Força do PMDB já preocupa o Planalto

Vitória eleitoral do partido pode ser começo do fim da atual base aliada

Marcelo de Moraes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2008 | 00h00

A lua de mel do governo federal com sua base de sustentação no Congresso já não existe mais. Depois de passar praticamente o ano inteiro aprovando todos os projetos de seu interesse, aproveitando os altos índices de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo não tem mais controle político sobre seus aliados na Câmara e Senado e registra, com preocupação, o início de recuperação do discurso oposicionista.Isso não significa que o governo vai perder todas as votações do seu interesse. Mas representa o aparecimento de desgaste na conversa com os parlamentares, além do risco de aprovação de despesas que a equipe econômica considera indesejáveis. Nos últimos dias, o governo viu senadores do PMDB, seu principal partido aliado, comandarem uma insurreição contra a medida provisória 446, que anistia as entidades filantrópicas, e sua devolução ao Executivo - um desafio que não ocorria desde 1989.Assistiu ainda o senador petista Paulo Paim (RS) liderar o movimento de aprovação do projeto de lei 58, na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, que prevê a recomposição do valor de aposentadorias e pensões da Previdência Social, num período de cinco anos. O impacto financeiro da proposta - que ainda precisa passar pelo plenário do Senado - provoca arrepios na equipe econômica e no Ministério da Previdência Social: ele chega a R$ 76,6 bilhões anuais. Paim ainda provocou outro mal-estar ao organizar uma vigília madrugada adentro, no plenário do Senado.RISCOS NA SUCESSÃO"Sei que estou criando um problema para mim dentro do governo, mas paciência. Não dá para ficar parado e não defender o reajuste", justifica o senador.O Palácio do Planalto também enfrenta enormes dificuldades para administrar o processo de sucessão para as presidências da Câmara e do Senado, especialmente na relação entre PMDB e PT. A própria convivência com os peemedebistas, fortalecidos pelo ótimo desempenho nas eleições municipais, tornou-se um fardo diário para o governo.Para o PT, a solução ideal seria a pura divisão do poder nas duas Casas. O PMDB ficaria com a Câmara, com Michel Temer (SP), e o PT levaria o Senado, com Tião Viana (AC). É pouco provável, porém, que o desfecho seja esse. O PMDB abortou rapidamente esse plano ao cobrar o cumprimento do acordo feito dois anos atrás na Câmara e que garantiu a eleição de Arlindo Chinaglia (PT) para comandar a Casa com o apoio peemedebista. Em troca, o PT teria que apoiar um peemedebista para a sucessão de Chinaglia. Os peemedebistas lembraram que essa aliança nunca inclui o processo sucessório do Senado e que o partido também pleiteia essa presidência, que pode ficar com José Sarney (PMDB-AP). O Planalto teme que essas dissidências abram espaço para a eleição de um candidato pouco alinhado com o governo e que traga ainda mais problemas. Além de ser protagonista na disputa sucessória do Congresso, o PMDB tem cobrado mais espaço dentro do governo - pressionando Lula até para trocar um ministro do partido (José Gomes Temporão, da Saúde). Em contrapartida, o ministro reagiu cobrando mudanças na Fundação Nacional de Saúde (Funasa), reclamando de irregularidades na gestão da autarquia, tocada pelo próprio partido.Para evitar nova crise, Lula decidiu contemporizar. Manteve o ministro e autorizou mudanças pontuais na Funasa. Mas, segundo interlocutores, achou mais prudente não tomar nenhuma medida radical que pudesse provocar novos atritos na relação com o PMDB. O presidente registrou o problema e, conforme relato de aliados, desconfia que alguns líderes da legenda começam a ensaiar o desembarque da base aliada.Essa fratura da base é provocada por uma mistura de componentes. A crise financeira internacional enfraqueceu a economia do governo, justamente um dos pontos que garantiam seu prestígio e tiravam os argumentos da oposição no debate político. O cenário agora aponta para retração do crescimento econômico, contrariando os planos do governo de faturar politicamente esse desenvolvimento.Ao mesmo tempo, o mau resultado eleitoral do PT nas grandes capitais acendeu o sinal de alerta entre os aliados e espalhou pelo Congresso um ar de incerteza em relação ao xadrez político de 2010. Sem ter Lula na próxima disputa eleitoral e com o governador de São Paulo, José Serra, se fortalecendo como principal nome da oposição, os partidos aliados do governo têm "flexibilizado" sua lealdade ao Palácio do Planalto.De quebra, o PMDB percebeu seu fortalecimento político e seu potencial para poder desequilibrar a sucessão de 2010, dependendo do candidato que apoiar. Assim, passou a jogar com esse prestígio nas negociações com o governo dentro e fora do Congresso.GOVERNO X ALIADOS{TEXT}Pressão por aumento para os aposentadosO senador petista Paulo Paim (RS) organizou movimento no Congresso para garantir vantagens aos aposentados, aumentando o valor das aposentadorias e pensões. Somente com uma de suas propostas, aprovada na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, o governo calcula um impacto de R$ 76,6 bilhões anuais, que diz não ter como pagar. A mobilização incluiu uma vigilância no plenário do Senado durante a madrugada com o apoio de vários governistasGuerra das MPsIrritados com a quantidade de medidas provisórias enviadas pelo governo para o Congresso, senadores se rebelaram contra a chamada MP das entidades filantrópicas. O envio da medida, que anistia entidades com contas supostamente irregulares, foi considerado uma afronta e foi devolvida para o governo. A ação foi liderada pelo presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), e por outros senadores peemedebistas Sucessão na Câmara e no SenadoPMDB e PT não conseguem chegar a um acordo sobre a divisão do poder no controle do Congresso. O PT já recuou na Câmara e dará apoio a Michel Temer (PMDB-SP), mas não consegue convencer os peemedebistas a desistirem da presidência do Senado em favor do petista Tião Viana (AC). O risco do governo é perder o controle de alguma das Casas para umcandidato independente ou de oposição, caso a base se frature demaisBriga por cargosO PMDB pediu a Lula a demissão do peemedebista José Gomes Temporão do Ministério da Saúde. O ministro, por sua vez, pediu para mudar a Funasa, núcleo histórico de poder de lideranças peemedebistas. O presidente preferiu não entregar a cabeça de Temporão nemreestruturar a Funasa, mas deve manter postos importantes na autarquia para entregar aoslíderes do PMDB. O partido também tenta tirar o petista Tarso Genro do Ministério da Justiça

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