para integrantes da organização.

 

O Ministério Público queria prender Rosely, mas ela obteve há duas semanas habeas corpus do Tribunal de Justiça que lhe dá proteção contra qualquer "medida coercitiva". A primeira-dama nega ser a mentora do golpe.

 

Na Câmara Municipal de Campinas, a maioria dos 33 vereadores se reuniu para discutir a formação de uma comissão para investigar o caso. A oposição fala em provável impeachment de Dr. Hélio, que não se manifestou sobre a devassa em sua administração - além do vice, estão foragidos os dois secretários municipais mais próximos do prefeito, Carlos Henrique Pinto (Segurança Pública) e Francisco de Lagos (Comunicações).

 

Carabinas. Com quatro dos detidos, a força-tarefa apreendeu documentos e dinheiro em espécie. Os agentes recolheram R$ 114 mil. Na residência do vice-prefeito, foram encontrados R$ 60 mil; na casa de Henrique Pinto, R$ 24 mil; no porta-malas do carro do ex-diretor de Planejamento, Ricardo Candia, estavam escondidos R$ 30 mil. Foram apreendidos computadores, duas carabinas e duas pistolas.

 

Ao requerer a prisão do grupo, os promotores sustentaram a existência de "desvios milionários de verba pública". Removidos por homens da Rota do prédio-sede da Corregedoria da Polícia para o Instituto Médico-Legal, os acusados foram vaiados, aos gritos de "ladrão", "sem-vergonha" , "safado". Mais tarde, todos foram levados para celas do 2.º Distrito Policial.

 

Desdobramento. Os promotores atuam no Núcleo Campinas do Gaeco, braço do Ministério Público Estadual que combate o crime organizado. A investigação sobre fraudes na Sanasa é desdobramento de outro inquérito do Gaeco, que revelou licitações forjadas em pelo menos 9 prefeituras de São Paulo e no governo do Tocantins, durante a gestão Carlos Gaguim (PMDB). O empresário José Carlos Cepera e o lobista Maurício Manduca são suspeitos pelo desfalque de R$ 615 milhões.

 

Na quinta-feira, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) derrubou liminar que mantinha Cepera e seus aliados em liberdade. Era o que o Ministério Público esperava para deflagrar a missão de ontem. O juiz Nelson Bernardes informou que determinou a prisão dos suspeitos "para propiciar a conclusão de uma investigação na qual há suspeita de envolvimento de empresários e agentes políticos por fraudes licitatórias". O juiz decretou prisão temporária dos acusados por cinco dias.

 

A assessoria do vice-prefeito Vilagra informou que ele "está em férias desde a semana passada e em viagem a Espanha", mas deve antecipar o seu retorno. O secretário jurídico da prefeitura, Antonio Caria Neto, disse não conhecer o processo e, por isso, não poderia comentar o caso.

 

O advogado Augusto Arruda Botelho, que defende o diretor da Sanasa, Aurélio Cance, disse que vai analisar qual medida deve adotar. O advogado Ralf Tórtima Filho, defensor de Ricardo Candia, também disse que ainda vai estudar o caso.

 

PRESOS ATÉ AGORA

Aurélio Cance Jr. (Diretor da Sanasa)

Ricardo Chimirri Cândia (Ex-diretor de Planejamento da Prefeitura)

Gregório Wanderley Cerveira (Empresário - Hydrax)

João Thomaz Pereira Jr. (Empresário - Hydrax)

João Carlos Gutierrez (Empresário)

Alfredo Ferreira Antunes (Empresário)

Augusto Ribeiro Antunes (Empresário)

Marcelo Figueiredo (Empresário)

Luiz Arnaldo Pereira Mayer (Empresário)

Pedro Luís Ibrahim Hallack (Empresário - Consultora Camargo Correia)

Valdir Carlos Boscato (Empresário - Ex-conselheiro da Sanasa)

CONSIDERADOS FORAGIDOS

Demétrio Vilagra (Vice-prefeito de Campinas)

Carlos Henrique Pinto (Secretário de Segurança de Campinas)

Francisco de Lagos (Secretário de Comunicação de Campinas)

Ivan Goretti de Deus (Promotor de Eventos)

Maurício de Paulo Manduca (Lobista)

Emerson Geraldo de Oliveira (Lobista)

José Carlos Cepera (Empresário - Pluriserv Serviços Técnicos Ltda.)

Gabriel Ibrahim Gutierrez (Empresário - Gutierrez Empreendimentos e Participacoes Ltda)

Dalton dos Santos Avancini (Empresário – Construtora Camargo Correa)

Texto atualizado às 22h11

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