''Fomos leais com o PMDB e esperamos reciprocidade''

Aloizio Mercadante: senador (PT-SP); bancada petista no Senado reage ao pedido dos peemedebistas por mais cargos e à ameaça de debandada do governo

Entrevista com

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

05 de novembro de 2008 | 00h00

Começou a reação petista ao PMDB, aliado que, mesmo aninhado nos ministérios e nas estatais, ameaça o Planalto com pedidos de mais cargos ou de debandada. É no Senado, espécie de bunker de reivindicação e diapasão das demandas do PMDB, fortalecido com as eleições municipais, que a reação do PT é mais forte. De Montevidéu, onde participa de uma reunião do Parlamento do Mercosul, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) conversou com o Estado, por telefone. Disse que o PMDB saiu mais forte das urnas graças, também, à aliança com o governo. "Trabalhei pessoalmente para que o PMDB entrasse no governo e participasse da coalizão", afirma o senador. Ao lembrar que a bancada petista do Senado não tem cargos no primeiro escalão federal, destacou que seu partido abriu mão até da liderança do governo para o PMDB do Senado, que comanda dois ministérios e todo o setor elétrico. O PMDB pretende ser conduzido simultaneamente à presidência da Câmara e do Senado. "Apresentamos a candidatura de Tião Viana (PT-AC) a presidente da Casa e, agora, queremos e esperamos reciprocidade", concluiu. O PT colocou a candidatura do senador Tião Viana com o discurso de que ele vai até o fim. Isto significa que a briga PT-PMDB pode acabar com uma disputa em plenário? A disputa é uma hipótese, mas esperamos não discuti-la. Estamos apresentando o nome do Tião para que seja apreciado pelo PMDB e pelos demais partidos da base. Escolhemos Tião porque ele tem longa vivência na Mesa Diretora e bom trânsito na Casa. Não queremos que ele seja expressão do PT, apenas. Queremos que seja presidente da instituição Senado, que preserve a independência do parlamento e dialogue com todas as forças políticas, inclusive a oposição. Quando o senhor diz que o PT colocou um nome para ser apreciado, isto não enfraquece a candidatura de Tião Viana? Não, porque não temos outro caminho. Impor o nome dele não o fortalece. Com o voto secreto para presidente, imposição não funciona. E se temos que trabalhar no convencimento e no diálogo, o que fizemos foi dar maior estabilidade à candidatura. Como o senhor vê a movimentação do PMDB para disputar com o PT a presidência do Senado? A bancada do PT se empenhou pelo governo de coalizão, desde o primeiro governo Lula. Eu, em particular, trabalhei muito para isto junto ao presidente. Ajudei a trazer o PMDB que, em um primeiro momento, teve dois senadores ministros da Previdência Social: Amir Lando (RO) e Romero Jucá (RR), hoje líder do governo. O PMDB diz ter direito a indicar o presidente na condição de maior bancada do Senado. O PT também abriu mão de espaço para o PMDB no Legislativo. No início do governo Lula, eu acumulava as lideranças do governo no Senado e no Congresso. Depois, o líder no Congresso foi o Fernando Bezerra (PTB-RN) e, agora, os dois líderes são do PMDB: Jucá e Roseana Sarney. O PT avalia que os senadores do PMDB já têm espaço demais no Executivo e no Senado? O que estou dizendo é que a bancada do PT e o bloco governista não têm nenhum ministro e nenhuma das lideranças. O PT do Senado colaborou, e muito, pela coalizão. No início da nossa aliança, o PMDB se queixava de pouco espaço e o PT foi generoso. Fomos extremamente leais com o PMDB nos últimos seis anos e queremos e esperamos reciprocidade. Com que argumentos o PT espera convencer o PMDB? Temos argumentos políticos e acredito na racionalidade da política. Nossos argumentos são muito consistentes. Com todo o fortalecimento que o PMDB teve com nossa aliança, agora é nossa vez de presidir o Senado. A bancada peemedebista tem dois ministérios, as duas lideranças do governo e o comando de todo o setor elétrico. Apoiamos a indicação do senador José Sarney (AP) para presidente, apoiamos Renan contra José Agripino (DEM). Agora colocamos o nome de Tião e seria muito importante que o PMDB aceitasse. Não é possível que queiram também a presidência das duas Casas. Mas o acordo de revezamento entre o PT e o PMDB na presidência da Câmara não envolveu o Senado. Foi muito positivo o entendimento entre o PT e o PMDB na Câmara. Tanto que nossa bancada decidiu não colocar condição alguma e não fazer nenhuma imposição para apoiar a candidatura do deputado Michel Temer (de São Paulo, presidente nacional do PMDB) à presidência da Câmara. Queremos que haja o reconhecimento dessa história de seis anos de apoio às reivindicações do PMDB do Senado. O PT não teme uma interferência do presidente Lula para evitar o confronto em favor da candidatura Sarney, por exemplo, que o próprio Lula já defendeu como solução institucional? Seguramente o presidente Lula respeitará o processo do próprio Senado na construção do entendimento. É muito importante preservar a independência do Parlamento. O governo deve operar para manter a unidade da base aliada no Congresso.

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