Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Força-tarefa da Lava Jato conta com mais delações

Investigadores esperam ampliar lista de Janot por meio de colaborações de envolvidos nas diretorias controladas pelo PT e pelo PMDB

BEATRIZ BULLA E TALITA FERNANDES, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2015 | 02h08

BRASÍLIA - Investigadores da Operação Lava Jato contam com a nova prisão do ex-diretor da Petrobrás Renato Duque e com a denúncia contra ele e o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, para engrossar a lista de suspeitos de envolvimento no esquema de desvios da estatal sob investigação no âmbito do Supremo Tribunal Federal. A lista de autoridades e pessoas ligadas aos inquéritos abertos na Corte tende a aumentar, conforme pessoas que atuam na operação que completa um ano hoje.

Os investigadores esperam que novos personagens se tornem colaboradores da Lava Jato, já que ainda não há acusações formais contra as pessoas arroladas na lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Na força-tarefa da operação, a brincadeira é que está por vir uma "segunda chamada do vestibular na qual ninguém quer entrar".

Se Duque, preso ontem na 10.ª fase da Lava Jato, Vaccari, o lobista Fernando "Baiano" Soares e o ex-diretor da estatal Nestor Cerveró aceitarem dar mais detalhes do esquema, mais políticos podem ser citados. Para a Procuradoria, as diretorias da Petrobrás foram "fatiadas" por partidos e as investigações, até agora, avançaram mais na área controlada pelo PP - a de Abastecimento, do ex-diretor Paulo Roberto Costa. A Diretoria de Serviços, chefiada por Duque entre 2003 e 2012, era de indicação do PT, e a Internacional, ocupada por Cerveró, do PMDB. Mesmo nomes que tiveram seus casos arquivados podem reaparecer.

Janot apresentou ao Supremo e ao Superior Tribunal de Justiça pedidos para investigar 54 pessoas, entre senadores, deputados e governadores. Os pedidos foram aceitos pelos ministros Teori Zavascki, do STF, e Luís Felipe Salomão, do STJ, que acataram a solicitação para retirar o sigilo das investigações.

Após a abertura dos inquéritos nos dois tribunais, tem início a fase de diligências, quando são feitas ações adicionais para levantar mais indícios que possam comprovar ou negar os atos criminosos narrados pelos delatores da Lava Jato, o ex-diretor Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef.

'Teste'. Junto aos pedidos de inquérito, Janot solicitou oitiva de testemunhas, recolhimento de documentos e eventual quebra de sigilos telefônico e bancário. Cabe à Procuradoria conduzir as diligências de investigação dos políticos citados, com a supervisão dos tribunais. A fase é considerada o "teste de consistência" das delações.

O grupo de procuradores formado em janeiro por Janot para preparar o material encaminhado ao STF segue trabalhando no caso. Para apresentar os pedidos de inquérito, a Procuradoria contou com o trabalho de 12 procuradores, além do próprio Janot. Apesar de a Lava Jato completar um ano hoje, a elaboração do material enviado ao STF e ao STJ começou apenas em 14 de janeiro, quando a Procuradoria foi intimada pelo STF sobre a divisão das delações premiadas em partes - conforme pedido no fim de 2014.

Em pleno recesso, procuradores anteciparam a volta das férias. A primeira reunião informal do grupo de trabalho ocorreu em 16 de janeiro. Foram quase 50 dias de trabalho direto até o material ser enviado ao STF.

'Couro curtido'. A pressão sobre a Procuradoria, garantem pessoas ligadas à investigação, não influenciou nos trabalhos dos procuradores, que "têm o couro curtido". O grupo formado por Janot inclui gente de diversas regiões do País, como Sergipe e Bahia. "Aqui eles apanham no jornal. Lá, na padaria", resume uma fonte ligada ao grupo. A pressão dos parlamentares investigados - e críticas ao Ministério Público - é vista quase como confissão de culpa. "Você sabe por que ele está nervoso? Não. Mas ele sabe", diz um integrante do Ministério Público.

Na Procuradoria uma corrida contra o tempo foi estimulada por dois fatores: o receio de que ocorresse prescrição em algum dos casos - já que os fatos investigados datam desde o início dos anos 2000 - e a crescente especulação causada pelo sigilo dos depoimentos de Costa e Youssef. O segredo foi imposto em razão das delações.

A complexidade do caso fez a Procuradoria montar o "superinquérito" em que 39 pessoas são investigadas por formação de quadrilha. Desde o início dos trabalhos, Janot quis evitar um "maxiprocesso" para dar celeridade ao andamento do caso, mas a complexa organização do esquema exigiu a reunião de muitos suspeitos em uma só investigação. "Pode sair deste inquérito a história que o Brasil inteiro quer ouvir", diz um integrante do Ministério Público.


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