Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Fora do comando da Câmara, Maia vai tentar articular frente anti-Bolsonaro em 2022

Políticos que convivem com deputado dizem que se ele ficar no DEM reduzirá seu tamanho e apostam que numa nova sigla vai se tornar o grande articulador da sucessão presidencial

Felipe Frazão e Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2021 | 19h47

BRASÍLIA – O fim da era Rodrigo Maia no comando da Câmara ocorre em um momento de dilema vivido pelo deputado. A dúvida é se ele deve sair do DEM, partido agora dominado por lideranças cooptadas pelo governo. Nos últimos dias, ele e o presidente Jair Bolsonaro travaram queda de braço na disputa pelo controle da Casa. A legenda decidiu abandonar a campanha de Baleia Rossi (MDB-SP) e apoiar o líder do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), candidato do Palácio do Planalto. A eleição ocorre na noite desta segunda-feira, 1º.

Se permanecer na legenda, o parlamentar de 50 anos, quase cinco deles no comando da Câmara, será mais um congressista, avaliam aliados. Fora, Maia será cobiçado por outras legendas e terá condições de se tornar um player influente do campo oposicionista no processo sucessório de 2022.

Os mesmos aliados observam que ao ser eleito para chefiar a Casa, segundo posto na linha de sucessão da Presidência da República, em 2016, o parlamentar tomou de Eduardo Cunha (MDB), presidente cassado e preso por irregularidades, o Centrão, bloco dos partidos fisiológicos. Na reta final da campanha deste ano na Câmara, foi o grupo governista quem se apossou do DEM.

Uns veem Maia como malabarista. Isso num tempo de impeachment de uma presidente de esquerda, Dilma Rousseff, de processo de afastamento interrompido do sucessor dela, Michel Temer, e de cobranças nas redes para considerar crime a gestão de Bolsonaro na pandemia que matou até o momento 224 mil brasileiros. Outros o enxergam como um político que apenas soube ocupar o vácuo na interlocução entre setores moderados de direita e esquerda, grupos empresariais e o mercado financeiro.

No tempo de polarizações e ideologias anacrônicas, Maia manteve a pauta econômica como prioridade da Casa. Foi decisivo na aprovação da PEC do Teto de Gastos e outras propostas de Temer. Chegou a ser chamado de “primeiro-ministro”. No governo Bolsonaro, conseguiu aprovar uma reforma da Previdência enquanto o presidente defendia mais armas para a população. O parlamentar soube ainda fazer pontes nos tribunais. Ele chegou a travar propostas que desagradavam o Judiciário e se postou ao lado de ministros da Suprema Corte nos atos antidemocráticos promovidos por Bolsonaro. Ao mesmo tempo, se limitava a notas de repúdio diante dos arroubos autoritários do presidente.

É essa expertise de busca de diálogo que leva muitos no Congresso a apostar que Maia não terá o fim de antecessores como Aldo Rebelo, Marco Maia e Efraim Ribeiro, hoje figuras sem expressão. Há quem observe ainda que a família Bolsonaro e sua militância digital levará um bom tempo para tirar Rodrigo Maia da posição de adversário favorito. Nos últimos anos, a rede de fake news ligada ao clã não poupou o parlamentar.

Por sua vez, ministros do Palácio do Planalto pregam que ele não é confiável e sempre quis derrubar o governo. Rodrigo Maia derrubou, sim, toda a agenda besteirol e de costumes de Bolsonaro, além de projetos de desmonte da máquina pública.

A aposta do grupo de Maia é que ele, sempre associado à velha política pelo bolsonarismo, possa aproveitar, na reta final do atual governo, o desgaste de um presidente cada vez mais ligado ao Centrão e a figuras com condenações por improbidade - é justamente o caso de Arthur Lira, aliado do Planalto, acusado pelo Ministério Público de liderar o esquema de “rachadinhas” na Assembleia de Alagoas.

Independentemente do resultado das eleições na Câmara, Maia vive um momento de avaliar partidos para abrigá-lo e análises de composições que podem fazer frente a Bolsonaro em 2022. A criação de uma Frente Ampla de partidos em defesa da candidatura de Baleia foi a primeira tentativa robusta de unir campos opostos desde a redemocratização. Mesmo com o DEM e o PSDB sucumbindo às verbas e cargos oferecidos pelo Planalto, Maia conseguiu reaproximar o PT e outros partidos de esquerda com um antigo aliado: o MDB, legenda com maior número de prefeituras.

Nos próximos dias, Maia ainda terá de responder a críticas. Lideranças da frente de partidos montada por ele para a disputa da Câmara reclamam da demora em manifestar apoio a Baleia. Até o início de dezembro do ano passado, quando a campanha de Lira já estava na praça, Maia não tinha anunciado quem seria o escolhido. Embora nunca admitisse, o parlamentar esperava uma decisão do Supremo Tribunal Federal que permitisse disputar um novo mandato, avaliaram aliados. Com a Corte rejeitando a possibilidade, no dia 7 daquele mês, ele ainda ensaiou lançar Agnaldo Ribeiro (PP-PB).

Mesmo se tivesse posto o nome de Baleia na disputa com antecedência, Maia e seu grupo enfrentariam dificuldades para conter a enxurrada de recursos do governo para agradar aliados e conter o candidato do MDB. O gabinete do ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, tornou-se um QG da campanha do deputado alagoano e um centro distribuidor de verbas. O Estadão revelou que, em dezembro, foram empenhados R$ 3 bilhões só em obras do Ministério do Desenvolvimento direcionadas a redutos eleitorais de deputados e senadores.

Bolsonaro abriu possibilidade ainda de entregar ministérios ao Centrão e a forças que abandonaram Rodrigo Maia, como o presidente nacional do DEM. ACM Neto, herdeiro do carlismo, grupo do avô e senador baiano que tinha apetite voraz por verbas e poder, apoiou a “neutralidade” do partido na disputa na Câmara, isto é, aderiu a Bolsonaro e abandonou a Frente Ampla. Entre os traidores do partido está o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA), com quem Maia morava, dividindo o apartamento funcional em Brasília. Eram amigos próximos, mas Elmar se rebelou ao ser preterido na escolha do sucessor e após receber do governo R$ 5 milhões em verbas extras para direcionar a seu reduto eleitoral.

TV ESTADÃO: Protestos pelo impeachment do presidente Bolsonaro

O ex-deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA), vice-presidente do partido, tenta contemporizar. “Depois da eleição vamos tentar nos unir de novo, rever os excessos. Acho que vai recompor. Essas coisas passam. Rodrigo tem história, Neto também, já viveram muitas coisas”, disse.

Nas últimas 48 horas, Maia teria ameaçado abrir processo de impeachment contra Bolsonaro pela cooptação de deputados do DEM. “Nunca disse que ia abrir”, afirmou ontem o deputado, torcedor do Botafogo, time conhecido na crônica esportiva por provocar surpresas nos acréscimos de um jogo, ruins ou agradáveis.

Maia recebeu acenos para assumir um cargo de primeira linha no governo de São Paulo. A reportagem apurou que o governador João Doria (PSDB) deixou claro ao deputado que as portas do Palácio dos Bandeirantes estão abertas a ele. Maia, no entanto, resiste a assumir cargos regionais. Ao Estadão, disse em dezembro que descartava, por exemplo, participar da gestão do prefeito Eduardo Paes (DEM), de quem é amigo, no Rio de Janeiro. A irmã gêmea dele, Daniela Maia, preside a RioTur. “Eu construí um ambiente de articulação política nacional”, disse.

O desejo de Maia era construir uma opção de candidatura nacional no DEM – ainda que não para si. Em 2018, seu nome chegou a ser testado pelo Democratas para disputar a Presidência da República, mas Maia recuou por impopularidade. O pai dele, o ex-prefeito do Rio e vereador Cesar Maia, quadro histórico do partido, ficou contra.

Maia almeja a articulação de uma frente alternativa a Bolsonaro que reúna setores da esquerda e da direita. Não descartou candidatura, nem assumir a coordenação da frente e ter cargos em governo. A área que lhe atrai, segundo disse, é a de modernização do Estado. Segundo avalia, o maior entrave à união entre os partidos é a agenda econômica pouco convergente entre presidenciáveis como Doria, Ciro Gomes (PDT) e Luciano Huck (sem partido).

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